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A Subjetividade do Agente do Mal

Tema 0.538 · Temas Complementares · 2 691 palavras · cerca de 18 min

“ Aqueles que pertencem à vida, tendo sido iluminados sabem discriminar por si o que é falso e o que é verdadeiro ”.

Apocalipse de Pedro.

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Ilustração do documento original

Na palestra anterior analisamos uma série de conceitos que mostram ser, o agente do mal, um ser objetivo, algo que ele tem lugar como individualidade dentro do universo. Nesta palestra vamos analisar proposições que têm o demônio como sendo um aspecto polarizado do próprio bem e sendo assim não haveria satanás objetivo e sim ele seria apenas uma manifestação oriunda do próprio ser.

O que leva muitos teólogos e filósofos à convicção de a força negativa seria apenas uma condição subjetiva? - São dois os pontos de apoio à esta tese:

Primeiro: A relatividade do Mal e do Bem.

Diz respeito à relatividade do mal, àquele sofisma com que foi concluída a palestra anterior.

No Judaísmo exotérico e na quase totalidade das religiões que ele derivaram, predomina a concepção da individualidade satânica, mas não se pode dizer que sempre foi assim, desde que de início os Judeus admitiam que a “serpente do Éden” não era um ser propriamente mas apenas uma representação simbólica do “poder da tentação”, a “serpente” seria a manifestação da tendência ao erro que existia em Eva e Adão.

Segundo: A Lei da Polaridade.

Diz respeito aos Princípios Herméticos (especialmente o Princípio da Polaridade ) e aos Mistérios dos Números 1-2-3 .

Há um pensamento dos adeptos da hipótese de que o demônio é simplesmente uma ausência de Deus, um vazio de Deus. Encontra ressonância num adágio que diz: “ A sombra sempre acompanha o corpo”.

Esse sistema está mais presente em algumas doutrinas orientais, em especial no Budismo. Neste sistema religioso satanás está representado por Mara, o “Senhor dos Demônios” que não é propriamente como um ser mas sim a própria tentação.

No Budismo o “ser maligno” é mostrado como a tentação pela qual passou Siddhârta antes de tornar-se um “Iluminado” Buddha. Mesmo quando Siddhârta sentiu o desejo de sair do palácio para o mundo exterior a fim de descobrir a razão do sofrimento, da dor e da morte ele sentiu em si a presença de Mara tentando-o a não renunciar à vida mundana [1] e partir em busca do conhecimento da verdade. Mas as insinuações de Mara não tiveram efeito algum mas mesmo assim ela não abandonou Sidhârta; a partir daquele dia, do mesmo modo que uma sombra sempre segue o corpo, assim também Mara passou a segui-lo.

Antes Gauthama estava somente numa polaridade por isso ele não percebia Mara; somente quando ele percebeu a ambivalência da vida ( polarização ) foi que Mara se apresentou, neste caso pode-se perceber tratar-se de uma condição subjetiva. Quando Siddhârta percebeu que o mundo não era somente aquele existente no palácio, então, manifestou-se e ele percebeu a existência do bipolo Mal - Bem. Daí então o seu lado negativo representado por Mara passou a lançar obstáculos em seu caminho da busca da condição de perfeição.

No momento mais crucial da vida de Siddhârta Gauthama, quando ele se encontrava sentado em “posição de lotus” em meditação debaixo da árvore “Bo”, Mara se fez pressente uma vez mais para tentá-lo e persuadi-lo a abandonar sua missão. Apresentaram-se, então, as tentações, as citadas “Cinco Filhas de Mara ” caracterizando as cinco mais perigosas paixões ( Egoísmo - Medo - Inveja - ). Diz a tradição budista que Siddhârta teve que lutar muito para poder permanecer impassível e sereno diante delas. Para os budista Mara é o inimigo e tentador de Budha, pois este liberta a humanidade dos desejos mundanos

Pela história das cinco filhas de Mara pode-se perceber que não se se tratam de seres objetivos, exteriores, e si de condições, e sim subjetivas, interiores, manifestações da propina natureza espiritual do homem. Ainda mais claro se percebe o sentido de subjetividade pelo derradeiro diálogo de Gauthama com Mara quando esta se apresenta como o seu duplo.

