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Primeira Câmara
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A Importância da Realidade

Tema 0.059 · Temas Complementares · 1 648 palavras · cerca de 11 min

"A razão serve muito mais para justificar o procedimento do que para dirigi-lo "

Gustave Le Bon

JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO, Frc.

Ilustração do documento original

Normalmente todas as pessoas vivem exigindo a realidade das coisas e dizendo que não desejam ser enganadas, mas, por mais que tentem isso, elas sempre acabam sendo de alguma forma iludidas porque em verdade a realidade absoluta é uma quimera para o ser humano, algo impossível de se ter até que o espírito se torne puro e se una com o Poder Cósmico, podendo então ter uma percepção abrangente que lhe permita perceber as coisas como na realidade elas são. Para um ser limitado isso é praticamente impossível, como vimos em palestras anteriores. Assim sendo o “real” para nós acaba sendo apenas aquilo que se aceita pela aparência, ou que é habitual.

Nesta palestra desenvolveremos alguns pensamentos a respeito de um problema muito importante. Importante porque se trata de algo essencialmente fundamental para o ser humano, mesmo que faltem comprovações exigidas pelas pessoas que primam pelo fundamentalmente racional.

O ser humano vive num mundo material onde a mente objetiva tem uma importância tal que passa a existir um bloqueio quase que absoluto das percepções extra-sensoriais, que dificultam a intuição, mas de uma maneira muito sutil contínua existindo algo que lentamente conduz o ser humano para a busca místico-religiosa.

Mas, no campo místico religioso os dois são de difícil comprovação, pouca coisa pode ser objetivamente comprovado, conseqüentemente as verdades inerentes aquele campo são muito freqüentemente tidas como irrealidades por aqueles que supervalorizam o mundo sensorial, objetivo, que já demonstramos ser altamente irreal quando encarado de uma forma absoluta. Aquele sentimento em cada ser humano, acrescido das influências psicológicas da família e da comunidade, inclinam o indivíduo para a aceitação de alguma forma de religião.

Na infância a aceitação de uma religião é fácil porque o intelecto objetivo é menos envolvente e menos dominante do que o do adulto. Na criança o intelecto subjetivo está mais livre e como tal menos preso à razão convencional, enquanto no adulto já prevalecem as conscientizações objetivas. Desta forma é que na mente do adulto ocorre a criação de um universo repleto de situações que, embora ele as considere reais, em verdade é tão somente a aceitação de um padrão puramente convencional desde que o real é aquilo que se aceita pelas aparências, ou que se está condicionado pelo hábito.

No indivíduo a mente se apresenta sob dois aspectos, um objetivo e outro subjetivo. Esses dois aspectos estão em constante conflito, um sempre procurando sufocar o outro e sendo a objetiva a mais dominante. O homem é um ser dual no que diz respeito à mente e é preciso que ele saiba disto do contrário quando se faz sentir os saltos da mente subjetiva, ele então terá vivências que por fugirem à razão comum podem gerar sérios conflitos interiores.

Normalmente o adulto constrói para si um mundo no qual deposita toda a sua confiança. Mesmo que aquele mundo seja extremamente enganador ele nunca percebe isto, e o que é pior é que ele utiliza os valores deste mundo convencional como unidades de aferição para quaisquer coisas novas com que se defronte. A pessoa sempre tende a medir tudo segundo aqueles valores porque a sua razão se baseia num modelo de realidades que aceitou como verdadeiro. Construído aquele modelo de realidade que é tomado como certo o indivíduo, daí para diante algo só é tido como real se puder ser aferido com ele. Então a pessoa procura encontrar uma realidade a partir de um sistema ilusório, estabelecer uma escala tendo como base um sistema padrão inexato.

O adulto, sob o ponto de vista místico-religioso, pode tomar três caminhos fundamentais:

PRIMEIRO: Aceitar a religião sem discuti-la, sem pensar e sem julgar. Neste grupo estão as pessoas que seguem uma religião sem jamais se preocupar em evidenciar a realidade daquilo que lhe é ensinado. Segue pela obediência e pela devoção. (Caminho do Monge.).

SEGUNDO: Aceitar a religião, mas criando no seu mundo interior toda uma infra -estrutura que justifique aquilo tudo que lhe é dito. Criam um mundo próprio de valores e de realidades pessoais. Neste grupo estão aqueles que aceitam as coisas transcendentais, mas baseando tudo num poder diferente, admitindo coisas que são contrárias às leis naturais. Neste caso, às vezes trata-se de pessoas honestas, bondosas e magnânimas, porém que podem se tornar desonestas e cheias de fantasias, dependendo para isto daquilo que elas construíram em suas mentes, daquilo que estabeleceram inconscientemente para justificar tudo em nome das religiões que abraçaram.

TERCEIRO: Não aceitar, ou aceitar uma religião apenas por convenção, ou por algum tipo de interesse pessoal. Dizem que aceitam, mas no fundo não é isto realmente o que elas fazem.

