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A Identificação

Tema 0.671 · Temas Básicos · 1 649 palavras · cerca de 11 min

“ O nada é um infinito que nos envolve. Dele vimos, para ele vamos; O nada é o impossível e o certo; Não se concebe e, no entanto, existe”.

Anatole France.

Ilustração do documento original

Na palestra 0.355 falamos da identificação e dissemos que o não estar acordado leva a pessoa facilmente a se identificar com algo que esteja percebendo e que a identificação via de regra é causa do apego. Nesta palestra ampliaremos esse conhecimento por julgarmos muito importante na vida da pessoa.

Ilustração do documento original

Fig. 1

A fig. 1 mostra diferentes níveis de identificação. Quando uma pessoa percebe algo, se ela não estiver “acordada”, isto é, se não estiver ciente de si, por certo se identificará com aquilo que percebe sensorialmente. Os sentidos físicos levam a pessoa que não estiver consciente de si à identificação. Contudo, se a pessoa estiver “acordada”, consciente de si, ela apenas observa.

Quando ocorre uma percepção algumas condições podem se manifestar. Vamos colocá-las na Árvore da Vida afim de que se torne bem fácil o entendimento. A percepção ocupa o sephirah Hokhmah. Pelo Mito de Sophia vê-se que foi onde ela tomou ciência de si, e do Pai (Kether). Deslumbrou-se com a visão mas foi buscá-lo no sentido oposto.[1]

Kether corresponde, portanto, a um estado de êxtase. A percepção pode levar a diversos estados, e um deles é o deslumbramento, ou seja, a pessoa torna-se maravilhada com aquilo que percebe. Mas, se não estiver “acordada”, ela estará sujeita a ser influenciada pela percepção. Se não fizer uso do discernimento, com relativa facilidade, poderá chegar ser atingida pelo apego àquilo que estiver percebendo.

Quando se manifesta o deslumbramento se a pessoa não tiver condição de ascender ao êxtase inevitavelmente começara a ser influenciada por aquilo que esteja percebendo. No Mito de Sophia vimos que ela estando ao nível de Hokhmah quis conhecer o Pai ( Kether ) mas tomou uma direção oposta. Ela em vez de se extasiar apenas deslumbrou-se e desceu para o “oceano dos espelhos”.

Idêntica situação acontece com todo aquele que em vez de penetrar no êxtase se se deslumbra, e se não tiver condição de reverter o processo, de fazer o giro ao nível do triângulo superior, então só lhe resta a descida que, primeiramente, vai se manifestar como uma influencia; ela vai sofrer a influência daquilo que percebe. Alguém influenciado está a um passo de se apegar, de tornar-se vítima desta condição, sujeito a vivenciar um estado basicamente indesejável, conforme estudamos na palestra 355.

O apego leva ao fascínio, algo que corresponde a um fanatismo; e então, se não tiver certo grau de firmeza estará sujeita a perder grande parte do livre arbítrio. Em vez de decidir por si passa a obedecer às decisões que não são suas, tornando-se dominada.

A influência quando se aprofunda pode levar a pessoa a ser dominada por aquilo que percebe, então já existe possibilidade de graves conseqüências. O domínio é um nível muito mais profundo que a influencia.

Nessa queda a pessoa acaba por perder a capacidade de discernimento, passando, então, a comportar-se com um alienado.

Por outro lado, se a pessoa estiver “acordada” – ciente de si – então ela porta-se como observadora, não deixando em nenhum momento de ser ela mesma, consequentemente não será fácil ser atingida pelo apego, como também ser influenciada, e menos ainda dominada, sendo assim, sem condições de comportar-se como um alienado ante aquilo que perceber.

Quantos problemas decorrem na vida de uma pessoa por haver ela se identificado com idéias alheias e conseqüentemente sido influenciada pelo autor da idéia!

Na palestra 355 dissemos que a história da humanidade está repleta de casos assim. Nações civilizadas já foram influenciadas, e mesmo dominadas; populações inteiras foram dominadas por títeres graças ao domínio que eles conseguiram exercer sobre o povo. Coisas assim só aconteceram porque o povo estava dormindo e isso é verdade. Dizem que a massa é cega, preferimos dizer que a massa vive sempre adormecida e por isso facilmente influenciada..

O domínio pode levar a pessoa a um estado de alienação. Nesse nível até mesmo o bom senso desaparece e assim a pessoa torna-se um autômato. Quantos líderes já levaram pessoas ao suicídio! Muitas vezes lideres motivaram suicídios em massa. Nas guerras, por exemplo, são muitas as missões suicidas; missões que a pessoa cumpre de uma forma automática. Isto acontece só acontece em decorrência do estado de alienação que a identificação é capaz de determinar.

A pessoa desperta não cai naquela condição estampada num dito popular que diz “ Maria vai com as outras”. Consciente de si ela tem condições de sentir se aquilo que percebe, que lhe é dito ou mostrado, é válido, se vale ou não vale à pena se envolver de alguma forma.

Vale salientar que uma pessoa não pode ser dominada sem que haja identificação; portanto domínio algum pode ocorrer se ela estiver consciente de si.

Na condição de consciência desperta não há identificação, a pessoa sabe quem ela é, não perde em nenhum momento a sua identidade, compreende que aquilo que vê, ou escuta, não faz parte de si. Corresponde exatamente àquela condição que os orientais denominam de Samadi, que se apresenta sob nove formas distintas.