Mara - Você que vai aonde ninguém mais ousa, quer ser meu deus?

Gauthama - Arquiteto, finalmente o encontrei. Você não construirá sua casa de novo

Mara - Mas eu sou a sua casa, e você vive em mim

Gauthama - O Sr. do meu ego. Você é ilusão, você não existe. A terra é minha testemunha.

O diálogo deixa bem claro que Siddhârta Gauthama esteve sempre com Mara mas que esta era uma manifestação interior, o seu próprio ego.

No budismo Mara é também chamado de Varsavati, aquele que satisfaz os desejos mesmo o desejo ou a sede pelo prazer, pelo poder, e até pela existência, o que condiciona os seres humanos à roda da vida que gira eternamente, impedindo a liberação do verdadeiro ser, ou Nirvana. No Dbammapada, uma coleção de versos éticos budistas do século IV ou V, Mara representa a personificação do mal: “Aqueles que procuram apenas pelos prazeres, com os seus sentidos descontrolados... Mara sem dúvida alguma os derrubará, da mesma forma que o vento derruba as árvores fracas ”.

Como se percebe, Mara não seria um ser mas sim a própria tentação personificada pelos vícios humanos. Traduzida literalmente esta palavra significa “o que mata a alma” e muitas vezes é representada por um rei com uma coroa na qual brilha uma jóia com um resplendor tal que cega a quantos a miram, figurando este brilho a fascinação produzida pelo vicio sobre determinadas naturezas.

Budha recebeu esse título depois de sua “iluminação”. Seu nome antes era Siddhârta Gauthama, príncipe de Kapilavastu, filho do rei de Zuddhodana, do pequeno reino de Zâkya nos confins do Nepal. Nascido no século VII a.C. Os ensinamentos budistas disseminaram-se até a Pérsia, de modo que a concepção de Mara, o tentador, apesar de não ser um tema central do budismo, acabou entrando na religião persa e, a partir daí, chegou até aos judeus na Babilônia que incorporaram essa concepção de uma agente impessoal do mal.

Quando se lê em João 8:44 “ Vós tendes por pai o demônio e quereis satisfazer os desejos do vosso pai. Ele foi homicida[2] desde o principio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade; quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira ”, parece que João quis falar não de um ser mas de um logro, de uma ilusão, neste caso assemelhando à Mara do Budismo.

Vários teólogos têm afirmado que a vinda de Jesus como libertador não teve como objetivo vencer um ser e sim uma tendência. Neste caso os ensinamentos de Jesus seriam meios da pessoa se libertar das tendências negavas, isto é se afastar das trevas e se aproximar da Luz. Para os Gnósticos seria vencer a ignorância generalizada que constitui a treva do espirito, a ignorância seria satanás.

Esta doutrina baseia-se no fato da existência de forças opostas, da existência de uma polaridade em tudo, de conformidade com o Princípio da Polaridade de Hermes. Assim duas forças imperam, uma de dispersão, de fragmentação, e outra de unificação. Na unificação estaria contido toda a positividade e o que é mais interessante é que não há o paradoxo contido na palestra anterior[3].. Vamos repetir alguns dos gráficos contidos naquela palestra.

Fig. 1 MAL _______________________________________ BEM

Este binômio pode representar qualquer condição no Universo

Representemos o bipolo por uma linha e a consciência por um ponto fora dela.

MAL _______________________________________ BEM

Fig 2

CONSCIÊNCIA

A forma de consciência necessária para a existência do bipolo MAL / BEM, pode se si­tuar em qualquer ponto ao longo da linha. Sem a consciência para evidencia-los tanto o bem quanto o mal não existem.

MAL ______________________________________ BEM

____________________________________

LINHA DE CONSCIÊNCIA

Fig. 3

Pelo exemplo podemos sentir que não há BEM e nem há MAL absoluto, há apenas condições relativas, pois isto vai depender do ponto em que a consciência esteja situada.

Na fig. 5 representemos uma outra condição, por exemplo, uma doença. Suponhamos a febre tifo, que é uma moléstia provocada por uma bactéria, a Salmonella thiphii.

