Saltar para o texto
Primeira Câmara
Tamanho da letra

A Trindade Egípcia

Tema 0.531 · Temas Básicos · 2 542 palavras · cerca de 17 min

“ IMORTALIDADE NÃO QUER DIZER VIDA QUE DURA

SEMPRE, POIS NÃO DURA; SIMPLESMENTE É ”.

1 9 9 6

Em decorrência da civilização do Antigo Egito cobrir um período de mais de 4 mil anos é natural que muitas formas de religião hajam predominado e algumas delas tiveram nomes diferentes para os componentes da Trindade.

Entre as mais antigas citações egípcias que mencionam uma Trindade podemos mencionar aquela que era mencionada em vários textos sagrados escritos pelos sacerdotes de Heliópolis, entre 2480 e 2137 a.C. Vários daqueles textos sagrados falam a respeito de uma Trindade inicial em que o primeiro deus mencionado tem o nome Atum. Este nome significa “O Ainda Incompleto” e sob o nome de Atum-Re ele o deus era identificado com o Sol ( Re ).

Segundo o texto sagrado no começo do mundo havia apenas uma imensidão de água, chamada Nun. Da água emergiu Atum que a seguir produziu o casal de deuses Shu e Tefnu respectivamente masculino e feminino e cuja união resultaram Gbe ( Terra ) e Nut ( céu ).

Em linguagem comparativa podemos entender que preexistia algo - Num - que projetou Atum e do qual surgiram simultaneamente uma polaridade masculina e feminina - Shu e Tefnu , constituindo a Trindade.

Ilustração do documento original

Isto está de acordo com outras doutrinas, como a Cabala, a Doutrina do Fogo Sagrado e várias outras mencionadas no tema 500.

Da união de Shu e Tefnu nascera Geb - a terra - e Nut - o céu.. A terra simbolizando o falho aquilo que em outras doutrinas é designado por criação do mundo material tendo como polaridade oposta o céu simbolizando o divino. Numa fase seguinte nasceram Osiris - Isis - Seth - Neftis.

Isis é esposa de Osiris e Neftis a de Tifon. Neftis é o gênio do mundo inferior, tem o poder de desintegração designa o que está debaixo da terra e que não se vê, o poder da desintegração e da reprodução. Isis representa o que está sobre a terra e que é visível, ou seja a natureza física.

Num nível mais inferior existem outras trindades que durante os séculos variavam muito, mas vale a pena mencionar Osiris - Isis - Seth. Na religião nos textos antigos em um deles, conhecido pelo nome de Texto das Pirâmides é descrito a vida e a morte dos faraós das 5a e 6a dinastias. Nele há referência ao assassinato de Osiris perpetrado por Seth. Seth a representação do Mal e Osiris a do Bem[1]. Numa primeira fase o mal vence o bem, mas Isis, auxiliada por Meftis, impedem a decomposição do corpo de Osiris, juntas os pedaços, recompõe o corpo e ressuscita Osiris . Depois de recuperado o seu corpo Osiris ressuscita.

Seth, ou Tifon, é considerado uma sombra do próprio Osiris, o seu lado oposto. Primitivamente Tifón não era, como afirmava Plutarco, o princípio do mal, ou o seja, o satã dos judeus, mas um deus poderoso e justiceiro. A idéia real é que Osiris e Tifón eram apenas polaridades, Osiris representava o universo personificado como uma idéia e Tifón como aquele mesmo universo em sua relação material.

Na mitologia egípcia primitiva Seth identificava-se com a destruição, com a morte do Sol, através do assassinato de Osiris. Mas, ao mesmo tempo, era venerado como um grande e poderoso deus criador. Com o passar do tempo Seth acabou sendo considerado a personificação da maldade.

Aqui vemos o momento em que o mal entra na criação através de Seth.(Também chamado de Tifon).

