Dualidade do Eu
"Hoje mesmo estarás comigo no paraíso"
Bíblia Sagrada
A DUALIDADE DO EU


Em palestras anteriores estudamos algumas características fundamentais da natureza da Egopersonalidade da Personalidade Essencial dos seres. Vimos que a personalidade é mutável e que fundamentalmente ela apresenta-se sob dois aspectos: a do “ego” e a do “eu” (essencial). Uma delas, a do “ego”, é formada pelas apreciações objetivas; sendo incompleta, mutável, e deformada. A outra, a personalidade essencial[1] é ainda limitada, mutável, deformada, mesmo que somente perceptível pelos canais superiores da mente.
A personalidade do ego, na “Árvore da Vida” está representada por Yesod e a do “eu” (essencial) por Tiphereth. A personalidade formada a partir do ego é mutável porque é suscetível de sofrer alterações conforme as influências do meio, da estrutura biológica e das condições orgânicas. Essa mutabilidade pode se fazer em dois sentidos; para pior e para melhor (conceitos relativos).
A Personalidade do ego é incompleta porque os canais de observação, os órgãos detectores das informações que condicionam a mente objetiva a ter consciência das coisas são imperfeitos. A acuidade sensorial é insignificante, decorrendo disto o fato de nunca se perceber uma coisa exatamente como ela é e sim conforme as potencialidades sensoriais permitem. Isto é o que determina a grande diferença existente entre a realidade e a atualidade das coisas (termos R+C).
A personalidade do ego é deformada porque inúmeras características da egopersonalidade não podem ser vistas diretamente no mundo objetivo onde elas precisam de corpos físicos que normalmente são falhos. Exemplificando: Um musicista de primeira ordem tem tal qualidade inerente a si mesmo, porém ninguém poderá saber isto a não ser a partir do momento em que ele o exterioriza por meio de uma atividade no campo musical. Ora, aquele indivíduo é um categorizado musicista independentemente de executar ou não uma peça musical no momento da avaliação. Como a personalidade do ego é formada segundo apreciações objetivas, certamente se no momento ele nada estiver produzindo, a qualidade de musicista que lhe é própria será excluída daquela imagem que se faz dele. Suponhamos que aquele musicista sofra algum dano que diminua a sua capacidade de manifestar o seu talento, evidentemente que aquela qualidade individual de excelente musicista continuará existindo nele inerente à sua essência, muito embora ele não possa mais expressá-la em sua plenitude.
Um defeito físico o fará executar mal a sua arte e isto equivale a uma limitação deformante da sua real capacidade, motivada por uma lesão do corpo.
O corpo, onde as capacidades elevadas se manifestam aqui no mundo objetivo, além de limitar o potencial intelecto-emotivo, ainda o deforma. Um musicista com um defeito parcial nas mãos, por certo, só pode executar uma peça de maneira tanto ou quanto deformada daquela como ele sente em seu íntimo. Sentir uma coisa e só poder externá-la de maneira diferente é uma deformação.
Enquanto isso, a personalidade essencial, aquela que é criada a partir de fontes de informações subjetivas e superiores é:
ILIMITADA: porque mesmo os canais subjetivos apresentam limitações. Nenhum, canal é capaz de detectar alguma coisa de uma forma absoluta;
IMUTÁVEL: porque mesmo no campo subjetivo, no plano mental e espiritual, a imagem firmada da personalidade essencial do ser vem se completando e se aperfeiçoando cada vez mais.
INDEFORMADA: porque não tendo que passar por "estações" (sephirot) intermediários ela não sofre interferências. Pode ser uma imagem esmaecida da realidade do ser, mas não destorcida como acontece com a Egopersonalidade (Vide. fig. 1).
Para exemplo podemos supor as seguintes situações: A imagem da egopersonalidade é deformada porque ela é vista como um reflexo em espelho assimétrico, enquanto a personalidade Essencial é uma visão direta, apenas ela é atenuada como se fosse vista através de um vidro translúcido.
Sendo a personalidade do ego puramente estabelecida a partir daquilo que a pessoa é como estrutura biológica, acrescido de um tanto de condições filtradas de outros sephirot, essa personalidade mortal, imperfeita, e deformada é naturalmente uma ilusão no que tange à verdadeira natureza do ser, muito embora a filosofia positivista, que predomina no pensamento da humanidade atual, diga que ela é tudo.
Para o mundo positivista a única condição humana digna de fé é o corpo, a estrutura somática, e aquilo que se exterioriza através dos atos, por isto a personalidade admitida segundo esses valores recai exatamente no conceito metafísico da egopersonalidade.
Com o místico ocorre exatamente o contrário, a egopersonalidade é um verdadeiro engodo, uma armadilha enganadora e ilusória. É como nos faz lembrar o pensamento do mestre Rabindranath Tagore: "Um eco que zomba da sua origem para provar que ele é que é o original..."
O que é real? Qual a verdadeira realidade independente daquelas situações que ecoam como autênticas, mas que são apenas reflexos deformados da atualidade das coisas? Se para o místico o mundo das formas é “maya” ou seja, pura ilusão sensorial, qualquer personalidade estabelecida neste mundo é igualmente ilusão, pois ilusões não criam realidades absolutas.
Para o profano a egopersonalidade é o que importa, é a verdadeira imagem do ser, enquanto a Personalidade Essencial não existe para ele. Para o místico a egopersonalidade é uma imagem muito mais enganadora que a Essencial, mas é a que ele elege como sendo bem mais autêntica. Por outro lado a personalidade essencial - Eu Maior - chega a ser tida como a Natureza Divina do Ser.
Normalmente o mundo mede as criaturas segundo normas e códigos puramente convencionais e inerentes tão somente à Tríade Inferior da “Árvore da Vida”, enquanto que o místico, sabendo da inconstância daquela tríade, lhe dá apenas uma relativa importância, não lhe põe a coroa suprema da creação. Esta ele a reserva para o topo da “Árvore da Vida”, situado em Kether e não em Yesod e nem mesmo em Tiphereth. Ele não mede o indivíduo unicamente pela personalidade oriunda dos sephirot observáveis como o fazem os leigos.
A sociedade, as leis humanas, os regulamentos, os mestres das coisas materiais da vida, como os psicólogos, sociólogos, os senhores togados, e a quase totalidade dos dirigentes religiosos medem as pessoas apenas segundo a egopersonalidade, quando deveriam medi-las ao menos pela Personalidade Essencial. Mas essa avaliação não é dada a ser feita pelo ser encarnado em decorrência das suas limitações preceptivas.
Avaliar um ser conforme Yesod e deixar passar a quase totalidade de suas verdadeiras capacidades e valores reais imanifestos, e aceitar uma série de condições aparentes, enganosas e deformadas.

