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O Ofismo

Tema 0.543 · Temas Complementares · 2 096 palavras · cerca de 14 min

“ É o medo o mais ignorante, o mais injusto e o mais cruel dos conselheiros”.

Ëdmund Bruke

Ilustração do documento original

No início do Cristianismo surgiu um grande número de seitas e isto era uma decorrência da não existência de um poder administrativo centralizador. Em decorrência do apostolado exercido pelos discípulos de Jesus e por outros eminentes cristãos dos primeiros séculos, como Paulo e outros. Era comum os cristãos dizerem assim: Eu pertenço à Igreja de Pedro, de Paulo, de Lucas, de João e assim por diante.

Muitas vezes denominavam-se pelo nome da localidade, na própria Bíblia há menção à Igreja de Corinto, de Laodicéia, de Éfeso, etc.

De inicio, essa maneira de identificação não refletia cisão no seio do Cristianismo, não significava propriamente divisões, mas apenas uma identificação apostolar. Esta forma identificação era apenas uma menção a respeito do lugar, ou do Apostolo primitivo, que fundara aquela Igreja.

Somente depois do primeiro século, começaram a surgir divergências, aquilo que antes era considerado apenas como ponto de vista particular dentro do contexto cristão, começava a se tomar lugar de divergências doutrinárias. A não codificação do Cristianismo favorecendo o surgimento de inúmeras Igrejas mais cedo ou mais tarde teria que ocorrer os cismas.

Já vimos em palestras anteriores que haviam duas linhas básicas de Cristianismo: Ortodoxo e Gnóstico. Essa divisão, de início, tinha muito a ver com a admissão e a negação de que Jesus continuara apresentando-se aos apóstolos, assim como a outros cristãos, por cerca de 11 anos, quando os Ortodoxos falavam de apenas 40 dias. Assim sendo tudo aquilo que os gnósticos diziam haver recebido de Jesus naquele período compreendido entre 40 dias e 11 anos foi considerado falso e, consequentemente, herético.

Como causa das divergências no seio do cristianismo dos primeiros séculos tem que ser considerado também a própria inclinação mística dos cristãos, pois o Gnosticismo era essencialmente místico enquanto o ortodoxismo objetivista. Os ortodoxos, inicialmente foram os seguidores da Igreja de Pedro, de André e de outros Apóstolos menos inclinados ao pensamento filosófico, enquanto que o gnósticos compreendiam os seguidores da Igreja de Paulo, e especialmente de João que é considerado o apostolo místico por excelência.

A existência de múltiplas Igrejas[1] sem que houvesse um indispensável consenso doutrinário fez com que as igrejas interpretasse o Cristianismo de modo individual e também incorporassem doutrinas alheias. Assim sendo, a partir do segundo século as divergências doutrinarias já eram imensas e isto, por certo, mais cedo ou mais tarde, acabaria ocasionando cisões.

Uma determinada Igreja, por alguma razão particular, incorporava conhecimentos de outras fontes; algumas assimilavam conhecimentos oriundos de antigas doutrinas e sistemas religiosos de lugares e épocas distantes. Essas influências alienígenas se fizeram sentir mais no gnosticismo, pois sua própria natureza facilitava isto desde que era aceito a possibilidade do conhecimento vir através de êxtases e visões. Isto tornava o gnosticismo um campo fértil para a proliferação de um sem número de informações virem a fazer parte dos assim chamados “conhecimentos gnósticos” , que essencialmente era conhecimentos deixados por Thoth. A escravidão dos hebreus no Egito deu margem à incorporação de um grande manancial de conhecimentos herméticos por parte dos Hebreus.

Se, por um lado o gnosticismo deu margem à assimilação de conhecimentos verdadeiros, de conhecimentos milenares oriundos das Antigas de Escolas de Mistérios, também deu margem à penetração de conhecimentos espúrios, exatamente por ser um sistema bem mais aberto que o ortodoxismo cristão.

No inicio, o Ortodoxismo e o Gnosticismo não eram Igrejas separadas, apenas linhas filosóficas dentro do Cristianismo, até que no ano de 325, quando do Concílio de Nicéia, foi que as duas correntes separaram-se se excluindo mutuamente.

Pelo dito, o ortodoxismo não gerou grande diversidade de Igrejas em seu seio como ocorreu com o Gnosticismo assim, podemos dizer, cada escola gnóstica tinha uma linha de pensamento própria, por isto algumas se apresentavam totalmente diferentes das demais, especialmente no que dizia respeito ao lado exotérico delas.