No Antigo Egito existiam trindades exotérica e esotéricas. A esotérica, aquela somente do conhecimento dos Iniciados nas Escolas de Mistérios, era constituída por Consciência (querer Cósmico ) + RA ( atributo ativo Cósmico) + Ma ( atributo passivo Cósmico ). Essa trindade estava além da criação, foi a por assim dizer a Trindade primitiva geratriz do Universo. Esta é a trindade mais elevada entre todas aquelas consideradas no Egito, e que já citamos e comentamos sobre ela em um grande numero de temas anteriores.

Num outro período da história do Egito Antigo falava-se de Osiris filho de Seb - Fogo Celeste - e de Neith, matéria primordial e espaço infinito. Apresenta Osiris não como um ser vivente na terra e sim como um Deus existente por si mesmo, autorizado, a primeira deidade manifesta, idêntico a Ahura Mazda e a outras “deidades que são, nos diversos sistemas e nas diversas épocas consideradas, como “Primeira Causa” Tal como Ahura Mazda , Osiris é Uno, é a Unidade Coletiva, mas quando diferenciada e personificada se converte em Tifon, que juntamente com Isis e Neftis constituíam a Trindade. Neste caso aparece o nome de Horus, como sendo seu filho, mas que na realidade nada mais é do que um dos seus outros aspectos.

Osiris foi morto, segundo a alegoria, pelo seu irmão Tifon (Seth ) com a idade de 28 anos. Na realidade o que tudo isso quer dizer é que um “deus” da trindade estava representado por Osiris, que tinha em si quatro aspectos distintos, entre os quais o do “mal” e do “bem”. Em dado momento o aspecto mal, simbolizado por Tifon, prevaleceu levando para a materialidade. Isso indica que Osiris foi sobrepujado pelo lado negativo de si mesmo, ou seja, o lado negativo sobrepujou a positiva e assim foi criado o mundo material. Isto é uma interpretação clara do contido no texto que fala dos aspectos de Osiris.

Os 4 principais aspectos de Osiris eram Osiris-Ftah ( Luz ), o aspecto espiritual; Osiris-Horus ( Mente ), o aspecto intelectual; Osiri-Lunus, o aspecto lunar, ou psíquico, astral, e Osiris-Tifon, o aspecto demoníaco, ou físico, material, e por conseguinte, passional, turbulento, negativo.

No sentido que estamos considerando Osiris é a própria deidade, o Deus cujo nome é desconhecido, o Senhor que está sobre todas as coisas, o Senhor da Eternidade, o Único cuja manifestação material é o Sol, e cuja manifestação moral é o bem. Diz a religião egípcia, morre o Sol, porém renasce sob sua forma de Horus, filho de Osiris. Isto simbolicamente quer dizer: o Bem sucumbe aos golpes do mal, porém ele renasce, e esse renascimento é representado por Horas, filho, e vingador de Osiris. Horas é a representação de todo renascimento, e com este nome reaparece o Sol no horizonte oriental todos os dias.

Numa outra expressão da Trindade Egípcia vamos encontrar Râ, a divina alma universal em seu aspecto manifestado - a luz sempre ardente - ou seja o Sol personificado. O deus Râ está representado com cabeça de gavião porque aquela ave era consagrada a Horus. Râ literalmente significa: “haver”, “dispor”, e na realidade o Deus Râ dispôs e organizou o mundo, cuja matéria ele havia separado Ptah.

Ftah, Fta, Ptah ou Pgthah é filho de Kneph no panteão egípcio. E o princípio da Luz e da Vida, por meio do qual se efetuou a criação ou, melhor dito, a evolução. É o Logos criador egípcio, o Demiurgo. Uma divindade muito antiga posto que, segundo Herodoto, já existia um templo erigido para ele por Menés, o primeiro faraó do Egito. É o dispensador da vida, o nascido de si mesmo e pai de Apis, simbolizado pelo touro sagrado concebido a partir de uma raio do Sol.

Consideremos que, embora as religiões antigas parecem elementares em decorrência do grande volume de representações materiais simbólicas, como, por exemplo, diversos animais, mesmo assim eram religiões com elevado senso metafísico. Vejam que Kneph era em essência o principio da Luz e da Vida, portanto o equivalente ao Poder Superior em que Kneph aparece como filho como criador do universo, sendo assim eqüivale a Deus, à Força Superior, em seu aspecto criador do mundo.