Representemos simbolicamente o bipolo: DOENÇA / SAÚDE , com dois tipos de consciências ( dois seres conscientes) na linha inferior, na linha de localização de consciência.

DOENÇA _____________________________________ SAÚDE

(TIFO)

__♣_____________________________♣_

HOMEM SALMONELLA

Fig. 5

Na situação representada, a condição para o homem é má desde que ele está diante da doença. Para o organismo a febre tifo é uma péssima condição, porém excelente para a Salmomnella. Para o ho­mem, o bem está no polo saúde, logo ele deve procurar se situar o mais próximo possível deste polo e afastado do polo doença. Para a Salmonella deve ser exatamente o contrário. A febre tifo em si não é nem boa nem má, ela é o que ela é, porém pode ser algo bom ou algo mal dependendo da posição do ser que se situar diante dela.

Representemos na linha de posição de consciência, um ponto intermediário.

MAL ________________________________________ BEM

___©______________©__________________©_

A B C

fig. 6

Situemos em A um grupo de pessoas equilibradas, dignas e respeitáveis, na posição B, um grupo um tanto desonesto, com falhas de caráter e, na posição C situemos apenas malfeito­res.

Alguém que não aceitasse os princípios dos malfeitores, mas estivesse situado no ponto C desejaria estar no ponto B, pelo menos acharia aquele ponto muito bom e relação ao C., com pessoas boas, etc., pois ela compararia com o seu grupo e veria que os situados no ponto B eram bem melhores. Já o mesmo indivíduo se estivesse situado no ponto A teria uma impressão péssima daquele mesmo grupo B. Veria todas as falhas e acabaria por achar ambos os grupos, B e C, maus.

Substituamos as palavras MAL e BEM por SATANÁS e DEUS e torna-se fácil compreender a relatividade.

Segundo os adeptos da primeira proposição, satã como um ser objetivo, onde quer que ele esteja, ali estaria o mal. Mas para os admitem ser satã uma condição subjetiva há perfeita concordância com os esquemas, não há dificuldade porque ele pode estar em qualquer ponto do bipolo e a condição mal ou bem vai depender da pessoa.

Vamos repetir uma referencia que já fizemos em outra palestra e que consta da literatura da sabedoria judaica, sobre um judeu denominado Jesus Sirácida, que viveu no segundo século a.C. e que escreveu com a finalidade de combater essa tendência dos homens pecadores no sentido de colocar toda a culpa sobre o diabo, sobre um ser fora de si: “Quando o tolo amaldiçoa seu adversário - satã - amaldiçoa sua própria alma”.. Em continuação depois ele dizia que todo homem é seu próprio satã, seu próprio adversário.

Também num dos livros de Enoch é colocado com firmeza a responsabilidade pelas coisas erradas sobre o homem individualmente: “ Nenhum pecado foi mandado sobre a terra, mas o homem, ele próprio, o criou”. Também vale citar Santo Agostinho insistia que “a vontade do homem é que provoca o mal, que este não vem de fora”.

Nos dias atuais dificilmente, a culpa pelos erros cometidos por um indivíduo dificilmente será colocado sobre um ser conhecido como o diabo.

O diabo, quer ele seja uma individualidade, ou não, de uma coisa não se pode ter dúvidas, a ação do mal só se manifesta através dos seres. Sem o homem haveria ação diabólica!? Como satanás se manifesta sem o homem? - Neste caso ou satanás se manifesta através do homem, portando sendo este um elo do próprio satanás, ou ele é a própria polaridade em manifestação.

De um modo geral, os psicólogos da atualidade afirmam que muitas das coisas que consideramos como manifestações do mal surgem de tendências do próprio subconsciente coletivo, portanto é isso aquilo que chamam de diabo.

Mas, mesmo que o mal encontrado dentro da humanidade tenha sido personificado como o diabo, ou ainda, que de fato possa existir um inimigo mau que convence dos homens a chegarem aos pensamentos e emoções negativas, a verdade é que cada pessoa tem a capacidade, apesar de estar algumas vezes cercada por obstáculos formidáveis, de escolher sob qual influência deve deixar-se colocar. E, seja como for que aquelas forças do mal sejam descritas, elas só podem agir através dos seres humanos individuais. Como diz Joan O’Graddy : “Independente da maneira como posamos pensar a respeito do diabo, ele só pode ser concebido em relação à humanidade. Não faz sento algum falar da possibilidade de o diabo tentar uma vaca ou um crocodilo”.