Ilustração 1 Ilustração 2
Pela Ilust. 1 se pode ver que é em Tiphereth (Personalidade Essencial) que todas as qualidades do ser representado pelos sephirot se manifestam diretamente (Exceto Malkut que, afinal é o conteúdo de todas as manifestações) e por isto também está ligado a Tiphereth.
Por outro lado temos Yesod representando a personalidade mutável e dependente diretamente de todas as condições que atuam sobre Malkut. Yesod, a personalidade do ego, é altamente mutável segundo tudo aquilo que pode influir sobre o corpo físico. Já citamos em outras palestras que fatores puramente estruturais, anatômicos e fisiológicos podem determinar alterações sobre as atividades do ser. Ilust. 2
É fácil extrapolar uma série muito grande de situações e ver o quanto todos os fatores ambientais determinam alterações na personalidade do ego e quanto deformam a verdadeira imagem do ser.
Só sendo possível o conhecimento global de um ser pela sua personalidade essencial Jesus disse na cruz a Dimas, um dos ladrões, com o qual foi crucificado: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Jesus julgou Dimas não pela egopersonalidade mas pela personalidade essencial. Para o povo, Dimas era simplesmente um ladrão porque os sentidos objetivos das massas unicamente permitiam medi-lo segundo a personalidade do ego, porém aquela personalidade era deformada pelos fatores que o levaram a ter um caráter delinqüente. O Mestre Jesus o viu com “visão psíquica” abrangente. Ele sentiu a personalidade essencial, percebeu que aquele espírito encarnado num corpo que se comportara como ladrão haviam muitos outros elementos a serem considerados, assim Dimas liberto do corpo físico tinha pouco carma, sua natura íntima – Tipheret – era bem distinta da egopersonalidade – Yesod – daí as palavras de Jesus: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso..." Não houve naquelas palavras qualquer sentido de perdão, mas sim de compreensão por parte de Jesus quanto à verdadeira natureza pessoa, a avaliação da sua real evolução espiritual e não da aparência percebida como Yesod.
Não julgue para não seres julgados, eis uma outra verdade eterna porque qualquer julgamento humano sempre é feito em nível de Yesod, e como tal ele é deficiente e quando não, injusto. O julgamento dos homens baseia-se em Yesod. Somente com uma apreciação global, com uma avaliação total em nível de Tiphereth é possível se ter uma idéia mais ou menos aproximada da verdadeira personalidade de alguém. Os julgamentos feitos com base da egopersonalidade oferecem sempre veredictos injustos.
Yesod é tão enganador que às vezes ele passa uma imagem diametralmente oposta daquela que seria obtida através de Tiphereth
Voltemos à “Árvore da Vida” e vejamos o seguinte: As aparências do ser não refletem a sua personalidade verdadeira, isto pode ser visto no esquema. Malkut não está ligado diretamente a Tiphereth desde que todos os sephirot estão diretamente contidos em Malkut.
Diante dessa dificuldade no julgamento é que os julgamentos deveriam ser feitos por pessoas altamente evoluídas, por pessoas que tivessem atingido um certo grau de percepção em nível de Tiphereth.
Na Antigüidade os julgamentos eram feitos pelos Conselhos de Anciões, compostos por pessoas bastante velhas e experientes, pessoas que viveram uma vida justa e que desenvolveram capacidades extra-sensoriais apreciáveis. Atualmente tudo mudou, os juizes são jovens, muitas vezes apegados ao mundo material, apegado às “letras que matam”, esquecidos do espírito que vivifica, como dizem os evangelhos.
Para aquele que trilha a via do misticismo apenas diremos que evitem os julgamentos, pois há condições biológicas em que um possível criminoso fica emaranhado, e aquele que parece ser um perverso, em essência, pode não sê-lo. Para o místico o melhor é seguir pela intuição porque quando a voz interior fala a pessoa deve obedecer sempre, porque isto é intelecto puro, é Hochma e Hochma tem incomensuravelmente menos possibilidade de errar.

Notas
Não confundir personalidade essencial com a própria essência do ser. Estamos falando de personalidade e não do EU MAIOR. Este não é limitado e nem mutável, desde que se trata do EU DIVINO. ↑