O Deus Transcendente
“ A CERTEZA NÃO VEM DAS PROVAS, MAS É ANTERIOR A QUALQUER PROVA”. A FONTE DO SER E OS CANAIS DO DEVIR Nas profundezas do Insondável Jaz o Ser. Antes que céu e terra existissem, Já era o Ser.
Einstein
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Iniciaremos esta palestra com a 25a. ensino de Lao Tsé e que integra sua obra intitulada Tao Te King.
Imóvel, sem forma,
O Vácuo, o Nada, berço de todos os Possíveis.
Para além de palavra e pensamento
Está Tao, origem sem nome nem forma,
A grandeza a Fonte eternamente borbulhante.
O ciclo do Ser e do Existir.
Comparando-se o que disse Lao Tsé há 2600 anos com o que disse Basílides, que viveu no início deste milênio, constata-se mudanças apenas de palavras pois o pensamento implícito é exatamente o mesmo.
Por certo, dois entre os maiores mestres gnósticos do segundo século podem ser mencionados Lucius Carino e Basílides. O primeiro foi discípulo de João, o Evangelista aquele que escreveu Atos dos Apóstolos que consta do Novo Testamento. Tal como está na Bíblia Canônica, em Atos dos Apóstolos, os 12 primeiros capítulos refere-se a Pedro e os 16 restantes a Paulo, e com referência a outros apóstolos, mas na realidade Lucius Carinus escreveu os “Atos dos Apóstolos” como livros separados, a saber: Atos de Pedro, de André, de João, de Tomás e de Felipe, os quais foram expurgados posteriormente da Bíblia. Esses “livros bíblicos” tiveram grande aceitação no inicio do Cristianismo e pode-se dizer que eles representaram o principal fator de disseminação do Cristianismo. Essa literatura não era, então, considerada herética por ninguém, desde que o seu autor era reverenciado por ter se associado ao autor dos quatro Evangelhos Canônicos.
O segundo grande mestre gnóstico foi Basílides, discípulo de Gláucias que, por sua vez, foi discípulo direto do Apostolo Pedro, Basílides ensinou em Alexandria de 117 a 138 d.C. e sua escola se expandiu até a Espanha cujos ensinamentos foram levados por Marcos de Mênfis.
Até o ano 133 d.C., Basílides era considerado heterodoxo pelo grupo da Igreja que se intitulava ortodoxa. Basílides morreu em 145 d.C mas seus ensinamentos sobreviveram no Egito até o final do século IV. As informações que possuímos sobre os ensinamentos de Basílides derivam da obra Philosophumna, de Hipólito, cognominado “O Presbítero de Roma “que escreveu muito do que existe a respeito dos primeiros séculos do Cristianismo.
Os ensinamentos de Basílides indicam que ele enfatizava a importância do conceito de Deus Desconhecido, totalmente transcendente, incompreensível e além de todas as categorias da existência . Além da mencionada obra, vemos isto através do que nos legou Jung em “Os 7 Sermões aos Mortos”. Antes só se dispunha daquilo que foi descrito por Hipólito.
No texto descrito por Hipólito consta:
“Ele existia, quando nada existia; nem mesmo aquele ‘nada’ era qualquer coisa das coisas que existem. Mas cruamente, conjectura e sofisma mental à parte, não havia nem mesmo o um. E quando eu uso o termo ‘havia’, eu não quero dizer que havia, mas, meramente para dar alguma sugestão do que eu quero indicar, uso a expressão ‘não havia absolutamente nada’.
O Nada não era nem matéria, nem substância, nem vacuidade de substância, nem simplicidade, nem impossibilidade de composição, nem incomceptibilidade, nem imperceptibilidade, nem homem, nem anjo, nem Deus enfim nem nada a que o homem possa ter achado um nome, nem qualquer operação que caia na esfera quer a sua percepção quer da sua concepção”.
