Saltar para o texto
Primeira Câmara
Tamanho da letra

O Catarismo

Tema 0.542 · Temas Complementares · 2 281 palavras · cerca de 15 min

“ Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação. O espirito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca “.

Bíblia — Mateus, 26-41.

Ilustração do documento original

Em palestras anteriores dissemos que, embora haja sido considerado dualista, a rigor o Maz­deísmo não pode ser considerado como tal, bem como o Maniqueísmo. Nesta palestra vamos falar de uma religião basicamente dualista, o Catarismo.[1]

Os Cátaros, também chamados de Albigenses, tal quanto os cristãos gnósticos, tinham a mesma afinidade com os Maniqueus, desde que a maior parte de sua filosofia e doutrina era maniqueístas, mas no movimento cátaro já existia um contexto político considerável a par com o lado religioso.

Seita que surgiu no séc. XI, próximo da cidade de Albi, estabeleceu-se como movimento regional que depois se difundiu de forma impressionante na Europa Ocidental, especialmente na França e na Itália.

Podemos perceber um tríplice aspecto no Catarismo: Um, o propriamente doutrinário, religioso - o dualismo universal; o outro administrativo religioso - luta contra o despotismo da Igreja Católica, contra o dogmatismo e a riqueza material dos bispos romanos; e o terceiro político - oposições à dominação econômica e religiosas dos senhores feudais. Diante desses aspecto já podemos sentir que os cátaros teriam contra eles duas força muito poderosas na época, o Catolicismo Romano e o Feudalismo.

Em decorrência de uma proposta político-social contra o domínio dos Senhores Feudais naturalmente a religião cátara mereceu desde o início o apoio dos pobres provençais, ao mesmo tempo em que pela contestação ao poder material da Igreja Católica recebeu desta a condenação de heresia. Este contexto religioso-polítco-social atendia a múltiplos interesses e por isto rapidamente expandiu-se por todo o sul da Frígia, dos Alpes aos Pireneus, onde se fez sentir uma forte reação por parte da Igreja Católica e dos senhores feudais que passaram a agir contra os cátaros com pleno apoio do papado. Assim sendo foi que em 1209 foi efetivado uma cruzada chefiada por Simão de Monfort contra os Albigenses totalizando aproximadamente 500.000 participantes. Essa cruzada combateu os Albigenses, saqueou e incendiou as cidade de Béziers, Narbona, Carcassone e Toulouse, matando grande parte de seus habitantes. A cabo de massacres e atrocidades que exterminaram os partidários da seita nas áreas conquistadas, a região foi anexada à Coroa de Paris e eliminada em meados do Séc. XIII.

Quanto ao aspecto doutrinário o catarismo baseava-se nos princípios maniqueístas do Mal e do Bem. Os Albigenses propugnavam por um rigoroso ascetismo com o despojamento dos bens materiais [2]. Condenavam a Igreja Católica pelos seus valores materiais; negavam a divindade e a humanidade de Cristo; repudiavam o culto aos santos e a adoração ás de imagens; rejeitavam o Antigo Testamento, não aceitavam os Evangelhos em Latim, só aceitavam-nos em língua provençal e mesmo assim conforme uma interpretação diferente da católica.

O catarismo desde o inicio foi estabelecido como um movimento fora da Igreja Católico Romana, um sistema contestador de oposição à Igreja Católica, sendo assim diferia de quase todas as heresias anteriores que haviam tido início a partir de linhas de pensamento diferentes dentro do próprio cristianismo estabelecido.

Os cátaros acreditavam em dois poderes eternos; o Deus Bom e o Criador Mau, ou Príncipe das Trevas. Consideravam-se cristãos, mas não católicos e afirmavam que os espíritos teriam sido criados como resultado de uma guerra no céu, quando satanás - algumas vezes identificado como o deus maldoso do Velho Testamento - como conseqüência daquela guerra teria criado o mundo material e nele aprisionado os espíritos celestiais que o Deus Bom haviam criados para combatê-lo. Sendo assim o espírito era de boa origem em contraposição a mundo material. A matéria era considerada, portanto, antagonista do Bem.

Mediante essa forma de crença, vemos que segundo a doutrina cátara os princípios do mal e do bem sempre existiram, portanto torna-se patente o Docetismo. As duas forças sempre haviam existido simultaneamente, apenas que em um determinado momento houvera uma “guerra” entre os dois princípios quando então foram criados os espíritos celestiais pelo Deus Bom a fim de lutar contra o “Príncipe das Trevas” e este acabou aprisionando-os na carne, e colocando-os no inferno, que nada mais era do que o mundo material.

