Saltar para o texto
Primeira Câmara
Tamanho da letra

Atrindade Hinduista

Tema 0.529 · Temas Básicos · 1 912 palavras · cerca de 13 min

“ Tantas vezes beberei neste cálice quantas o mundo exigir a minha presença como espírito de luz e de justiça”.

Salomão.

Ilustração do documento original

Sem dúvida todas as religiões raízes, assim como as que delas derivaram, falam da existência de uma Trindade Inicial. Por certo esse conhecimento é o mais comum entre todas as religiões. Embora muitas aparentemente sejam bem diferentes entre si pelo menos no que diz respeito à Trindade elas são praticamente idênticas quando citam a origem do universo, não apenas no que diz respeito à atualidade quanto as passado remoto. Mesmo as religiões milenares, como o Hinduísmo, o Bramanismo, as antigas religiões do Egito, Assíria, Pérsia, Babilônia etc. apresentam suas respectivas e até mesmo os registros resquiciais da Atlântida falam de uma Trindade. Vale, então, a indagação, por que mesmo havendo tantas discrepâncias entre elas mesmo assim no que diz respeito à Trindade haja unanimidade? - Isto acontece como conseqüência da “Natureza Trina do Universo”.

Como já explanamos longamente em palestras bem anteriores, mesmo as coisas mais complexas quando devidamente desdobradas chegam a um nível trino, chegam ao três, e que na realidade três é Um. Em outras palavras, a Unidade é Trina, tudo quanto há resultante da criação apresenta-se em tríades, na qual o três é geralmente a idéia, o um a essência e o dois a polarização dessa essência[1].

Vejamos agora o que nos dizem algumas religiões básicas: O Bramanismo, um o sistema religioso dos mais antigos, fala de uma trindade, que denominam pelo nove sânscrito Trimûrti, e composta por Brahmâ, o criador; Vichnú, o conservador; e Ziva, o destruidor.

Diz o “Padma Purâna:

” No princípio, o grande Vichnú[2], desejoso de criar o mundo se converteu em trino: criador, conservador e destruidor. O Espirito Supremo a fim de criar o mundo emanou do lado direito de Si Brahmâ ; logo, afim de conservar o universo, emanou do lado esquerdo de seu corpo a Vichnú; e para destruir o mundo, produziu do meio de seu corpo o eterno Ziva. Uns adoram Brahmâ, outros a Vichnú e outros a Ziva; porém Vichnú UNO e sem dúvida TRINO, cria, conserva e destrói; portanto, não há diferença alguma entre os três”.

As três pessoas da Trimûrti são os três “gunas”, que representam ou atributos do Universo constituído de Espírito-Matéria que se forma a si mesmo, se conserva a si mesmo e se destrói a si mesmo. Pelo que acabamos de citar, segundo o hinduísmo, e outra doutrina séria, no Universo o que não é espirito é matéria ( = energia ).

A Trimûrti = Trindade - hinduísta dentro da criação é composta de Brahmâ, Vichnú e Chiva (Ziva ).

Brahma, masculino, é o mais importante membro da Trindade Hinduísta. É o espirito único que existe por si, pai e senhor de todas as criaturas. De sua “substância” brotaram a água da vida que deu origem a Vichnú e Ziva. Em , na sua polaridade positiva é Vichnú e na negativa Ziva, portanto os três são UM.

Vichnú, a segunda “pessoa” é o conservador do mundo, sempre benévolo e disposto a atender as orações. No mundo material representa a Energia Solar uma manifestação da energia sola. Como renovador ele pode ser considerado Redentor ( dos gnósticos) ou Hokhmah da Árvore da Vida” da Cabala. Pode ser associado ao tempo cronológico.

Ziva, Chiva, terceira pessoa da Trimurti é um. E um Deus de primeira ordem, e em seu caráter de Destruidor e mais elevado que Vichnú, o Conservador, posto que destrói para regenerar em um plano superior.

