A Auto-Identificação
“O nada é um infinito que nos envolve. Dele vimos , para ele vamos; O nada é o impossível e o certo; Não se concebe e, no entanto, existe”. 1 9 9 5
Anatole France.


Valem ser examinadas as condições inerentes ao quarto nível de consciência em que comumente se vive na terra. Como estudamos na palestra anterior este nível ainda está distante da consciência clara, ou seja, da consciência cósmica. Nesta palestra vamos mostrar algumas condições inerentes ao nível de vigília, ou seja ao 4 nível de consciência.
A humanidade já atingiu um nível de desenvolvimento que condiciona o quarto nível de consciência.
Inicialmente vejamos sucintamente a grande diferença existente entre a consciência como se apresenta no animal e no homem. O animal jamais indaga sobre si mesmo, na mente a nível animal jamais surge a indagação “Quem sou ”. Ele age por instinto e não pela razão. Fisiologicamente o animal acordado age como uma pessoa em sono fisiológico. O organismo faz tudo o que é preciso para sua existência; ele apresenta um grande número de atividades mas suas ações são instintivas, portanto, de certa, forma automáticas. Uma pessoa dormindo mexe-se, até movimenta-se em busca de uma posição mais confortável, às vezes até se defende de um inseto etc. sem falar numa miríade de processos fisiológicos que nela ocorrem sem contudo envolver uma tomada de consciência. O animal é assim, é como uma pessoa durante o sono, ele mesmo estando no estado de vigília mesmo assim o seu nível de consciência é o equivalente ao de uma pessoa dormindo.
No nível humano já ocorre, mesmo que esporadicamente, a condição de percepção consciente de si mesmo. Embora na maior parte do tempo a pessoa não esteja consciente de si mesmo assim quando algo sai da rotina ele toma consciência de si. Isto não acontece com o animal. Se uma situação incômoda se apresenta o ser humano tem consciência de si, pensa assim eu estou sofrendo, porque está acontecendo isto comigo. Durante o sono, isso é, fora do estado de vigília, a pessoa reage a um pequeno desconforto mas não se indaga o porquê daquilo. É o que acontece com o animal mesmo estando em estado de vigília, ele reage mas não se indaga.
No estado de vigília uma pessoa com uma dor, por exemplo, toma ciência de si e pensa: eu estou com dor. O animal não, simplesmente ele age pelo instinto, faz alguma coisa mas sem ter esse tipo de consciência inerente ao homem.
Se um animal fica na chuva, se é deixado ao relento no frio ele procura se for possível instintivamente minorar a situação indo para um local mais abrigado, mas jamais ele pensa assim: estou sendo desprezado pelo meu dono, porque ele me deixou aqui, porque faz assim comigo, etc. Simplesmente ele aceita e se defende se puder, mas sem atribuir individualidade a si mesmo.
A consciência de si começa a se esboça no cachorro. Se o dono sai, ele quer sair junto, se o seu dono não o leva ele fica reclamando, uivando. Isto já não é uma reação instintiva apenas. Não é sair por sair, ele sai acompanhando o dono, reconhecendo nele, mesmo que primariamente, sua individualidade e da do seu dono.
No quarto nível o espírito encarnado na forma humana tem consciência de si em alguns momentos - o que não acontece com os animais - mas, ao mesmo tempo, ele predominantemente vive numa condição de adormecimento tal que apenas em momento especiais toma ciência de si como uma individualidade. Está fisiologicamente acordado mas não está individualizado. Basicamente está num estado de identificação com as coisas, como que fundido ao meio ambiente e sem auto-identidade. Essa auto-identidade só se manifesta ante determinados estímulos.
Se a pessoa olha um quadro, uma pintura , ele a analisa, examina e pode até apreciá-la, mas como se ele fosse parte do quadro, sem que sinta ser ele alguém vendo o quadro. Só muito raramente ela se sente como uma individualidade examinando algo. Normalmente não pensa assim: Eu estou vendo um quadro, fulano vendo um quadro. Na realidade ele percebe o quadro como se fizesse parte de si ou ela como fazendo parte do quadro. Muitas vezes ela vê por ver, Ver por ver, examina por examinar, pode ser detalhado e acurado nesse exame, pode até mesmo criticar ou elogiar, pode escrever sobre ele e, indo mais longe ainda, ela pode até mesmo pintar o quadro mas a consciência de si pintando o quadro quase nunca está presente.
Isto ainda é mais evidente na leitura de um livro. A pessoa integra-se ao enredo, funde-se com aquilo que está lendo sem sentir ser uma personalidade exterior, individualizada, lendo um livro. Em quase tudo a pessoa quase nunca se coloca na posição de observador. Estas situações ocorrem porque as pessoas normalmente vivem integradas, identificadas com o mundo, com aquilo que percebe sensorialmente.
