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Mitos Gnósticos

Tema 0.560 · Temas Complementares · 1 903 palavras · cerca de 13 min

“Todo aquele que busca o conhecimento corre grandes riscos, inclusive o de mergulhar no abismo da solidão”... 1 9 9 6

Stephan a. Hoeller.

Ilustração do documento original

Jesus ensinava por parábolas quando falava à multidão. A vantagem dessa forma de ensinar reside no atendimento às diversas compreensões. Ante uma parábola cada pessoa entende segundo sua própria forma de compreensão. Segundo os gnósticos, Jesus depois da crucificação ainda passou 11 anos ensinando a “gnose” a seus discípulos e aos primeiros cristãos. Nessa fase muitas vezes Ele fez uso de parábolas, mas, na maioria das vezes os ensinamentos eram ministrados diretamente, dispensando as parábolas, e isto acontecia, mesmo porque em grande número de vezes, Ele transmitia diretamente sem necessidade da linguagem falada.

Por sua vez, os Gnósticos transformaram os ensinamentos deixados por Jesus em mitos. Já analisamos o principal deles, o “Mito de Sophia”, porém existem vários outros. Não é nossa intenção examinar todos eles, pois não temos a pretensão de estar ministrando um curso de gnose, e sim fazendo um trabalho comparativo das religiões mais conhecidas, através dos séculos comparando sistemas, doutrinas e ciências, desde que tudo isso pode ser englobado num trabalho único. Isto é o que estamos tentando fazer com ao auxilio dos Mestres que nos têm orientado há muitos e muitos anos.

Nesta palestra vamos transcrever, e depois analisar, mais um belíssimo mito gnóstico, o mito “A CANÇÃO DA PÉROLA”.

A CANÇÃO DA PÉROLA:

“Quando eu era criança e vivia no reino de meus pais e usufruía a riqueza e o esplendor daqueles que me criaram, meus pais decidiram me mandar para uma viagem, longe do nosso lar no Oriente. Eles, porém, não me enviaram sem provisões, pois me prepararam um pacote, da abundância de nossos tesouros; a bagagem continha ouro, prata, calcedônia e opalina. Além disso, cingiram-me com adamas[1], um metal tão duro que tritura o ferro. Grande era a carga dessas provisões, no entanto também era leve, de modo que eu pudesse carregá-la sozinho.

Minha esplêndida veste de glória, que com amor haviam feito para mim, eles agora a tiraram dos meus ombros, e também o manto púrpuro que me servia com perfeição. E fizeram comigo um acordo que escreveram no meu coração, para que eu nunca o esquecesse. Dizia o seguinte: ‘Se fores ao Egito e nos trouxeres a Pérola Única, que repousa no fundo do mar, guardada pela serpente tonitruante, então, quando voltares, vestirás novamente tua veste de glória e teu manto real e, junto com teu irmão, nosso vice-rei, serás o herdeiro do nosso reino’.

Deixei o Oriente, acompanhado por dois enviados reais que tinha ordem de me atender, porque eu era jovem e precisava de ajuda em jornada tão perigosa. Passei por várias terras que estavam entre o Oriente e a terra do Egito. Quando cheguei à fronteira do Egito, meus guardiões me deixaram.

Havendo chegado ao Egito, viajei a um lugar perto do mar, onde sabia que a serpente vivia. Estabeleci-me numa estalagem, para esperar o momento em que a serpente estivesse dormindo, a fim de tomar-lhe a pérola. Eu era um estranho para os outros que moravam na estalagem. Lá, encontrei alguém que era como eu, agradável, familiar e descendente da realeza. Recebi dele um conselho para me resguardar contra os egípcios, pois eles eram impuros. Assim, disfarcei-me usando as vestes dos egípcios, para que eles não pudessem descobrir que eu era um estrangeiro, tentando tomar a pérola, e para que não pudessem, depois, atiçar a serpente contra mim. No entanto, logo que eles reconheceram que eu não era seu compatriota. Simularam amizade por mim e me persuadiram a tomar uma bebida e comer o que eles prepararam para mim.