Vamos analisar agora a "não aceitação" de uma religião. Geralmente as pessoas negam as religiões e procuram eliminar de si todo e qualquer sentimento místico. Muitas vezes isto acontece porque lhe é imposto como dogma coisas incompatíveis com o seu mundo interior, informações incompatíveis com o sistema que aquela pessoa aceita como real. Outras vezes resulta de haverem querido introduzir idéias absurdas recusáveis pela razão. Estes são os principais motivos pelos quais muitas pessoas afeitas à lógica científica vêem a cada dia negando as idéias religiosas a tal ponto que chegam a dizer “DEUS ESTÁ MORTO”.

Mas também existem pessoas que exigem comprovação de tudo visando uma excessiva racionalidade. A estas indagamos: Para que tanto comprovação? Para que medir tanto se sempre acabamos por usar uma escala que não é verdadeira? Mesmo a melhor comprovação possível ainda tem um coeficiente muito alto de improbabilidades desde que as aferições sempre são feitas com algo baseado em valores irreais. São aferições segundo padrões tirados de um mundo aceito como verdadeiro, mas que não passa de algo mutável e estabelecido segundo a forma peculiar de conscientização de cada um.

O mundo “verdadeiro” de uma pessoa repete, é uma questão de aceitação, porque em termos de absoluto ele é tão somente uma grande ilusão. Portanto querer procurar descobrir uma realidade usando-se escala de valores criada a partir de coisas irreais é absurdo. Muitas pessoas dizem que não podem aceitar um princípio transcendental porque as coisas transcendentais talvez sejam apenas ilusões. São pessoas que se questionam assim: Tal idéia religiosa parece boa, mas como terei a certeza de que ela é verdadeira? - Tais filosofias místicas parecem válidas, mas será verdade aquilo que elas afirmam e detectam? Será que realmente temos uma alma. E assim se sucedem as indagações. Ora, se vivemos num mundo irreal onde nada é exatamente como pensamos que seja, em que qualquer tipo de comprovação tende somente para padrões que apenas são estabelecidos como verdadeiros segundo convenções pessoais, por qual razão devemos exigir exatidão e certeza nas coisas transcendentais? Vivemos num mundo que julgamos ser real, mas isto é apenas uma aparência em decorrência dos padrões de nossas percepções. Por qual razão, então, vamos exigir a verdade, a realidade absoluta no campo transcendental? Se nos satisfazemos perfeitamente com aquela enganosa estrutura material que chamamos mundo, se a aceitamos como coisa real e estável, mesmo que sejam as mais instáveis das coisas, então porque a necessidade da verdade absoluta no campo religioso? Se o mundo material, mesmo sendo em sua quase totalidade uma aparência de realidade, nos serve plenamente desde que ignoremos o seu caráter ilusório, por que não aceitar os mundos místicos, espirituais, unicamente por não haver uma certeza absoluta dele?

Evidentemente ninguém pode ter certeza absoluta de algo no campo místico, mas o que importa isto se também o mundo objetivo é algo irreal e mesmo assim o aceitamos plenamente? Se o que nos importa no mundo material é a realidade que não existe, de idêntico modo devemos aceitar o mundo espiritual mesmo que não se possam provar a sua existência real.

Se as percepções sensoriais objetivas atendem perfeitamente às nossas necessidades psíquicas, não importando serem ou não falhas e limitadas, por que então não admitirmos também as percepções subjetivas mesmo que possam se apresentar com um certo coeficiente de falhas e limitações? Ora, sabemos que mesmo assim elas podem ser muito mais perfeitas do que as objetivas desde que a pessoa conheça e cumpra certas regras.

Construímos um mundo objetivo baseado naquilo que conscientizamos e nele a realidade que importa é aquela de cada um. Não importa que a realidade de alguém seja diferente da de outrem. Assim também deve ser construído o nosso mundo subjetivo e nele termos as nossas realidades pessoais.

Não nos deve preocupar de tal ou se qual princípio religioso é certo, pois certamente nenhum deles o é de uma forma absoluta, mas se o nosso mundo objetivo também não o é, qual a diferença, então?

Para que no mundo objetivo nos sintamos realizados é preciso unicamente que as nossos necessidades materiais e psicológicas sejam atendidas, assim também deve ser no tocante às situações místico-religiosas.

Se não se sente qualquer inclinação ou necessidade de um sistema religioso na vida, tudo bem, deixe-se isto de lado e assim evitem-se os conflitos. Contudo, se houver aquele chamado interior procure-se então o seio de uma religião ou de um sistema místico válido. Escolha-se aquele que melhor atenda às necessidades pessoais, porém assim procedendo procure-se jamais por em dúvidas o sistema que foi escolhido, porque se assim se proceder continua-se em conflito duvidando de tudo e marchando num mesmo ponto sem se adiantar na estrada que leva à libertação.

O certo na vida é o nivelamento pela dúvida, pela incerteza. Se tudo é dúbio e incerto no mundo objetivo, e mesmo assim ele satisfaz a cada pessoa, igualmente tudo no mundo subjetivo místico-religioso, mesmo sendo também dúbio, desde que ele venha a satisfazer a pessoa, deve por isto ser aceito.

A certeza é sempre uma convenção e qualquer que seja a convenção é a mente objetiva quem a estabelece.

Para concluir indaguemos: PARA QUE A REALIDADE SE DELA NUNCA DEPENDEMOS?

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