Vemos que esse conceito diz respeito a um Poder Transcendente à própria criação. Todas as palavras que usarmos para as coisas da criação não se prestam para indicar qualquer qualidade do Poder Superior, ou como algumas escolas gnósticas chamam “Plerôma” e “Abraxas”, até mesmo a palavra qualidade não tem sentido em se tratando do Ser Transcendente.
Agora voltemos ao Mito de Sophia e tentemos entender porque Sophia caiu. Diz Basílides.
“... com a queda de Sophia, uma semente de sua origem divina - uma centelha de Luz - foi plantada no homem. Portanto, sua alma “gritou pra Deus pedindo a libertação” da paixão do Cosmo inferior. A meta “daqueles que sabem” era fazer com que essa centelha voltasse à sua fonte, e a finalidade do ensinamento gnóstico é mostrar quando isso pode ser conseguido.
Mesmo sendo Sophia uma Luz ainda assim tem que se considerado que “Ela” existia na Criação, consequentemente estava sujeit às limitações do Universo, por isto, tudo o que ela concebesse visando “ver” o Plerôma, ver ao Deus Transcendente, estava sujeito às leis do universo criado, enquanto o que Ela estava querendo “ver" transcendia-O. Pelo texto descrito por Basílides percebe-se que coisa alguma podia ser entendido por Sophia. Não podendo ver a Fonte Sophia criou o Espelho para ver nele a ima imagem refletia do Plerôma. Ela criou o Espelho, viu a imagem e se direcionou para ela, mas assim sendo cada vez mais distante ficou da fonte. Quando mais uma pessoa se dirige para uma imagem refletida (imagem virtual), quanto mais se direciona para o “Espelho” mais se afasta do objeto que está sendo refletido (imagem real). Assim Sophia distanciou-se tanto da luz que atingiu as trevas. Ficou quando percebeu o seu engano e então implorou para voltar e em auxílio dela veio Christos.
Para que possamos entender a problemática da humanidade é mister que seja entendido que Sophia era inerente à própria Trindade, a uma Trindade de Luz que constituía a Tríade Superior da “Árvore da Vida”. Sophia é um aspecto limitado da Luz querendo “ver” a totalidade da Luz. A luz na criação, limitada, querendo ver a Luz Ilimitada, e como a Luz na Criação não era a Luz Infinita, necessariamente isto não era possível, desde que a parte não pode conceber o todo. Assim sendo, quando a Luz da Criação procurou ascender ela defrontou-se apenas com reflexos. Tudo o que surgiu diante dela na realidade foram apenas “reflexos”.
Sophia não sabia (seu conhecimento estava limitado) que tudo o que ela julgava ser o Plerôma era apenas imagem Dele. Ela estava perdida numa “sala de Espelhos” e o pior, os Espelhos não eram Espelhos planos e sim de diversas formas, planos, côncavos, esféricos, cilíndricos, etc.. Sendo assim nem ao menos ela podia perceber reflexo perfeito, todas as imagens estavam deformadas.
Sempre que se desce de um nível superior para um mais inferior não se detém mais o conhecimento total daquilo que é ensinado no plano de onde se afastou, não mais se tem condições de acompanhar o nível do plano onde se esteve. Suponhamos um aluno rebaixado de classe por incapacidade intelectual. Mesmo que ele tenha conhecimento da existência do nível superior ainda assim ele não pode entender o que é ensinado no nível superior; mesmo que o aluno saiba da existência do nível universitário ainda assim ele não consegue entender o conteúdo programático do nível superior, se assim não fosse ele não teria sido rebaixado.
Na criação aconteceu com Sophia tal qual o exemplo analógico que demos antes, mesmo que ela haja sido parte integrante da Tríade Superior esta Tríade ocupava um nível aquém do Nada, abaixo do Plerôma e sendo assim Sophia não podia ter a pretensão de conhecer o Pleroma.
Tudo aquilo que o ser criado julga der o Poder Superior na realidade, no máximo é apenas um reflexo Dele. Há um número elevadíssimo de reflexos na criação, enquanto que a própria criação é apenas um “Espelho”.