Nesse sentido existe uma grande diferença entre o Catarismo e o Gnosticismo. Enquanto os cátaros afirmavam que o “Príncipe das Trevas” não criara os espíritos, mas sim apenas as coisas mate­riais, por seu lado os gnósticos diziam que não fora o Deus de Bondade o criador dos espíritos, e sim que houvera outro ser criador, o “Demiurgo”, a quem coubera criá-los a partir dele mesmo, embora que ele, por seu turno, haja sido uma emanação do Deus Único, conforme diz a Tradição. Desta forma havia o Princípio único no Gnosticismo o que não acontecia no Catarismo, representando assim, este sistema, uma forma autêntica de dualismo.

Essa concepção cátara levava os cátaros à crença em um Cristo docético, desde que um Cristo santificado não podia assumir a carne.

A tremenda rejeição que os cátaros tinham pela matéria em geral e pela carne em especial levou à adoção de regras de conduta ultra rígidas, a um ascetismo muito arraigado, quase impossíveis de serem obedecidos pelos seguidores comuns. Isto levava-nos a aceitar um forma hierárquica para os seguidores, ainda mais acentuada que aquelas instituídas pelos Maniqueus.

Os Cátaros, vivendo no mundo material, tinham que se submeter às injunções da matéria, mas afirmando ser isto uma decorrência do aprisionamento do espírito. Tudo o que dizia respeito à matéria era, dentro do possível, rejeitado por eles. A base religiosa cátara era o buscar por todos os meios a pureza afim de que o espírito pudesse ser libertado da “prisão da matéria”. Neste sentido podemos comparar o Catarismo com o Hinduísmo ou o Bramanismo e outras doutrinas orientais que dizem da necessidade da pureza afim de que possa ocorrer atingir o Nirvana. Apenas que a visão cátara era muito afeita ao mundo denso, abraçando conceitos pouco metafísicos, ao inverso daquelas religiões orientais que não tinham como paradigma propriamente a rejeição da matéria. Esse mesmo conceito vai encontrar na Cabala cuja “Teoria das Emanações” mostra a inferioridade da matéria por ocupa um ponto bem inferior na seqüência das “Emanações” e desdobramentos dos sephirot. Também o catarismo é omisso no que se refere à reencarnação.

O catarismo diferia do gnosticismo por afirmar a eternidade dos dois princípios e também quanto ao Criador dos espíritos. O gnosticismo dizia que o criador do mundo e dos espírito fora o Demiurgo, enquanto os cátaros, embora falassem da Trindade, não a ligavam a processo da criação e da problemática espiritual.

O sistema cátaro baseava-se na distinção entre a “pure élite” - elite pura - (os Perfeicti ou boni homines) e a massa dos credenti - crentes comuns - (os credentis comunis).

Os Perfecti eram iniciados através de um sacramento chamado “consolamentum” (a consolação) que os cátaros chamavam de “heretização”. Uma vez “heretizado”, o boni homine” tinha de aceitar muitas restrições disciplinares, um modo de vida austero, rígidas regras dietéticas e celibato permanente, portanto, um modo de vida a que apenas aqueles que procuravam seriamente a perfeição suportavam. Somente os que assim vivessem acabariam recebendo o “consolamentum” ainda em vida, pois que os credenti comuni a recebiam apenas quando se aproximava o momento da morte. Os Perfeecti tinham o poder de abençoar e de interceder pelos fiéis, e eram venerados, e até mesmo adorados por estes.

O dualismo dos cátaros era tão sistemático que os fazia acreditar que os objetos materiais não podiam ter qualquer vínculo com o espírito, de modo que eles rejeitavam todo e qualquer sacramento católico, assim como os objetos usados no culto, por conterem matéria, assim sendo o uso da água no batismo era considerado inadequado. O sacramento de consolamentum era conferido por um livro - não pelo livro material, mas pelas palavras nele contidas naquilo que era revelado - pela imposição das mãos e a colocação dos Evangelhos sobre a cabeça [3]. A cruz não devia ser venerada, pois era feita de madeira e, além disso, não admitiam que Cristo houvesse sofrido nela. Também o uso de pão e vinho no sacramento da eucaristia era condenado.

Os cátaros afirmavam que muito do conteúdo evangélico tratavam-se de alegorias, assim é que eles negavam a ressurreição da carne. Afirmando que a verdadeira ressurreição encontrava-se no batismo espiritual dado por Cristo aos boni homines. Dizia que a morte não propiciava libertação alguma, a menos que o homem se tornasse uma nova criatura - um veiculo do Paráclito, o Espírito Santo - do mesmo modo que Cristo o fora. Para eles, este mundo representava o verdadeiro purgatório e o inferno, já que era a antítese do mundo eterno da Paz de Cristo. E, também, assim como para o Maniqueístas a crucificação teria sido uma ato apenas simbólico; da mesma forma que o sofrimento de Jesus era visto como uma descrição simbólica da peleja da alma.

Os cátaros defendiam o mais rigoroso dualismo entre o reino do espírito e o mundo da matéria. Tirava todas as inferências morais e de austeridade, que antes mencionamos, desta concepção, que devia levar os homens ao completo domínio das forças inferiores.

