O Mito Valentiniano de Sophia
“ Não invejo quem sabe mais do que eu, mas compadeço-me de quem sabe menos.”
Thom Browne.
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Existem nos escritos gnósticos várias descrições referentes ao Mito de Sophia, uns mais e outros menos romanceados, mas todos eles tendo a mesma base de ensinamentos.
A seguir transcreveremos literalmente o mito de Sophia conforme era apresentado pela Escola Valentiniana[1] cujo texto original em língua copta foi descoberto em Nag Hammadi. Essa compilação pretendemos usar como base de interpretação para o entendimento da natureza do Universo e a problemática espiritual da humanidade.
Vejamos, então, mais uma das descrições do mito, exatamente aquela que era de uso dos gnósticos valentinianos. Trata-se de um mito bem mais, mais simbólico, do que aquele que consta do Pistis-Sophia.”.
“No alto do inefável e transcendental mundo da luz, existia um par primordial chamado Profundidade e Silêncio”. Juntos, criaram um reino perfeito de equilibro e poder criativo, consistindo em trinas formas arquetípicas de consciências chamadas Eons. A mais jovem e aventureira delas, chamada Sophia (Sabedoria), apaixonou-se pelo próprio progenitor real, o grande rei invisível do Todo, chamado Profundidade, e desejou sondar sua natureza perenemente inescrutável. Confusa por seu amor, lançou o olhar em várias direções de seu posto eterno na plenitude, até que, a distância, vislumbrou uma luz magnífica, tremeluzindo com sublime graça. No espanto originado pelo seu amor, não podia mais distinguir entre o acima e o abaixo e, assim, supôs que a luz sedutora, que na verdade estava abaixo dela, não era senão a real efulgência do grande rei, seu pai, que residia no mais alto ponto dos céus. Desse modo, desceu ao vazio abissal, de onde, num mar de espelhos sem limite e inescrutável, o reflexo da luz celestial acenava para ela. Seu consorte celestial, Cristo, foi incapaz de refreá-la e assim, depois de um amplexo final e doloroso, ela mergulhou na profundeza das trevas, apenas para descobrir como a luz refletida a iludira. Triste e com medo, viu-se rodeada pelo vazio, destituída da qualidade e do poder da Gnose, à qual estava habituada na plenitude. Desejosa de ter uma figura conhecida perto dela, criou numa forma virginal um ser, cujo nome era Jesus. Embora concebido misteriosamente pelo desejo de Gnose original, Jesus se uniu, contudo, a uma sombra de escuridão, que se agarrou a ele pelas influências maléficas do vácuo sombrio onde nascera. Logo, Jesus, se libertou de seus liames perturbadores e sombrios e subiu à plenitude, deixando Sophia em desalento.
Fora do universo celeste espiritual, sozinha e sem apoio, Sophia vivenciou toda sorte de tormentos psíquicos imagináveis. Paixão, pesar, medo, desespero e ignorância exsudaram do seu ser como poderosas nuvens e se condensaram nos quatro elementos; terra, água , fogo e ar, assim como em seres que, mais tarde ficaram conhecidos com o nome de Demiurgos regentes ( arconte) - todos eles espíritos ferozes e turbulentos. O mais poderoso deles, um ser com face de leão, cheio de orgulho e desejo de poder, comandou sua hoste de espíritos criadores do mundo e, a partir da matéria-prima de terra, água, fogo e ar, eles construíram um mundo de aparências externamente impressionante, embora repleto de grandes falhas, criados à imagem de seus criadores, Pesar, medo, ignorância e outras paixões dolorosas e destrutivas foram tecidos nas malhas desse mundo imperfeito, visto que a matéria-prima de eus fabricantes se originou nos sentimentos experimentados por Sophia. Olhando para baixo, para o mundo imperfeito e conturbado, orgulhosamente modelado pela sua própria prole ignorante, Sophia se encheu de piedade pela criação e resolveu assisti-la como pudesse. Ela tornou-se então, o espírito do mundo, amistosamente observando-o , como faz uma mãe quando vela por um filho fraco e malformado.
Enquanto isso, nas alturas , Khristos observava com ansiedade o triste destino de sua mãe Sophia. Ele juntou-se ao eon-gêmeo de Sophia, Kristo, e assim se tornou Jesus Cristo, o Messias, e mensageiro de Deus. Em volta Dele estavam reunidos todos os sublimes e compassivos poderes da plenitude, cada um ofertando-lhe presente e glória de seus respectivos tesouros. Assim, em Jesus Cristo, a Plenitude e seus poderes se reuniram, preparando-o para o grande ato de redenção, a libertado de Sophia de sua lamentável condição no vácuo. Incessantemente, as súplicas de Sophia subiram como nuvens de incenso agridoces penetrando o recesso da plenitude, despertando a compaixão de todos os esplêndidos seres aeônicos que perpetuamente contemplam sua glória em seus reinos de perfeição. Através dos séculos e milênios da história da terra, Sophia orou e se lamentou sobre seu destino e sobre o destino do mundo imperfeito, e raios de luz se emaranharam nas redes dos regentes, que como monstruosas aranhas cultuavam a tecer teias de matéria, emoção e pensamentos, como armadilhas para os seres humanos, - em essência, não criação deles, mas raios da própria natureza superior de Sophia, infundidos em corpos de argila.