Os egípcios também chamavam Ptah de “a sabedoria”. Fazendo parte do mais antigo panteão egípcio, Ptah, concebido em virtude de um raio do Sol, pode ser considerado o protótipo de Osiris, uma deidade posterior.

O que para muitas pessoas causa estranheza é que nas religiões básicas do Egito, assim como na de outros povos da antigüidade, seja citado o nome de um Deus Supremo gerador de todos os outros mas ao mesmo tempo fazem referências a um outro deus como sendo o criador de tudo. Isto é exatamente o que estamos mostrando em várias palestras, existe um Poder Superior, Incognoscivel e por isso indescritível a partir do qual surgem os demais deuses, na maioria das vezes formando inicialmente uma Trindade. Assim sendo, na mais antiga das religiões do Egito é citado o nome de Kheph como a essência, mas todos os atributos e etapas da criação são creditados não a Kneph mas sim a Ptah. Nesse sentido podemos dizer que Kneph corresponde no Bramanismo a Brahma ou Brahaman, e em algumas doutrinas atuais é denominado Poder Superior. Kneph representado por um raio da Luz do Sol deu origem a Ptah, em linguagem atual, o Poder Superior deu origem a Força Superior ( = Deus dentro da criação).

Ptah era chamado de Ftah, ou seja, a sabedoria do Primeiro Intelecto, portanto é o mesmo Hahat, a Sabedoria Divina, mesmo que de outro ponto de vista seja considerado a substância criada de si mesmo, como diz no ritual do Livro dos Mortos é mencionado como Ftah “Pai dos pais de todos os deuses, gerador todos os homens produzidos de sua substância”. “Tu eras sem pai, sendo engendrado por tua própria vontade; tu eras sem mãe, havendo nascido pela renovação de tua própria substância da qual a substância procede”.

Isto nos mostra que Ptah não teve pai nem mãe mas que ele foi engendrado pela própria vontade e pela renovado da própria “substância” de que era constituído. Isto significa que havia o eterno Kneph e que de si mesmo ele se manifestou dentro da criação como Fatah.

Existe uma interpretação errônea por parte de alguns autores quando dizem que Ftah é a segunda pessoa da trindade egípcia, composta de Kneph - Ftah - Fre; filho de Kneph e de Neith. Neste caso seriam 4 e não 3 deuses da Trindade. Essa dúvida existe exatamente porque tentam colocar Knef como parte integrante da Trindade quando na realidade ele é mencionado como pai de Ptah, portanto preexistente. Mas, ao mesmo tempo é citado que Ptah nasceu de um raio de Luz, sendo assim a Luz precedeu a Ptah, logo a “Luz Primordial” não pode ser Ptah e sim Kneph.

Algo, pois, existia antes de Ptah, mas muitos autores atribuem a este qualidades próprias de Kneph. Isto é decorrente de opiniões baseadas em papiros incompletos e mesmo alterados pelos mais diferentes “interesses” que prevaleceram em diferentes épocas da longa história do Egito. “Interesses” e concepções que prevaleceram durante milênios misturam os atributos de Kneph com os de Ftah ocasionando essa confusão que existe atualmente. Se, por uma lado, é mencionado que Ftah é filho de Kneph e criado por um raio de Luz, por outro lado diz que Ptah é o Deus da Luz.