Como conseqüência da própria antigüidade do Hinduismo grandes variações de conceitos foram introduzidas gerando um número muito elevado de seitas e uma multiplicidade enorme de deuses. O Hinduismo, como as outras religiões, passou por crescente secularização, sendo a religião da maioria da população da Índia. Como resultado de seu desenvolvimento ao longo de mais de 4 mil anos, o hinduísmo abrange grande diversidade de crenças e práticas religiosas muito embora não possua dogmas.

Algumas seitas colocam como componente da Trimûrti, em vez de Brahmâ, a “Grande Deusa” denominada Shakti ( venerada sob três formas: Shakti, Durga ou Kali).

As condições, atribuídas à Trimûrti, de Criador, Conservador e Destruidor tem condicionado dado margem à inúmeras interpretações. Para uns, Criador diz respeito apenas ao lado positivo, mas há os que dizem o inverso, que tudo sendo perfeito na origem, o criar representa degenerar. A perfeição é um dos pólos extremos portanto qualquer criação só pode ocorrer no sentido oposto. Não podendo haver modificação para melhor, quando ocorre qualquer modificação ela só um sentido, o de para baixo.

Este pensamento exerceu uma tremenda influência sobre o Cristianismo Gnóstico, tanto foi assim que muitas escolas cristãs dos primeiros séculos admitiam que toda criação era má, que toda a matéria era má, que o Criador - O Demiurgo - era um ser maligno e perverso, originador de todo o mal existente. Este pensamento chegou a ser radicalizado no Maniqueísmo, como veremos em outra palestra.

Qualquer modificação naquilo que já é perfeito só pode ocorrer no sentido da imperfeição, por isto há os que dizem que Brahma, como Criador apenas criou a Trimûrti, que na realidade não é propriamente uma criação e sim uma manifestação de dele mesmo numa trindade da qual faz parte. Nesse sentido o titulo de “cria­dor do mundo" não caberia a Brahmâ e sim a Ziva que destruiu a ordem perfeita criando as coisas imperfeitas, transformando o perfeito no imperfeito. Neste caso, todo o mal seria fruto da ação de Ziva. Mas, se Ziva age como destruidor, ele tanto destrói a ordem, o mundo perfeito, mas também destrói o mundo imperfeito, fazendo assim tudo voltar ao ponto original de perfeição.

Para sair desse impasse algumas doutrinas também falam da Trindade apresentam de forma um pouco diferente os dos três atributos da Trimûrti. Não atribuem o sentido de “destruidor” a Ziva. Falam de um Poder Superior sem nome definido, sem atributos, Imanifesto, Infinito (= Brahma ) do qual se manifestou a Força Superior ( Deus = Brahmâ = Kether... ) da qual se projetou Vishnú[3] ( = Transformador = Redentor = Hokhmah ...), de cuja polarização resultou Shiva ( Destruidor = Demiurgo = Satã = Ziva = Binah ). Nesta visão Brahmâ ( Kether = Força Superior ) é o Conservador, aquele é imóvel que mantém tudo sem efetivar quaisquer alterações. Todas as movimentos e transformações decorrem da ação dos outros dois elementos da Trimûrti.

Ilustração do documento original

Fig. 1

A única modificação possível no totalmente perfeito só pode ocorrer para o lado da imperfeito e a recíproca é verdadeira, só é possível o mal em seu limite máximo ser modificado no sentido da perfeição. Assim sendo Ziva seria a força que move a roda da criação. Uma roda em gira - observe-se um dos raios - hora desce até o ponto mais baixo mas no mesmo movimento a partir daí ela sobe - Segundo tal forma de penar Ziva não pode ser considerado um princípio negativo, apenas. Neste caso o negativo seria Vishnú, o conservador. Conservar é manter algo como está, assim se por um lado conserva o bem por outro lado também conservaria o mal. Trata-se de uma força que age tanto no sentido de conservar a negatividade existente, quanto a positividade.

Na realidade tudo é decorrência de que, dentro da criação, tudo é relativo, portanto construir pode ser também destruir e destruir pode ser construir. Só se constrói uma ordem destruindo outra. Só se constrói um edifício desestruturando a argila para construir os tijolos com os quais se constrói o edifício.

Todas essas especulações, e muito mais, têm feito com que a filosofia hinduísta seja muito complexa, causa de um imenso número de interpretações.