Finalmente, os poderes da Plenitude foram reunidos e, tendo entrado em Jesus Cristo, desceram à terra para libertar Sophia e por esse modo trazer redenção a seus filhos espirituais, os membros da raça humana. Depois de enfrentar as dificuldades impostas a Ele pelos regentes e por seus lacaios humanos iludidos, Jesus Cristo ascendeu triunfantemente da terra, levando Sophia pela mão. Alegremente, subiram às várias mansões do paraíso, batendo nos portais dos guardiões espirituais e conseguindo passagem para regiões mais altas e sutis da existência. Em cada portal, Sophia entoava canções de louvor e gratidão à luz que a salvara das regiões inferiores.
Quando Sophia, o Espírito do mundo, chegou às margens que separavam os mundos inferiores da plenitude, olhou, mais uma vez, para baixo, para o mundo imperfeito e atormentado, suspenso no vácuo e no caos; seu coração partido, mas agora refeito, se encheu de compaixão. Não, ela não poderia deixar completamente para trás aquela estranha criação, aos seus recursos mais que inadequados, nem poderia ela abandonar seus filhos verdadeiros, as mulheres e homens que estavam mais intimamente ligados a ela do que quaisquer outros seres fora da plenitude. Assim, usou sues poderes mágicos e dividiu sua natureza em duas metades; uma, que subiu aos Eons na plenitude para lá residir com Cisto e Jesus, e a outra, que permaneceu próxima à criação, para continuar a assisti-la em compassiva sabedoria. Seu segundo Self, criado pela compaixão, se tornou assim conhecido como Achmoth, a errante ou a inferior, que ainda está em contato com a humanidade e as regiões deste mundo. Foi assim que ocorreu com o universo, que se constelou em três regiões. A primeira é o mundo material, governado por um regente que os antigos chamavam de Pan e que outros chamam de demônio. Esse regente reina sobre a terra, as plantas, e as criaturas vivas. E, como um paciente pastor de ovelhas, vela para que toas essas manifestações da vida de Sophia não possam, um dia, alcançar os mundos superiores, não importa quão longe vagueiam. Desconhecendo as realidades e desígnios dos poderosos eons de luz, o regente deste mundo meramente gira a roda de nascimento, morte, e renascimento, com a esperança de que, se ele e seu rebanho forem capazes de se manter dentro dos movimentos da vida biológica, não serão condenado na hora da libertação.
Mais alto, no espaço imaterial, está o mundo da lama ou da mente, regido pelo arconte principal, também chamado Demiurgo, tendo numerosos nomes, inclusive Yaldabaoth ( deus infantil) e Saclas ( o cego) . É do reino dessa divindade arrogante e sedenta de poder que se originam muitos conceitos e preceitos que escravizam a mente e a vontade humana. O deus cego tem grande interesse no que ele prazerosamente chamam de lei. Regras, mandamentos e regulamentos de todo tipo são criados por ele a fim de diminuir a liberdade, direito de nascença do espírito. Filosofias e ideologias de diversos tipos também são colocadas na mente humana pelo Demiurgo, junto com a ganância, o poder e outras obsessões que obscurecem e viciam a pureza espiritual de homens e mulheres.
A terceira, no mundo acima dos planetas, imediatamente abaixo dos portais da própria plenitude onipotente, é uma região onde Sophia-Achmoth, a mãe celestial e sábia auxiliar da humanidade, está entronizada. Com ela, vivem incontáveis hostes de anjos de luz e almas sanas e retas, que antes ocuparam copos humanos. Este é o mundo do espírito, onde os anjos gêmeos das personalidades humanas também residem e onde a câmara nupcial está construída; onde as almas inferiores dos humanos podem encontrar e se casar com suas contrapartidas espirituais, os anjos gêmeos. Quando os humanos comungam cm a Deusa em seus múltiplos aspectos, é com Sophia-Achamoth, a sábia guardiã, que eles o fazem. Sem a consciência desses sutis mistérios, muitos seguidores bem-intencionados da revelação cristã encarnaram essa forma de Sophia como Maria, Rainha do Paraíso. É assim, então, que Nossa Senhora da Sabedoria, embora redimida e assistido Jesus Cristo no trabalho da redenção, está até hoje perto de seus falhos.
As três regiões cósmicas acima descritas têm duas partes correspondentes dentro da natureza dos filhos do homens. “Dentro de cada ser humano, há a parte material (hyle) dádiva do reino de Pan, que carrega os instintos e necessidades da vida material, com sua vocação para as a sobrevivência e a continuidade física através da descendência.”
Na palestra seguinte estudaremos toda a sabedoria contida neste mito valentiniano.
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Notas
Compliance do livro ‘Jung and the Lost Gospels”- Stephan ª Hoeller. Publ. The Theosophical Publishing House.. ↑