Na concepção oriunda dos fragmentos de documentos Ptah e considerado o Deus do Fogo e da Vida. Ptah, o fogo primitivo, na concepção mais lata da palavra, incluindo todos os atributos da luz, do calor, do magnetismo e de outras forças.; é o sopro vital que todas as criaturas necessitam para suas existências e manutenção. Na realidade isto é idêntico ao que nos ensina a Doutrina do Fogo Sagrado; que diz da existência da Luz Essencial, que se manifesta no Universo ciando e se polarizando em Fogo e Água. Tudo resulta desses dois elementos básicos. Todas as coisas existentes no universo são frutos do Fogo Sagrado, neste caso é o mesmo Ptah. A Luz essencial, que eqüivale a Kneph é Incognoscivel e tudo quanto existe como criação não foi criado diretamente por Kneph mas sim pelo seu aspecto Ptah. Isto é o mesmo que ocorre com relação A Brahmâ que é o aspecto finito de Brahma; o mesmo que a Força Superior (Luz, Deus, Força Superior, etc. ) que é o aspecto finito do Poder Superior,.

W4 por um lado diz que nasceu de um raio de luz do sol por outro diz ser o próprio deus solar.

Na realidade devemos separar os atributos de Ptah dos de Kneph. Este pode ser considerado a própria Luz Primordial ou seja, o Poder Superior. O Poder Superior, é Kneph, respeitado pela Luz do Sol, aquele cujo raio deu origem a Ptah sendo este, portanto, apenas a presença de Kneph dentro da criação. Ptah deu origem à Fre e Neith, era um dois solar, por virtude do fogo do sol, que mata mas que ao mesmo tempo vivifica. Seu nome indica “aquele que abre”’, o que da pesagem à vida e à morte.

Originalmente era considerado o deus dos mortos, aquele em cujo seio estes eram recebidos, sendo neste conceito similar a Ziva, o deus destruidor do Hinduísmo. Numa inscrição da famosa necrópole de Sakarah se lê que Ftah presta ao morto a força necessária para a nova saída e para a ressurreição e existência eterna.

Knef . Kneph, Cnef ou Nef. Nome divino da Suprema Força Criadora. Um dos deuses da força criadora, posto que se encontra relacionado com o ”Ovo do Mundo”, por isso haver sido considerado o criador do mundo, como refere Porfírio. Plutarco cita-o como a “incriada e eterna deidade”. Eusébio identificava-o com o Logos, e Jâmblico com Brahmâ pois falando dele, diz “este deus é o intelecto mesmo, que percebe intelectualmente a si mesmo; e deve ser adorado em silencio”.

Kneph é identificado com aquela “água” mencionada por Thales de Mileto, e outros filósofos antigos, coimo sendo o “Primeiro Princípio” de todas as coisas. Como é evidente, não se trata da água do plano material mas a que em sentido figurado expressa o “fluido potencial” contido no infinito. Exatamente esse fluido imaterial primordial era simbolizado no antigo Egito por Kneph, como era mencionado “o Deus não revelado”. Nos desenhos era representado por uma figura de serpente[2] ( emblema da eternidade e da sabedoria), circundando um jarro de água, com a cabeça suspensa sobre as águas,

Concluímos esta palestra salientando que nas grandes doutrinas antigas eram mencionadas Trindades, bem como menções a um “Ser Absoluto” que situa-se além e acima de quaisquer atributos e caracterizações. Tudo o que diz respeito à criação situa-se em nível de um “Ser” imutável e infinito. Sendo assim diversas religiões não consideravam o mal como uma manifestação primaria de Deus, algo que não pertence a unicidade e sim como uma condição relativa surgida em decorrência da multiplicidade como acontecia no Hinduismo a respeito de Ziva.

********************

Notas

  1. Comparar com o texto bíblico de Adão, Eva, e a serpente (Seth). Não confundir com Set - o sétimo filho de Adão. ↑

  2. No Antigo Egito, e em várias outras culturas, a eternidade era simbolizada pela figura da serpente, especialmente “ourobus” a serpente que morde a própria cauda. Esta figura configurava o circulo, uma figura que não tem começo e nem fim. A serpente sempre foi considerada um símbolo da sabedoria. Muitas pessoas menos versadas indagam: Que sabedoria tem uma serpente para se considerada símbolo de sabedoria? - Alguns dizem: “por que conseguiu enganar Eva e Adão”... - Mas não é esta a razão e sim porque mordendo a cauda forma uma circunferência, ou seja o infinito e no infinito está contido toda a sabedoria cósmica. ↑