O que se poder perceber do Poder Superior ?. - Percebem-se apenas algumas das qualidades que costumamos chamar de “ Faces do Poder Superior”, como, por exemplo, o amor, a paz, a verdade, a justiça e tantas outras. Mas, nenhuma das “qualidades” manifesta-se por si mesma, elas apenas podem ser percebidas através das coisas criadas que são os “Espelhos” da criação. A criação, num certo sentido, é um conglomerado de estruturas nas quais se manifestam os poderes da natureza, portanto podem se consideras “Espelhos” nos quais o Poder Superior reflete-Se.
É preciso que se tenha em mente que os reflexos da criação são enganosos desde que os “Espelhos” estão num plano inferior e, consequentemente, são “Espelhos” deformados e limitados que alteram a imagem daquilo que é refletido. Deste modo a pessoa quando busca as “qualidades” dentro da criação acaba verificando que elas são um tanto ilusórias. Quando se busca a paz nas pessoas não se encontra a Paz Cósmica e sim a paz da pessoa, do “Espelho” em que aquela é refletida; quando se busca o amor Cósmico encontra-se o amor de cada um; quando se busca o Querer Cósmico encontra-se o querer individual, e assim por diante. Dentro da criação não se encontram as qualidades Cósmica e sim os receptivos reflexos tais como são refletidas nos “Espelhos”; em alguns com menos brilho e claridade, em outros, com mais brilho e claridade, mas em nenhum exatamente como na própria Fonte de Origem Transcendental. Mesmo que as faces sejam qualidades do Pleroma mesmo assim são apenas imagens virtuais (imagens refletidas) e não reais, ou seja, são reflexos cuja fidelidade é limitada e varia de pessoa para pessoa, ou seja, imagens que variam de “Espelho” para “Espelho”.
Pela razão que acabamos de expor é que não é fácil a pessoa “penetrar" na imagem, gerando o apego à imagem e quando deveria ser à Fonte. Isto é o que comumente leva a pessoa a ficar “cristalizada” diante do reflexo sem, contudo penetrar por ele e chegar ao outro lado do “Espelhos”, isso é sair da imagem virtual e chegar à imagem real.
Não é fácil a pessoa através do amor pessoal, do querer pessoal, e de vários outros atributos. chegar ao Poder Superior. Geralmente a pessoa fica presa a uma forma de amor limitada, a qualidades divinas, mas limitadas, às faces do Poder refletidas em Espelhos imperfeito, pensando que aquilo é tudo; que é a totalidade, pois nem sequer percebe que se trata de um “reflexo” que depende basicamente da qualidade de cada “Espelho”.
Toda criação, tudo quanto há pode ser retratado pela “Árvore da Vida”, mas na criação os sephirot são coisas e como tais são também “Espelhos’”. Cada sephirah é a representação de um nível de reflexão. No nível de Malkut, por exemplo, estão os “Espelhos” de pouco brilho e muito deformados, “Espelhos” que só refletem as coisas mais grosseiras dentro de uma determinada categoria e assim mesmo de forma alterada, enquanto que Kether reflete o máximo possível. a uma categoria, mas, mesmo assim, ainda se trata de um “Espelho”, portanto, ainda muito distante da realidade plena.
A imagem que as pessoas fazem do Poder Superior jamais é exata porque quando tentam chegar a Ele, no máximo, chegam ao Seu reflexo o qual é chamado de Deus. Em se tratando de uma imagem Deus é um reflexo do Poder Superior nos “Espelhos” que são as pessoas.
Tantos são os “Espelhos” quanto às pessoas existentes, daí a tremenda variedade de deuses. Por isto quando a Bíblia diz que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança na realidade é o oposto, cada homem faz Deus à sua própria imagem. Cada “Espelho” reflete um tanto do Deus Transcendente criando o Deus Imanente.
É o “reflexo” do Poder Superior clareando o mundo material, o reflexo clareando as trevas Ele vem, e clareando a todos Ele vem...

