A Matéria e o Mal
“Ninguém duvida tanto quanto aquele que mais sabe”
Anônimo


2001-3354
TEMA 1.336

Quando se lê sobre a creação evidenciam-se muitos conflitos de informações no que diz respeito à origem do mal. Diante de um panorama em que o mal está presente em tudo, então surge a indagação se a sua origem é inerente à matéria conforme muitas doutrinas gnósticas afirmavam no passado e outras em datas posteriores. Existem doutrinas que afirmam que o mal é inerente tanto à matéria quanto ao espírito, assim como as que afirmam que ele está ligado apenas à matéria, e finalmente as que dizem que é inerente apenas ao espírito.
A admissão de que o mal seria inerente à matéria levou algumas doutrinas a renegarem todas as coisas materiais, até mesmo restringindo a alimentação a um mínimo indispensável à sobrevivência, como aconteceu com o Catarismo (Albigensis) que adotavam um rigoroso ascetismo com despojamento dos bens materiais não essenciais.
Embora os Gnósticos Valentinianos, e posteriormente os Cátaros considerassem a matéria como fonte do mal, ainda assim existe uma grande diferença entre o Catarismo e o Gnosticismo. Enquanto aqueles afirmavam que Deus creou os espíritos enquanto que o “Príncipe das Trevas” creou as coisas materiais. Por sua vez os gnósticos afirmavam não haver sido o Deus de Bondade o creador dos espíritos e sim um outro ser – o Demiurgo – a quem coube a função de creá-los a partir dele próprio, mesmo que ele também haja sido uma emanação do Deus Único conforme diz a Tradição. Desta forma enquanto o gnosticismo admitia um principio único – por isso considerado uma doutrina monista – o catarismo posicionava-se segundo um autêntico dualismo.
O Hermetismo, assim como as doutrinas védicas, explica isto de uma maneira bem simples e racional, quando afirma que Deus, O Inefável, é a origem de tudo, mas que pode ser percebido sob sete aspectos distintos. Em sua primeira emanação, Deus é considerado como Consciência Cósmica, o Aspecto Consciência de Deus. Mas, para que este aspecto se manifeste de alguma forma é mister a existência de um “substrato”, de algo apropriado para que a manifestação ocorra. Como tudo vem do Inefável então aquele “substrato” não deixa de ser um outro aspecto Dele próprio, constituindo-se assim o aspecto Fohat de Deus. A Ilustração 1 mostra com mais clareza o que estamos tentando explicar com palavras.
Do Inefável se manifestou a consciência transcendental da qual se destacou a mente representada por Purusha. Para haver um “substrato” para a consciência se manifestar na Transcendência, do Inefável também se manifestou Fohat que gerou o mundo constituído pelos cinco elementos essenciais que compõem a matéria. A Consciência está em tudo, mas enquanto na matéria ela está presente apenas como lei física, no espírito ela também está sob a forma de mente.
O mundo imanente é uma manifestação de Deus que pode ser considerada como duas condições distintas, Purusha = Consciência + Mente
Prakriti = Consciência Fohat + elementos.

Ilustração 1
O mal tem origem na mente, portanto a sua origem direta não é a matéria. Ela tem como papel servir de meio para a manifestação da consciência e da mente e assim sendo a matéria é algo passível, algo que não tem querer, não pensa e não sente (atributos da mente). Os cátaros e outros sistemas não perceberam isto, não perceberam que a matéria apenas reflete a consciência e a mente, portanto algo que pode ser comparada a um espelho. O mundo material constitui o espelho no qual a consciência e a mente se refletem. Estas duas condições não poderiam se manifestar em “um nada”, elas só se fazem sentir através das coisas. Aquilo que se reflete é que pode ser mau ou ser bem (conceitos relativos), mas o “espelho” não o pode. O “espelho” é neutro, ele apenas reflete aquilo que incide sobre si. A matéria por si não impõe qualidades, ela apenas age passivamente refletindo o que sobre ela incide.
Pelo que acabamos de dizer podemos contradizer aquilo que a pessoa muitas vezes afirmam: “Errei porque a carne é fraca”. Isto não procede, pois a carne, como toda matéria, apenas oferece o meio do querer da pessoa se manifestar. A pessoa tende a colocar a culpa do seu próprio querer na matéria, mas isto é fugir da responsabilidade pelos próprios atos. Em um contexto mais amplo podemos dizer que a própria matéria é uma ilusão da mente, portanto não é ela o elemento enganador e sim a mente.
Na realidade os espíritos foram creados a partir da mente que foi quem creou o mundo, quem creou os espíritos. O creador de todo o mundo de maya foi a Mente Cósmica e não Fohat.
É como a própria psicologia define, mente é algo constituído basicamente pelo sentir, querer e pensar. Estas são as qualidades do Demiurgo, ele pensou, sentiu o desejo de crear, quis crear, e creou esta ilusão que constitui o mundo da forma que o vemos. Qual o seu propósito? – Somente em um nível de desenvolvimento espiritual bem mais avançado é que se pode mostrar a razão disto.
Agora queremos afirmar e mostraremos no futuro que o problema do sofrimento, da destrutividade predominante no Universo não está somente no nível da Imanência. Algumas religiões através dos séculos atribuíram, ora a Prakriti, ora a Puruska, ora a ambas, a causa da natureza destrutiva do mundo. Na atualidade as religiões atribuem todo mal a satanás, à polaridade mais inferior do mundo imanente, o nível mais baixo de Puruska, mas existe uma causa muito mais profunda, uma causa em que até mesmo satanás passa a ser vítima e não algoz.