Ter sucumbido às lisonjas dos egípcios foi para mim uma grande calamidade. Desfaleci em um esquecimento e não sabia mais que era filho de um rei e passei a servir ao seu rei. Esqueci complemente da pérola, para a qual meus pais me haviam enviado.

Meus pais, no seu reino souberam o que me acontecera e se afligiram por mim. Eles emitiram uma proclamação e convocaram os grandes do reino para uma reunião, na qual elaboraram um plano para não permitir que eu definhasse no Egito. Escreveram-me uma carta e cada um dos grandes a assinou: De seu pai, o Rei dos Reis, e de tua mãe, a regente do Oriente, e de teu irmão, nosso vice-rei, para ti, nosso filho no Egito, saudades. Agora sai de teu profundo sono e fica alerta à mensagem de nossa carta. Lembra-te de quem és: o descendente de um rei. E vede a quem estás servindo em sombria escravidão. Lembra-te, também, da pérola, pela qual viajaste para o Egito. Lembra-te da tua veste de glória e do teu esplendido manto, a fim de que chegue o momento em que eles possam, novamente, repousar sobre os teus ombros, e, por eles envolvido, teu nome possa ser lido no livro dos heróis e te possas tornar, como teu irmão, nosso vice-rei, herdeiro do nosso reino’.

Essa carta foi uma mensagem mágica para mim. Meu pai a lacrou de tal modo que ela ficasse protegida contra os terríveis habitantes das regiões por onde deveria atravessar antes de chegar à minha casa. A carga voou sob a forma de uma águia, rei de todas as aves, até chegar ao meu lado, onde ouvi a sua fala. Ao ouvir a mensagem, acordei do meu sono, levantei-me, peguei a carta, beijei-a, abri seu lacre e li o seu conteúdo. As palavras eram as mesmas que antes haviam sido inscritas no meu coração. Lembrei-me de tudo: que eu era filho de reis e que minha alma, nascida para a liberdade, ansiava por encontrar seus pares.

Também me lembrei da pérola, em busca da qual viera para o Egito. Então, enfeiticei a serpente tonitruante, cantando para ela o nome de meu pai, de meu irmão e de minha mãe, a regente do Oriente. Agarrei, então, a pérola e voltei, para ir ter com meus pais. Retirei os trajes imundos dos habitantes daquela terra e dirigi meus passos na direção da luz da nossa terra, o Oriente.

Enquanto prosseguia em meu caminho, eu era guiado pela carta que me acordara e, como outorga ela me estimulara com sua voz, agora me guiava com a sua luz, brilhante à minha frente. Sua voz me encorajava contra o medo, enquanto seu amor me fazia prosseguir. Assim, continuei e passei pelas regiões e cidades que ficavam entre a terra do Egito e a minha terra, o reino do Oriente.

Então, os tesoureiros enviados por meus pais, que por sua fidelidade foram incumbidos dessa missão, trouxeram-me minha esplendida veste, que eu havia tirado, e também o meu manto real. De fato, eu não me lembrava mais de sua magnificência, pois fazia muito tempo que eu os havia abandonado, na casa paterna. Mas, de repente, quando os vi sobre mim, a esplêndida veste de glória pareceu mais e mais com o meu próprio reflexo; eu a vi como se fosse o meu próprio ser e a diferença entre ela e mim se desvaneceu de modo que éramos dois em diferenciação, mas um só em singular união. Mesmo os dois tesoureiros que trouxeram minha veste me pareciam uma única pessoa, marcados com o selo de majestade de meu pai.