O maior contingente de informações sobre muitas seitas dos primeiros séculos provém dos escritos da própria Igreja Católica, quando muitas seitas foram citadas pelos Padres. Pelos seus escritos pode-se perceber que aquelas seitas, embora tidas como diferentes, na realidade apresentavam idéias expressas com muitas características e ensinamentos em comum. São as características comuns que, nestas palestras, estamos pondo em evidência visando mostrar a existência de uma base única sobre a qual estão estabelecidas diferentes religiões e sistemas metafísicos. Nossa intenção é fazer ver que, mesmo entre seitas dispares, ainda assim existem elos comuns, especialmente no que diz respeito ao lado metafísico. Num nível elevado todas aquelas seitas tinham elos em comum, geralmente em sua face esotérica. É verdade que as religiões divergiam muito apenas no que diz respeito à face exotérica, mas não quanto aos aspectos esotéricos.

Desta maneira vamos encontrar no Gnosticismo não somente idéias semelhantes entre as diferentes “Escolas” como também com sistemas religiosos cujas fontes estavam fora do Cristianismo. Podemos sentir que muitas seitas gnósticas tinham afinidades, por exemplo, com as idéias de outros sistemas tanto antigos quanto contemporâneos, mas especialmente com doutrinas do Antigo Egito.

Como dissemos, basicamente o gnosticismo é um sistema filosófico muito antigo, mas que foi incorporado pelos cristãos dos primeiros séculos. Assim sendo aquilo que a literatura denomina gnosticismo refere-se ao aspecto cristão, portanto datando do primeiros séculos da nossa época. Esse aspecto gnóstico nascido com o advento do Cristianismo incorporava tanto os ensinamentos cristãos, quanto muitos outros trazidos das origens, especialmente do Egito. Assim sendo no Gnosticismo dos primeiros séculos havia algumas “Escolas Gnósticas” que conjuntamente com os ensinamentos cristãos apresentavam aspectos de uma doutrina ligada ao culto da serpente.

Aquele culto, foi muito disseminando no Antigo Egito, mas podemos dizer sob diferentes formas ser algo inerente à quase todos os povos e culturas; tanto é assim que ainda hoje existem na Índia seitas conhecidas genericamente pelo nome de “Adoradores de Serpente”, chegando até mesmo a haver templos dedicado aos ofídios.

No Antigo Egito houve várias seitas ofitas[2] e podemos ver isto pela presença da serpente como símbolo em muitos monumentos daquela época, e até mesmo servindo como um dos emblemas da coroa dos faraós. Assim a influencia de elementos das doutrinas do Egito se fez muito presente em muitas religiões, mesmo o Cristianismo incorporou um certo volume daqueles conhecimentos. Isto pode ser percebido pelo próprio “Antigo Testamento” onde há menções a diversos símbolos das religiões antigas [3] e entre estes o da serpente. Essa incorporação ocorreu durante o longo período em que os Judeus esteve vivendo no Egito. Vemos a serpente ser mencionada na própria Historia da Criação contada na Bíblia. Vemos que há no mito de Adão menção à serpente tentadora de Eva. Também ela é mencionada a historia de Moisés fala da “serpente de bronze” que ele erigiu no deserto.

Em decorrência da incorporação de muitos conhecimentos trazidos do Egito pelo gnosticismo, um sistema filosófico religioso de múltiplos aspectos já estava presente bem antes do advento do Cristianismo, existindo em alguns países, especialmente no Egito [4]. Assim, no Gnosticismo Cristão passou a existir uma seita denominada de Ofita. Na realidade constituiu-se apenas uma Irmandade ( Fraternidade ), conhecida como a “Irmandade da Serpente”, e que floresceu no começo do Segundo Século. Os gnósticos cristãos ofitas aceitavam alguns dos princípios ensinados por Valentino, mas, que, ao mesmo tempo diferia deste em alguns aspectos, desde que tinham seus próprios ritos ocultos, assim também como uma simbologia própria. Naqueles ritos uma serpente viva simbolizava o principio “Christus”, isto é a “Mônada Divina”. Esta é um principio, o princípio UM ( = Mônada ) que se encarna em Jesus o homem.

Ilustração do documento original

A serpente era venerada pelos Ofitas como um símbolo de Sabedoria, ou seja “Sophia”, representação do todo bom. [5].

Em decorrência desse simbolismo ligado à serpente a “Irmandade Ofita” era ignorada e mesmo condenada por aqueles que atacavam o Gnosticismo. Mas, como frisamos antes, num nível esotérico há sempre um elo comum entre as mais díspares seitas, assim é que, mesmo numa seita aparentemente aberrante como aquelas que têm como símbolo a serpente, há algo de elevado por detrás das aparências.