Mas, isto só ocorre porque os seres humanos detêm o poder de escolha eles têm o livre arbítrio para escolher sob qual influência prefere colocarem-se, ao passo que os animais não podem., portanto o campo de batalha encontra-se apenas dentro do coração de da mente do homem. Mas, dessa idéia surge sempre a indagação crucial, é o diabo apenas um produto da mente e do coração do homem, ou trata-se de uma forma existência independente, algo que existe por si mesmo?

Mas, como é comum acontecer em todas as polêmicas, há também os partidários de uma condição interessaria, aquilo que se chama diabo atende às duas condições, um ser e um estado. Grandes pensadores de diferentes culturas e religiões já escreveram a respeito do diabo como se ele existisse tanto em forma de metáfora, de algo subjetivo, quanto a de um ser dotado de existência objetiva. Assim é que Clemente de Alexandria, no segundo século, escreveu que o diabo existe tanto dentro da mente humana quanto fora dela. Não sabemos o que é objetivamente a pessoa de satã, o que ele é e o que ele não é., mas, conforme dizia Clemente, podemos e devemos saber da maneira como ele parece agir na mente das pessoas. Temos condição de saber que os pensamentos maus, sejam eles o próprio satanás, ou seja algo causado por um ser chamado satanás, originam-se num principio mau, que afasta a pessoa de toda a bondade ( cf. J.B. Russelll . Satã, The devil and the Church fathers).

A idéia da subjetividade do agente do mal também se faz presente em muitas culturas e religiões. No Islamismo, por exemplo, o lado exotérico fala de um ser objetivo, denominado Eblis. Mas o aspecto esotérico dessa religião faz crer também na natureza subjetiva daquele ser, conforme podemos consta­tar pelos escritos do teólogo místico da religião muçulmana Al Ghazali, deixou escrito: Como as mentes humanas são limitadas Deus ter-se-ia visto obrigado a falar a eles por meio de metáforas, e isto foi feito no Corão, que, caso contrário, muitos não teriam condições de entender certos ensinos. Assim, no Corão Deus teria usado Satanás como metáfora, apesar de nós podermos também compreender a obra dele por meio de nossa própria experiência.

No Corão encontra-se a história de como satanás se recusou a curvar-se diante da figura recém-criada de Adão, mesmo que tivesse recebido ordem de Deus para fazer isso Isto também pode ser entendido como uma metáfora representativa do orgulho e da recusa de nossas paixões em se curvarem diante da razão. Segundo Al Ghazali, isto não significa que satanás seria de fato apenas uma metáfora. A “personalidade” que lhe damos talvez nada tenha haver com aquilo que está na mente de Deus. De modo que, seja qual for o sentido que seja dado à concepção do diabo, Al Ghazali considera bastante perigoso para tratá-lo apenas como metáfora. Seja como metáfora para explicar uma força cósmica no universo, ou para nossa próprias inclinações para o mal, esse conhecimento ainda encontra-se fora do nosso alcance ( J.B. Rusel, Lucifer, The Devil in the Middle Ages ).

A religião islâmica foi muito influenciada, tanto pelo Velho como pelo Novo Testamento, na decisão que faz a respeito do diabo. O Corão conta como Eblis, tendo sido expulso do céu, por causa de seu orgulho e sua desobediência, pediu prazo para tentar os homens até o dia da ressurreição.

Ilustração do documento original

Notas

  1. Trata-se da Terceira Tentação da Senda - Vide tema 429 ↑

  2. Pode-se notar que Jesus estava falando do demônio, mas o primeiro homicida foi Caím, logo pode-se entender que este foi um ser demoníaco encarnado na terra, aliás o primeiro. ↑

  3. Recomendamos que seja relido a palestra “O enigma do Mal e do Bem” ( tema 105 ) em que mostramos que essas duas condições são totalmente relativas. ↑