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Os Princípios Opostos

Tema 0.540 · Temas Complementares · 2 040 palavras · cerca de 14 min

“ Aquele que conhece o externo é um erudito, aqueles que conhece a si mesmo é um sábio.

Lao Tsé

Ilustração do documento original

Todo e qualquer princípio do universo sempre tem o seu oposto e isto resulta da própria natureza Divina. Em palestras iniciais falamos dos Atributos da Divindade, na realidade podemos denominar Atributos Cósmicos, que mencionamos com os nomes de RA e MA.

Em qualquer tempo, em todas as religiões, sempre encontramos a coexistência de duas categorias antagônicas: o mal e o bem, em cada uma delas os deuses são citados numa ou noutra. Nisto vemos a teoria dos princípios opostos, ou Principio da Polaridade de Hermes.

Em palestras anteriores estudamos os princípios opostos presentes em algumas doutrinas. Nas três palestras anteriores falamos a respeito de satanás, um dos opostos, pertencente ao bipolo Mal / Bem. Vimos que esses princípios oposto em alguns sistemas são considerados condições exteriores e noutros condições anteriores. O principio dos opostos disseminados no ocidente tem basicamente como origem o Zoroastrismo ( Mazdeismo) . Na realidade no Zoroastrismo

Para algumas das ramificações da doutrina gnóstica, incluindo a de Velentinus que viveu no II Século de nossa era, o mal surgiu apenas num estagio posterior, dentro do processo de emanações originado do mundo divino. A derradeira dessas emanações [1] os gnósticos valentinianos denominam-se Sofia[2] ( saber) e correspondendo ao início da existência material do universo. Portanto, o mal não surgiu como força autônoma, mas sim dentro do mesmo processo de emanações do qual também surgiu o bem. O dualismo dos Maniqueus e dos Gnósticos Iranianos é mais radical, havendo duas categorias de oposição - a luz, e a terra - cuja existência seria eterna.

De acordo com os Bogomil havia um dualismo no universo representado por Satanael e Jesus.

Os Baogomilos compreendem os membros de uma seita cristã, fundada na Bulgária no início do século X por um padre chamado Bogomil, considerada herética pela Igreja Católica. Tratava-se de uma doutrina essencialmente dualista, pois ensina que Deus tivera dois filhos, Satanael e Jesus. Satanael, o mais velho, revoltara-se contra o Pai razão pela qual ele foi expulso do Céu e assim tornando-se o espirito do Mal que criou este mundo, seduziu Eva e gerou Caím. Seguindo-lhe o exemplo, Adão se uniu à Eva, com quem teve os filhos Abel e Seth.

Os bogomilos ensinavam o desprezo pelas autoridade se pelas instituições; consideravam que Moisés houvera sido um instrumento involuntário de Satanael, que desorientara os homens com suas Leis

Deus, para liberar os homens da influência nefasta de Satanael enviou o seu irmão Jesus. Este nasceu da Virgem Maria mas que apenas uma forma humana aparente, e quando subiu ao Céu, deixou o Espirito Santo no coração dos homens.

O Bogomilismo teve um grande número de adeptos, sobretudo na Sérvia e na Bósnia, até a conquista dessas regiões pelos turcos, e por certo mais tarde exerceu grande influência sobre alguns movimentos heréticos do Ocidente, em particular a seita dos Cátaros. Penetrou em Bizâncio e espalhou-se pelos Balcãs, Grécia e norte da Itália.

Os bogomilos admitiam que o principio do mal, Satanael foi quem criou o mundo. Nisto assemelham-se a algumas escolas gnósticas que diziam o mesmo a respeito do Demiurgo. Satanael teve a sua origem no principio divino, mas havendo se tornado independente criou para si um céu e uma terra. Afirmavam que o corpo humano é criação de Satanael, mas não o espírito que o anima; este foi enviado por Deus.

Vemos que existe uma diferença entre o dualismo dos Bogomilos e o dualismo exotérico dos Mazdeístas, e especialmente daquele dualismo propugnado pelos Cátaros e pelos Albigenses, como veremos depois.