Embora considerado como um sistema dualista, na realidade nem o Mazdeísmo e nem o Maniqueísmo podem ser tidos como tal desde que admitiam uma origem única para Arimã e Ormuzd, para o Mal e o Bem, desde que no final da existência dos seres encarnados aquele seria vencido e eliminado a partir de quando apenas haveria o Bem. No conceito mazdeista, o dualismo apenas ocuparia a fase atual do desenvolvimento espiritual da humanidade que, embora nos pareça longo na realidade ele é apenas uma centelha diante do infinito do tempo. Por seu turno o sistema cátaro afirmava que as duas forças sempre coexistiram, estabeleceram uma “guerra” quando então foram criados os espíritos e o mundo material, mas que no final dessa etapa tudo voltaria a ser como antes, com duas forças eternamente separadas entre si.

Todo o movimento era dirigido contra a Igreja Católica, porque os cátaros, ou Albigenses, como também eram chamados, afirmavam que a “Grande Igreja” havia se afastado dos VERDADEIROS ENSINAMENTOS originais de Cristo e de sua Revelação, tendo mergulhado no materialismo. Considerava todo o sistema sacerdotal - a instituição do sacerdócio - como má e errada, porque só os “boni homines” - os homens bons - podiam liderar os fieis e conduzi-los à Salvação através da PURIFICAÇÃO.

As medidas tomadas para combater a heresia dos cátaros tiveram sua repressão na história do Catolicismo. A necessidade de competir com a poderosa INFLUÊNCIA dos boni homines cátaros foi um dos fatores que tornaram absoluta a regra do celibato PARA os sacerdotes. Mas foi a ação da Igreja para erradicar essas heresias por completo que provocou os efeitos mais aberrante da historia do Cristianismo levado a efeito PELA Inquisição. Aquela nefasta instituição surgiu a partir das CAMPANHAS promovidas contra os Albigenses. O crime de alta traição contra Deus passava a ser especificamente comparado à alta traição contra o Estado, que seria a lei na Europa durante muitos séculos.

O papa, no terceiro Concilio de Latrão proclamou a mobilização de uma Cruzada contra os “hereges Albigenses”. O rei da Franças e os nobres franceses do norte aproveitaram-se da oportunidade para demonstrar “lealdade” à Igreja e, ao mesmo tempo, levar a cabo sua política de domínio sobre o Sul, a terra dos hereges, o que foi feito com uma crueldade fora do comum.

A destruição dos Albigenses, dos cátaros, juntamente com a Inquisição que surgiu daquela destruição são exemplos das distorções que o cristianismo - chamado de “religião do amor resplandecente” sofreu durante sua historia sob a influência da força negativa que se implantara no sei seio. Via de regra a Igreja menciona as perseguições sofridas pelos cristãos sob o jugo romano, mas podemos dizer que de nenhuma forma aqueles perseguições sequer aproximaram-se daquelas promovidas posteriormente pelo Catolicismo.

Não nos estenderemos mais nesta palestra descrevendo a história da luta da Igreja Católica contra os Albigenses, mas podemos dizer que aquela saga merece que as pessoas intestadas na busca da verdade sobre as religiões a leia com atenção nos livros especializados.

Apenas, como é nosso propósito, vamos dizer que o Cristianismo na época da epopéia cátara estava totalmente absorvido pelo terceiro interesse, pelo poder das trevas. Mas como uma fênix os ensinamentos verdadeiros de Jesus reunirão tantas vezes eles sejam deturpados. A verdade sempre sobrepujara a maldade. O mal será absorvido totalmente pelo bem, pois no Cosmos não cabem as duas coisas.

Ilustração do documento original

Ilustração do documento original

Notas

  1. Nesta fase do nosso trabalho estamos apenas abordando sistemas e doutrinas da primeira metade do primeiro milênio, mas em decorrência do dualismo cátaro trouxemos antecipadamente um resumo dessa doutrina. Assim, pondo em evidência alguns aspectos da doutrina cátara podemos mostrar o que realmente pode ser considerado como uma doutrina dualista. ↑

  2. Discute-se se o sistema cátaro era verdadeiramente movido pelo aspecto doutrinário ou pelo político, se o desalojamento das coisas materiais era uma forma de combater o poder material da Igreja Católica e dos Senhores Feudais, ou se era uma conseqüência de uma aceitação da tese dualista; ou seja, se esta era causa ou efeito dentro do catarismo. ↑

  3. Vemos algo inconsistente nisto, pois mesmo que importasse o conteúdo do livros e dos Evangelhos mesmo assim não podia ser alijado a presença da matéria. Em nosso entender seria preciso que tanto o conteúdo do livro quanto os Evangelhos fosse transmitido de boca a ouvido, ainda assim, tendo-se que levar em conta que tanto a boca quanto os ouvidos são órgãos materiais. Na realidade o extremismo no repúdio cátaro à matéria não leva a lugar algum, pois desde que a pessoa esteja no mundo material quer ela queira ou não, de alguma forma está ligado à matéria ↑