Emoção e Percepção Virtual
“Uma parte dos homens age sem pensar, e a outra pensa sem agir”.
Hugo Froscolo



Na verdade não é muito fácil a pessoa entender o que é viver sem se envolver, sem ter sentimentos passionais, sem ter apegos, sem ter emoções. Aparentemente parece impossível se ter percepção sem que se tenha algum tipo de emoção.
Para facilitar o entendimento do que significa percepção e sentimento vamos usar uma analogia bem simples. Pensemos numa sala com uma televisão, com pessoas, e com algum animal doméstico e que na televisão está passando uma novela. É muito provável que a pessoa esteja percebendo as imagens, e mentalmente acompanhando o desenrolar do drama encenado. Ela então se interessa pelas situações, pela história com a qual envolve-se emocionalmente, assim critica atores, deduz cenas futuras, e, dependendo do grau de identificação, chega até a se irritar, chorar, e apresentar uma série enorme de emoções. A novela desperta na pessoa uma série de emoções, mas o mesmo não acontece com o animal. Ele também está vendo as cenas, também está escutando, mas tudo aquilo nada significa para ele, pelo que ele não demonstra qualquer tipo de sentimento, não se envolve emocionalmente com coisa alguma que componha a novela. Embora veja e escute tal como o fazem as pessoas ele não apresenta emoção e nem sentimento com relação. As pessoas desenvolvem reações emocionais o que não acontece com o animal, neste a novela não desperta sentimentos em nenhum sentido.
No exemplo, as pessoas se envolvem, enquanto que os animais não, embora tanto estes, quanto aqueles, estejam percebendo a mesma coisa, a diferença diz respeito às associações mentais, enquanto uns fazem associações e desenvolvem sentimentos os outros não o fazem. As pessoas, mesmo sabendo que a novela é uma fantasia, uma ilusão, ainda assim se envolvem em menor ou em maior grau, podendo chegar a um nível tal que podem agir em consonância com os sentimentos que surgem; podem se zangar, chorar, ficar alegres ou tristes, alterarem o próprio padrão de comportamento do dia a dia. Vejam o quanto uma mera ilusão pode assumir status de realidade, enquanto que, por outro lado, nada disto acontece com o animal que também vê as mesmas cenas. Estas nada significam para eles, por isto podemos dizer que a novela para o animal é como um simples “é”.
No exemplo podemos dizer que os animais não têm sentimento em relação à maioria das coisas que despertam sentimentos nos seres humanos. Este exemplo serve para ilustrar o que representa o “Eterno Agora”, tudo está lá, mas não desperta qualquer sentimento.
O sentir já existe na transcendência, mas não sob a forma de sentimentos. Desde o momento em que a consciência se faz sentir num determinado aspecto do “é” então está configurada uma estória, e assim aquilo que antes eram somente imagens passa a ter uma existência em nível de tempo linear. O que antes era um amontoado de figuras, assume um padrão de ordenação formando uma estória.
A consciência ao se limitar diante do “é” assemelha-se ao que acontece num programa de “realidade virtual”. A cibernética está chegando a um nível de desenvolvimento tal que pode gerar emoções a partir de uma irrealidade. Por exemplo, uma pessoa acessa um jogo de tênis e com um capacete especial ele vê a imagem da bola que é aparentemente atirada contra si. Isto desencadeia uma reação reflexa que faz com que ela se movimente se defendendo da bola direcionada contra si. Mesmo que a bola que “vai” em sua direção seja simplesmente uma fantasia ainda assim a pessoa reage como se ela fosse real. Esse tipo de efeito já existe em inúmeros jogos atuais de realidade virtual. Mas isso ainda é algo muito limitado, o reflexo é desencadeado apenas pelo órgão da visão e da audição. Se houvesse eletrodos ligando o computador às terminações nervosas relacionadas ao tato, então a pessoa não só veria a imagem da bola, mas sofreria o impacto causado por ela e, dependendo do local e da intensidade, da terminação nervosa atingida, a pessoa poderia sofrer inúmeros efeitos, até mesmo efeitos letais desde que a ligação fosse estabelecida com uma terminação nervosa capaz de paralisar, por exemplo, o coração, ou danificar uma artéria, etc.