Observei, melhor, então, a veste, em seu esplendor. Estava enfeitada com cores gloriosas; sobre ela, havia ouro e diversas jóias e em suas bordas haviam adamas. A imagem do Rei dos Reis estava pintada em toda a veste e eu vi sobre ela os movimentos ondulantes da santa Gnose. Percebi, também, que a veste estava prestes a falar comigo e o som da de grandes hinos ressoou em meus ouvidos, enquanto ela pousava sobre mim: ‘Eu sou aquele que produziu as ações daquele para quem eu fui gerado na casa de meu pai e percebi no meu interior como minha estatura aumentou de acordo com suas obras’. E a veste se acomodou inteiramente sobre mim com movimentos de realeza e pulou das mãos daqueles que a seguravam, para que pudesse descansar sobre os meus ombros. E eu a amei tanto que corri até ela para recebê-la. Estendi meus braços e me cobri com suas gloriosas cores, ficando inteiramente envolvido por essa real veste de glória.

Nela envolvido, subi, então, para os portões da saudação e da adoração. Inclinei minha cabeça e adorei o esplendor de meu pai, que me enviara a veste, cujas ordens eu cumprira e que cumprira comigo o prometido. E no portal de sua nobreza encontrei os grandes do seu reino. E meus pais estavam jubilosos de me receber, pois agora, finalmente, juntara-me a eles no seu reino. E com poderosa e melódica voz, todos os seus servos os louvaram e eles exclamaram que haviam prometido que eu deveria voltar à corte do Rei dos Reis para que, tendo trazido a pérola, aparecesse junto com ele”.

A importância dos mitos gnósticos diz respeito à necessidade da preservação e divulgação dos ensinamentos ante as perseguições. A partir do I Concilio de Nicéia o ortodoxismo cristão moveu uma campanha sistemática de destruição de todos os ensinos gnósticos, especialmente depois das campanhas movidas por Atanásio. Mas, a perseguição ao conhecimento é antiguíssima sendo essa fase a que estamos nos referindo apenas uma das muito que ocorreram neste e noutros ciclos de civilizações.

A linguagem mítica não só permite velar os conhecimentos quanto atender também às diferentes compreensões, desde que cada pessoa entende um mito segundo sua própria linha de compreensão.

Em decorrência das perseguições movidas contra todo aquele que fosse detentor de alguns tipos de conhecimento além daqueles oficialmente permitidos por algumas instituições religiosas e políticas, controladas pelo obscurantismo e pelo terceiro interesse, o conhecimento era sempre velado sob a forma de parábolas, de mitos e estórias, e muitas vezes velados por sistemas criptográficos especiais.

Estamos vivendo uma fase em que a perseguição direta ao conhecimento não se estende a todo o planeta como aconteceu em algumas épocas. Na maioria dos países civilizados atualmente o conhecimento está tendo certa liberdade. Os interesses negativos mudaram de tática atualmente, estão usando mais aquele tipo que no Mito da Pérola é atribuído aos “egípcios”, ou seja, atrair para as pessoas para um o modo de ser deles, usufruir as benesses do mundo material. A maneira de coibir a gnose tem sido de outra natureza, tem sido exatamente a de favorecer uma gama imensa de perversões.

A proibição do conhecimento exerceu um nefando papel na história da humanidade, mas mesmo assim através de linguagem velada, e de ensinamentos em confrarias e ordens secretas, houve a preservação do acervo doutrinário. Atualmente algumas dessas ordens e confrarias estão sendo desativadas temporariamente e o ensinamentos outrora proibidos sendo revelados diretamente através de escritores e outros missionários da gnose autêntica. Diante da relativa liberdade de se transmitir os ensinos em linguagem direta é que as religiões já não são tão míticas quanto no passado. Atualmente as grandes religiões já não se empenham na estruturação de mitos, de estórias simbólicas dos seus ensinamentos. Na realidade existem religiões recentes que têm usado estórias para apresentar a doutrina e podemos dizer que os iniciadores dessas religiões sabem o porquê de assim proceder; sabem que de um momento para outro está sujeito o véu do obscurantismo novamente cair sobre a humanidade, o ensino proibido e o exercício religioso ser novamente perseguido e, assim sendo, pelas estórias o conhecimento ser preservado.

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Notas

  1. Antigo termo para diamante. ↑