Além da Criação, além da Trimûrti esta Brahma ( veja a grafia diferente Brahmâ e Brahma ).

Brahma, ou “Brahman, é o eterno princípio por trás de toda a existência; é o impessoal, o Supremo Incognoscivel Principio do Universo, de cuja essência tudo emana e tudo volta, que é incorpóreo, imaterial, inato, eterno, sem principio nem fim. É omnipresente, omnipepetrarnte; anima tudo, desde as Galáxias até o mais diminuto átomo. É o Supremo, o Absoluto, o Espirro Eterno que enche e penetra, mantém e anima todo o Universo; é principio e o fim de todos os seres, o Alfa e o ômega de toda a criação, pois todos emana Dele e a Ele todos voltam ao termino de cada Kalpa” [4],

Nos textos Vedas [5], mais antigos não são citados os nomes de Brahmâ nem Vishnú. A Trindade citada nos Vedas é composta: Agni, Vâyu e Sûrya. Esta Trindade corresponde ao “Fogo Terrestre”, ao “Fogo Atmosférico” ( aéreo ) e ao Fogo Celeste, cuja correspondência no nível material é Agni. Agni é o “Deus do Fogo”; Vâyu o Deus do ar e Sûrya é o Sol [6]. Não explanaremos sobre essa Trindade desde que já o fizemos em palestras anteriores.

Sob a forma abstrata a Trimûrti é citada como constituída por Sat - Chit - Ananda.

Nossa intenção nesta palestra não é dissertar sob o hinduísmo mas mostrar a existência de uma Trindade e estabelecer compara[ao com outros sistemas , bem como mostrar por onde o mal se fez presente na criação.

Ilustração do documento original

Notas

  1. Vide temas referentes aos mistérios dos números ↑

  2. Refere-se não a Vichnú da” Trimûrti” e sim a algo além da Criaçao. Também não corresponde a Brahma, por isso parece indicar um ele intermédio entre Brahma ( neutro) e Brahmâ ( masculino o que na Cabala está representado por Ain sof .

    Há, como veremos depois, uma diferença entre Brahma e Brahmâ. ↑

  3. Vishnú não seria um Poder Conservador e sim Transformador. ↑

  4. Representa um dia de Brahmâ, um período de 4.320 milhões de anos. E a duração de um universo , ou o período de manifestação ou atividade cósmica, ao fim do qual vem a noite de Brahmâ , período de dissolução e repouso. O Bhagavad-Tîtâ dias: “No fim de um kalpa, todos os seres desaparecem em minha natureza , e de mim emanam outra vez ao principiar um novo Kalpa”. ↑

  5. Não se trata de um povo, ou uma civilização. Na realidade Veda diz respeito à Escritura sagrada, portanto quedo se fala dos Vedas refere-se as mais sagradas obras sânscritas. Não se tem registro oficial de quando datam os Vedas apenasw sabe-se que f em sua forma atual foi compilado há cerca de 3100 anos a .C. Sua remota antigüidade esta suficientemente provada pelo fato de que foram escritos numa forma tão antiga de Sânscrito, e tão diferente do de uso corrente, que são impares entre todas as demais obras escritas nessa língua.

    Usa-se a palavra no plural ( Vedas ) por ser um conjunto de escrituras e hinos ).

    Veda, livro sagrado hindu. Os quatro vedas, atribuídos à revelação de Brahma constituem a base teológica hinduista. Em conjunto, os Vedas não são apenas livros de temas religiões, mas agregam lendas diversas, poesia, economia, filosofia, e, até geografia e medicina. Refletem , por conseguinte todo o viver social do povo do norte da Índia, na fase ariana. . Os Vedas dividem-se em nos seguintes livros: Rigo Veda, Iajur Veda e Atarva Veda sendo o mais importante o Rig Veda ↑

  6. Quando se fala nesta trindade dá-se a impressão de algo bem elementar., mas na realidade é o inverso. Numa série de palestra estudamos as doutrinas ligadas ao Fogo Sagrado. Assim, para eu se possa entender melhor significado desta Trindade é preciso que o leitor tenha conhecimento do que foi explanado naqueles temas. ↑