A aparência de uma religião, via de regra, diz respeito apenas a sua face exotérica, por isso em algumas delas as duas faces são parecidas mas em outras são totalmente diversas, como acontece com os aspectos exotéricos e esotéricos da religião judaica. Isto é ainda mais gritante no que tange às seitas simbolicamente ligadas à figura da serpente, pois pelo lado esotérico [6] há adeptos que adoram o próprio animal, como acontece atualmente na Índia em que vemos pessoas que desfilam envoltos em serpentes, assim como se deixam picar por elas, constroem templos e colocam os ofídios em altares. Aquilo que deve ser tido com símbolo passa a erroneamente ser adorado como um Deus.

Simbolicamente a serpente que morde a própria cauda, ou que se “auto-engole” é na realidade uma representação do circulo, como uma personificação do “eterno retorno”, indicando que cada fim corresponde a um novo começo num círculo de constante repetição. Representa a metáfora de uma repetição cíclica - por exemplo a do circulo dos tempos.

Representa a criação e a reunificação, a queda e a ascensão do espírito, o mesmo que a espada flamígera da Cabala. O circulo representa, pois, o Infinito que é o Poder Superior, portanto a origem de todo conhecimento. Assim a serpente representa, pois, o conhecimento, ou seja, a Sophia dos Gnósticos do Egito.

Também no Egito lemos, no capitulo 87 do Livro dos Mortos, como a alma humana é transformada em Bata, a “Serpente Onisciente” que diz: “Eu sou a serpente Ba-ta, de longos anos, Alma da Alma, sepultada e nascida todos os dias; sou a Alma que desce à terra (o Ego). Esse símbolo também existia na Grécia com o a nome de “Uroboru” e bem mais recentemente veio a ser conhecido na Europa tornando-se então um dos principais símbolos alquímicos.

O Ofismo em seu lado esotérico falava de um Princípio Único, O alfa e o ômega (começo e fim) de tudo quanto há. Na realidade serpente nada mais era que um símbolo usado para expressar o próprio Universo. Mas os Cristãos Ortodoxos não entenderam assim porque eles quase nada podiam ver do lado esotérico das outras doutrinas. Na realidade nem sempre havia o desejo de destruir os gnósticos, mas sim o reflexo de proteger a Tradição Cristã - da maneira como eles entendiam. Viam perigos ou possibilidade, e consequentemente medo de dissolução do Cristianismo. Isto fazia com que os adeptos de algumas linhas, aqueles que de alguma forma representassem algum perigo para o Cristianismo conforme entendiam, fossem repelidos, ou mesmo perseguidos. Mas isso, por outro lado, fez com que desprezassem uma poderosa corrente de pensamento e de crença - o gnosticismo - que poderia ou não ter levado a doutrina cristã a desenvolver-se numa direção diferente daquela que acabou tendo.

Ilustração do documento original

Notas

  1. Estamos falando em Igreja no sentido de comunidade e não de edifício. ↑

  2. Não confundir ofita com orfita. Ofita diz respeito ao culto simbolizado pela serpente ainda hoje pressente em algumas culturas orientais. Foi uma das seitas primitivas do Egito antigo. Orfitas, por sua vez, diz respeito aos Mistérios de Orfeu. Tem origem na Grécia e nada tem haver com o simbolismo da serpente. Instituído por Orfeu que criou os Mistérios Órficos e que se caracterizava por uma moralidade puríssima e severa ascetismo” Orfeu ensinava que tudo é uno, que a Essência divina é inseparável de tudo o que é no Universo infinito, que todas as formas estão ocultas nela desde toda a eternidade. ( Vide o tema A IDÉIA E A FORMA 366 ). ↑

  3. A serpente é mencionada em Gênesis, 3,1; Isaías 27,1; Êxodo 7,9 - 12,15; Num 21, 8-9; Sb 16,5-7;

    2 Reis 18,4 . ↑

  4. Na realidade o Gnosticismo não foi uma doutrina cristã que incorporou o pensamento de outras religiões antigas mas sim o inverso. ↑

  5. A palavra Cristo atribuída a Jesus tem origem bem anterior aos Cristianismo. “Christos” é um conceito pré-cristão representativo do “Ego Divino, unificação com o “Budhi”. Os Gnósticos pré-cristãos detinham esse conceito, “Christos” não era o “Deus Cristão” mas o Ego Divino. Christos era o “Eterno Iniciado”, o “Peregrino”, representado por centenas de símbolos ofídicos desde alguns milhares de anos antes da Era Cristã. Isto pode ser confirmado pelo que é visto na tumba de Belzoni, em forma de serpente alada com três cabeças. ( Âtmaâ-Buddhi-Manas ).

    Obs.: Numa palestra futura faremos um estudo detalhado sobre o simbolismo da serpente através dos séculos. ↑

  6. Muitas vezes não se trata mesmo de um aspecto esotérico e sim de deturpações resultantes da incompreensão dos conceitos de muitas pessoas ) ↑