Pela descrição sucinta que fizemos sobre um efeito de realidade virtual, vemos como uma ilusão subjetiva pode agir como uma coisa objetiva, como algo concreto. Nos programas de realidade virtual do futuro haverão muitos eletrodos especialmente colocados para ocasionar os mais diversos tipos de sensações. Serão usados eletrodos em número necessário para atender em diversos graus todos os sentidos físicos. Isto pode chegar a um ponto tal que num jogo virtual de boxe, por exemplo, o jogador si for nocauteado ele sai realmente machucado. Uma vez dentro do programa a pessoa não tem como não reagir, o único jeito é desligar o programa. Mesmo que saiba que aquilo é uma fantasia, que não existe como uma realidade física, ainda assim o efeito da fantasia - programa - sobre a pessoa pode ser devastador. Num jogo de boxe ou o participante luta ou apanha e se machuca, a não ser que se liberte do programa, ou seja, que se liberte deles, que o desligue.
Analisando-se os efeitos causados por um programa de realidade virtual, torna-se fácil entender como esse mundo pode ser uma ilusão e ao mesmo tempo algo concreto para que está nele. O participante de um programa de realidade virtual sabe perfeitamente que aquilo é um programa, mas mesmo assim ele reage como se fosse uma realidade. Em futuro bem próximo os programas serão de tal intensidade que não há como a pessoa admitir que tudo nele não seja real . Não tem como aceitar que algo que pode provocar dor, sensações físicas, e até mesmo lesões, possa ser uma ilusão. O programador monta uma estória, o computador gera as mensagens sensoriais, por exemplo, de um jogo, de uma luta, embora nada seja de concreto, sejam apenas imagens geradas pela máquina, mesmo assim podem ser recebidas pela pessoa como um efeito físico. Hoje, num jogo virtual, mesmo que ainda em estágio de desenvolvimento inicial, portanto um processo ainda muito precário, ainda assim a pessoa se movimenta para não ser atingida pela bola que vem em sua direção, ou o soco do rival. Consideremos que nos jogos atuais apenas se faz presente a sensação visual, mas no futuro haverá também sensação tátil, conseqüentemente sensação dolorosa e tantas outras. Quanto for assim então o impacto que na verdade é causado por um eletrodo pode provocar dor e mesmo lesões. Em futuro próximo um tiro virtual, um projétil virtual pode ocasionar lesão e mesmo morte.[1]
Analise-se bem o que dissemos e isto facilitará bem o entendimento do Principio Hermético que diz que Tudo é Mente, o mundo é mental.
Vemos que com um exemplo simples e bem atual, se pode entender que este mundo que é tão concreto possa ser uma mera ilusão. Eis como não é muito difícil se entender o Principio Mental, como se pode admitir que uma fantasia, uma ilusão, possa se manifestar como algo objetivo, como algo concreto. Podemos ver como, embora esse mundo seja ilusão da mente, algo subjetivo, pode se apresentar deveras real para nós, como algo muito objetivo. O programa que constitui o Mundo Imanente é uma “programa” muito amplo, vasto, e suficientemente completo para causar danos, provocar catástrofes e tudo o mais que constitui o mundo imanente.
Até agora falamos de efeitos físicos, mas o mesmo pode ser aplicado aos efeitos emocionais. Uma realidade virtual pode causar tremendos choques emocionais. Quando uma simples novela, em que somente estão presentes som e a imagem, sem envolvimento dos demais sentidos físicos - paladar, tato, e olfato - mesmo assim com uma imagem em tela plana que não passa de simples gravura, portanto algo muito precário pode causar tantos impactos emocionais, o que dizer de uma imagem tridimensional asseada a todas as variações de sensações táteis, gustativas e odoríficas?
O mundo é para nós aquilo que os sentidos registram, tanto mais detalhado quanto mais detalhados forem as fontes de percepções – os sentidos físicos. O mundo objetivo é fruto das percepções.
Tão logo a cibernética chegue ao nível de interagir com todos os sentidos, de forma bem detalhada, a pessoa não tem como sentir objetivamente que o programa não é real, mesmo que ela sabia, que esteja convicta de se tratar de uma ilusão, de algo que mesmo sendo mera ilusão ainda assim pode causar efeitos físicos dos mais diversos tipos.
O Mundo Imanente nada mais é do que uma imagem virtual do Mundo Transcendente, uma imagem mental de algo “visto” na “tela” do “Eterno Agora”.
A expressão de consciência que vivencia o Mundo Imanente não tem como se livrar do desenrolar do “jogo” a não ser que se liberte dele. Pouco vale procurar uma posição mais confortável, um nível de “acomodação” pois enquanto continuar dentro do programa, a pessoa mais tarde ou mais cedo tem que continuar interagindo com este. Para se libertar ela só tem um caminho, sair do programa, e isto é exatamente o que consiste a Libertação do Ser.

Notas
Esse caudal de conhecimentos já vem sendo bem explorado pelo cinema. Matrix é um desses filmes que mostra exatamente isto, uma realidade virtual por ser uma realidade física. ↑