Analisando-se a Doutrina Bogamilia podemos identificar a trindade constituída por Deus - Satanael - Jesus. Esta trindade é semelhante a dos Gnósticos Deus ( Pai ) - Demiurgo ( Criador ) - Cristo ( Redentor ) . Na realidade a Doutrina dos Bogamilios apenas é parcialmente dualista pois em essência nela se afirma a existência de um só Deus que origem a dois filhos Satanael e Jesus. Compondo assim a Trindade. É uma doutrina bem parecida com a dos Gnósticos que admitiam o Ser Eterno, origem de tudo, compondo uma Trindade com o Demiurgo ( criador ) e Cristo ( redentor ). Comparando-se as duas doutrinas vemos que o demiurgo dos Gnósticos é o eqüivalente Satanael dos Bobomilios, e que o Cristo dos Gnósticos é Jesus dos Bogamílios.

Quanto ao aspecto da dualidade existem apenas uma diferença entre as duas doutrinas. Mesmo que ambas afirmassem ser o mundo uma criação de Satanael ( demiurgo ) elas diferiam num ponto, enquanto os gnósticos afirmavam que os espíritos foram criados pelo demiurgo, os bogamilios diziam que apenas o corpo, a matéria, fora criada pelo Satanael, enquanto os espíritos foram criados por Deus.

Comparando-se as duas doutrinas com a Cabala vemos que este sistema filosófico, no que diz respeito à Trindade aproxima-se mais do pensamento gnóstico, pois admite um Ser Primordial Eterno, Gerador de tudo, que não teria criado o Universo a partir do nada absoluto, mas de si mesmo pois nele eternamente tudo já estava contido. A partir de Si teria produzido emanações que, por sua vez, teriam produzido outras emanações, disseminado cada vez para mais longe de sua fonte. Assim sendo, de Kether originaram-se sucessivamente Hokhmah e Binah e desta todas as coisas foram criadas, incluindo os espíritos.

Um dualismo parcialmente análogo ao dos Bogamílios pode ser encontrado em algumas seitas da Europa Oriental e da Ásia Ocidental, incluindo os Yezidi do Iraque, conhecidos também como os “Adoradores do Diabo”. Eles veneram o “Anjo-Pavão”, que seria uma espécie de demiurgo, um ser rival de Deus, com o qual acabará se reconciliando.

Entre os numerosos povos da Ásia Central e Norte-Ocidental, como os Tártaros, a idéia de dua­lismo também prevalece. Um bom exemplo é a historia de Erlik, um espirito que participou da criação do mundo, juntamente com o ser supremo, exigindo uma parcela dele para si. Foi a partir de então que ele tornou-se um sério rival do antigo companheiro, passando a sustentar as forças do mal.

Mitos bem semelhantes são encontrados nas religiões de povos primitivos desde a Ásia até a América do Norte. Algumas tribos de índios norte-americanos crêem numa entidade criadora conhecida por Coiote, que seria um tipo demiurgo, competidor frustrado na luta pela supremacia sobre o mundo, e que é uma representação do mal es escala menor.

Entre os Dogon e os Mali do Norte da África circulam lendas que dizem respeito ao dualismo da natureza como sendo o rsultado de uma interação entre um poder criador e um outro destruidor.

Na Grécia o dualismo esteve presente nos “mitos órficos”, em Empédocles e outros filósofos gregos da antigüidade, como Platão, por exemplo. O mundo aí é concebido como integrado pelos dois princípios, que não são propriamente opostos, mas que sim complementares mesmo que com valores desiguais.

Em Platão os dois pólos que formam a dicotomia são, de um lado, a matéria, e do outro, as idéias ( com supremacia da idéia do bem). Em Empedócles os opostos são a discórdia e o amor, que se alternam numa tentativa de predomínio sobre o universo. Na doutrina pitagórica vamos encontrar, a Mônada ( unidade, perfeição, eternidade, infinito) contraposta à Díade ( fragmentação, imperfeição, limitação no tempo e no espaço ).

O dualismo gnóstico, assim como a Cabala tem muito em comum com este tipo de colocação, especialmente na verdade de gnosticismo conhecida pelo nome de “ofidismo” ( de ofis, serpente em grego) [3]. No ofidismo , a serpente simboliza a queda do ser espiritual superior no mundo inferior da matéria; mas que num momento seguinte ascende novamente, ou seja reintegra-se no mundo superior do espirito. Nesse conceito de ascensão a e queda está implícita a teoria da salvação do espirito humano através da fuga do mundo material, considerado como uma prisão para o homem. Entende-se que o elementos espiritual pode animar a matéria, dando-lhe vida, forma e movimento, mesmo que seja apenas em caráter provisório.