Pela Árvore da Vida podemos perceber que essa condição mental atende perfeitamente a condição de Tipheret. ( vide fig. 2). Tipheret é um sephirah que estar interligados com todos os demais contudo não exatamente unificado.

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Assim sendo, a pessoa vivenciando esse nível de consciência, percebe todos os demais, sente-se integrada mas não unificada ainda. Nesta condição ela não se envolve, não se identifica com os demais desde que tem conservado a sua própria individualidade. Detenta o discernimento, razão pela qual conscientemente pode tomar qualquer decisão sem que o faça de uma forma deformada. Pode participar, segundo o seu querer pode agir ou não diante de qualquer circunstância. Tem discernimento para participar com consciência suficientemente clara e não de uma forma instintiva, automática, levada simplesmente por identificação de nível inferior como acontece na posição Yesod. [2]

Pelo que explicamos vemos que em Tipheret cabe perfeitamente localizar a condição de É possível consciência conhecida nas doutrinas orientais ( e Teosofia ) pelo nome de Samadi (Samâdhi ). É possível que haja discordância mas queremos lembrar que há um nível em que o samâdhi a pessoa sente-se apenas parte integrante do mundo que o cerca mas não ainda com a consciência unificada, como se não mais houvesse individualidade alguma.

A palavra Samâdhi deriva das palavras sam-âdha que quer dizer “posse de si mesmo”. Nesta condição a pessoa possui domínio absoluto sobre si mesmo, sobre todas as suas faculdades, tanto físicas quanto mentais. A concentração mental chega a um ponto tão extremo, que a mente unifica-se com o objeto em que se encontra concentrado mas ainda assim conserva a sua própria individualidade, a pessoa não perde a consciência e si mesmo.

Estabelecem nove tipos de Samâdhi mas a maioria dos místicos prefere se referir apenas a dois deles, que são: Savikalpa ( sabîja ou samprajñâta Samâdhi ) e Nirvikalpa (nirbîja ou asamprajãta-Samâdhi). No primeiro a mente se encontra em repouso temporal, sem estar completamente absorvida, enquanto que no segundo, o mais elevado, a mente se encontra totalmente absorvida. Estando assim ela é “aniquilada”, a pessoa adquire a omnisciência intuitiva num desprendimento total e supremo; perde a consciência de toda individualidade, inclusive a sua própria, e assim converte-se no Todo.

No Samprajñâta Samâdhi pode-se dizer que a pessoa está no Castelo da Ciência, pois ela tem ciência de tudo que a cerca, conservando o discernimento próprio; vendo todos os pontos circundantes mas não se fundir ainda num Todo.

Quando ao Êxtase aparentemente poder-se-ía pensar ser algo idêntico ao Samâdhi, contudo no êxtase não existe a fusão entre o observador e o objeto, há sim uma identificação muito intensa apenas.

No Samadhi a consciência está intimamente ligada ao objeto enquanto que no êxtase ela está como que ensimesmada, está absorta no sentido positivo, num nível superior ao próprio deslumbramento, mas mesmo assim o observador e a coisa continuam separadas.

O êxtase é um estado oposto ao da alienação, porém existe uma grande diferença entre ambos pois no êxtase a pessoa não é capaz de praticar atos negativos como acontece na alienação sim.

O Samâdhi é uma condição bem diferente de uma outra e que corresponde a Yesod. Nesta, a pessoa imagina saber, até mesmo chega a saber parcialmente, pensa conhecer tudo de alguma coisa particular, por isto ilude-se, apenas está mergulhada no Mundo de Maya ( Mundo da Ilusão ) que corresponde, na Árvore da Vida, a Yesod. Sabe-se que Yesod representa uma imagem limitada e deformada da verdade. Sendo assim a pessoa na realidade está num Castelo de Ilusão, ponto em que a realidade está deformada, em que a percepção parcial leva a pessoa a acreditar que aquilo que vê, segundo suas limitadíssimas percepções, é a realidade plena. ( Vide o tema “A Egopersonalidade” ).

Para concluir vamos considerar o Nirvikalpa (nirbîja ou asamprajãta-Samâdhi. No mais elevado estado de consciência a pessoa chega a perder a sua individualidade, funde-se com todo o universo, vivencia o estado de Consciência Cósmica. O Universo, representado pela Árvore da Vida os sephirot deixam de existirem manifestos. Na “Árvore” resta apenas Daat , pois, este sephirah, como já vimos em outras palestras, embora se reflita na “Árvore” ela está fora dela. É manifestação da Consciência do Poder Superior. Por esta razão a mente que se unifica com toda a criação ocupa a posição de Daat. Este estado de consciência os orientais dão o nome de Asamprajãta-Samâdhi e no ocidente pode ser chamada de Incantu da Natureza Divina.

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Notas

  1. Quando em temas futuros estudarmos o mito gnóstico intitulado “ O Mito de Sophia” essa colocação tornar-se-á compreensível e bem clara. ↑

  2. Afim de que se tenha um bom entendimento do que estamos explicando recomendamos que sejam relidos os temas 014 e 015, em que tratamos da egopersonalidade e da personalidade essencial. ↑