Também podemos encontrar o dualismo nas doutrinas religiosas chinesas que baseiam-se no pressuposto da existência de dois princípios Yin e Yang e que regem toda a organização do universo. Para o Taoísmo, Yin e Yang são contidos por um outro princípio, singular e original, que é o Tao. ‘;E através do Tao que se pode perceber a unidade que há em toda dualidade, aparentemente duplicada: dia e noite; macho e fêmea, céu e terra etc.

Muitos citam Taoísmo como sendo uma filosofia religiosa essencialmente dualista, em decorrência dos dois principais Yin e Yang, mas na realidade não é assim pois esse dois princípios estão contidos num mais amplo que é o Tao. O Tao se manifesta sob duas formas que na realidade são apenas polaridades de um só princípio. Assim ele é um símbolo da Trindade , o mesmo que mostram o Gnosticismo, a Cabala e muitas outras religiões que já citamos nestas derradeiras palestras. O Tao é o mesmo que Kether no qual estão inerentes Hokhmah e Binah. Na realidade o modelo taoísta mostra bem mais da dinâmica do criação que os demais sistemas, como veremos em outra palestra.

Algumas vezes, a oposição entre os dois princípios de um sistema dualista coexistem antagonicamente no interior de uma mesma divindade. É o caso, por exemplo, que acontece em determinadas seitas islâmicas e heréticas iranianas. .

Não são apenas as religiões que se expressam, no plano mais imediato, através de uma simbologia dualista. Algumas ciências, como a psicanálise que dá um enfoque dicotômico para caracterizar os seus princípios. Feud, por exemplo, chamou de ID àquela zona misteriosa da mente em que se fazem presentes duas forças poderosíssimas e contrapostas: Eros, o criador e Tânatos, o destruidor que se manifestam de muitas formas, entre elas a de ódio e amor. Da luta dessas duas forças desenvolve-se o processo dinâmico da vida. Daí é que algumas linhas de psicologia aceitam a idéia de que satanás e Deus são inerências à psique humana, ou seja eles são apenas condições subjetivas, condições interiores e não exteriores.

Em decorrência do que acabamos de afirmar é preciso que não se confunda o dualismo no sentido apropriado do termo com o chamado dualismo ético, ou psicológico. A distribuição dos valores em dois grandes grupamentos - um bom e outro mau - encontram-se praticamente em todas as formas de pensamento e comportamento humanos. Por exemplo, não se pode dizer que sejam dualismo substancial na religião judaica, apenas pela existência do conceito dos dois espíritos dentro da lama humana, ou sejam a inclinação para o bem e a inclinação para o mal. Na verdade, não é justo se pensar que o Deus, ou Espirito Supremo do Universo, encorpou os dois princípios, o mal e o bem, à alma do homem somente para lhe dar uma chance de escolha. Igualmente o conceito judaico-cristão de satanás não implica um dualismo, em relação a idéia de Deus, uma vez que satã é uma criação Dele, e que, por sua vez, não criou coisa alguma.

No platonismo, no ofidismo e no gnosticismo tem-se de fato a conotação de um crime cometido no inicio dos tempos, por uma individualidade não humana, ocasionado uma cisão na esfera celestial e propiciando o surgimento de forças contrapostas, o mal e o Bem. Por seu turno o judaísmo e Igrejas cristãs com a história bíblica de Adão coloca o “pecado original” como inicio do mal, por isso tratando-se de alguma coisa inerente ao homem e não à divindade.

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Notas

  1. Teoria das Emanações da Cabala. ↑

  2. Um dos livros tradicionais dos gnósticos do Egito denomina-se Pistris Sofia. ↑

  3. Um dos aspectos que causa espécie aos estudiosos das religiões da antigüidade é o caráter materialistas, tolo, infantil, que os ministros religiões e muitos autores dão \às representações simbólicas. Muitos tolamente afirmam que no “ofismo” se adorava a serpente, ao animal. Isto não é verdade a serpente representava um símbolo. Símbolo de que? - Símbolo da sabedoria. Por que a serpente pode ser considerada símbolo do saber? - Baleias-se naquele “ o “uroborus dos gregos. Uma serpente mordendo a própria cauda formando um circulo. O círculo é símbolo do infinito, portanto algo que contém em si todo o conhecimento de tudo quanto existe. Um outro símbolo é o uroboro que estudaremos numa palestra futura ↑