A identificação pode levar a pessoa a situações negativas ou positivas. Via de regra, ela tem mais de negativo do que de positivo. A identificação faz com que a pessoa se envolva, deixe de ser ele próprio para ser algo coletivo, deixar de ter discernimento próprio. Quando se vê duas pessoas discutindo a tendência é se identificar com aquela situação e tomar partido. Raramente ela de conscientiza assim: Eu sou fulano assistindo à uma discussão. Pelo contrário, simplesmente se identifica i isto geralmente leva a um envolvimento. Como se identifica com facilidade se envolve.
Assim ocorrem as reações em cadeia. A humanidade vive à cada momento se envolvendo com uma gigantesca rede de situações em que muitas das pessoas envolvidas inicialmente nada tinham haver com o problema. Este é um dos mecanismo pelos quais muitas situações se estendem como um rastilho de pólvora. Um distúrbio está sujeito a se tornar mundial em decorrência da identificação.
As paixões e a maioria dos sentimentos negativos têm origem na identificação. Como tudo tem dois lados é evidente que a identificação também o tenha, mas como a negatividade do mundo é muito maior que a positividade isto leva à uma situação indesejável, via de regra.
Numa condição de consciência desperta não há identificação, a pessoa sabe quem ela é e compreende que aquilo que vê, ou escuta, não faz parte de si. Assim sendo não se envolve por tem o discernimento para conscientemente tomar a decisão de se integrar ou não a uma causa qualquer. Tem discernimento para participar com consciência e não de uma forma instintiva, automática, levada simplesmente por identificação de nível inferior.
Acordada, isto é com a consciência de si desperta o a pessoa tem o discernimento para agir de forma lógica e racional, diferente portanto de uma ação por identificação inconsciente.

Fig. 1
A fig. 1 mostra os níveis de identificado. Quando uma pessoa percebe se não estiver acordada, isto é, consciente de si, por certo se identifica com aquilo que percebe sensorialmente. Os sentidos físicos levam a pessoa que não estiver consciente de si à identificação. Se a pessoa estiver “acordada”, consciente de si, ela apenas observa. Pode haver uma observação na identificado porém é o grau mais leve de identificação.
Quando uma pessoa está identificada com algo facilmente pode passar a ter apego. O apego não é uma coisa boa. Às vezes tem pouca importância mas às vezes tem importância significativa. É o apego que leva a pessoa ao nível de possuir e ser possuído. Torna a pessoa escrava daquilo com que se identifica. Não somente o apego às coisas é prejudicial como até mesmo aos entes queridos. Deve-se gostar das pessoas, dos familiares mas não com apego. Muitas vezes o apego a um ente querido dificulta muito o desenvolvimento espiritual. Uma pessoa morre com o pensamento preso numa outra pelo apego que lhe tem e disso por certo advirão problemas na encarnação seguinte.
O apego muitas vezes prende o espírito no astral da terra fazendo com que ele atrase o seu desenvolvimento.
A seguir pode ocorre a pessoa ser influenciada por aquilo que percebe sensorialmente. A pessoa desperta não se deixa influenciar. Consciente de si ela opta através do discernimento se aquilo é ou não é válido, se vale ou não à pena se envolver de alguma forma.
O domínio é um nível mais intenso que a influencia. A influencia quando se aprofunda pode levar a pessoa a ser dominada por aquilo que percebe, então já existe possibilidade de graves conseqüências.
Vale salientar que uma pessoa não pode ser dominada sem que haja identificação; portanto domínio algum pode ocorrer se ela estiver consciente de si.
Quantos problemas decorem na vida de uma pessoa por haver ela se identificado com idéias alheias e consequentemente sido influenciada pelo autor da idéia!
A história da humanidade está repleta de casos assim. Nações civilizadas já foram influenciadas, e mesmo dominadas; populações inteiras foram dominadas por títeres graças ao domínio que eles conseguiram exercer sobre o povo. Coisas assim só aconteceram porque o povo estava dormindo. Dizem que a massa é cega, preferimos dizer que a massa vive sempre adormecida e por isso facilmente influenciada.
O domínio pode levar a pessoa a um estado de alienação. Nesse nível até mesmo o bom senso desaparece e assim a pessoa torna-se um autômato. Quantos lideres já levaram pessoas ao suicídio! Muitas vezes lideres motivaram suicídios em massa. Nas guerras, por exemplo, são muitas as missões suicidas; missões que a pessoa cumpre de uma forma automática. Isto acontece só acontece em decorrência do estado de alienação que a identificação é capaz de determinar.
Por esses exemplos vemos o quanto importante é a pessoa estar desperta, estar consciente de si, ante decisões e participação nas coisas importantes do dia a dia.
Uma pessoa pode se identificar e ficar deslumbrada. No deslumbramento a pessoa fica como que hipnotizada, não é capaz de agir. É um estado de passividade, por isso não se pode considerá-lo perigoso para os outros. Mas, se a pessoa permanecer em tal condição por muito tempo certamente isso não é bom porque ela está parada, sem nada fazer, sem aprender coisa alguma. O deslumbramento via de regra diz respeito à uma ligação com coisas belas, positivas. É portanto o oposto do fascínio.
O êxtase é um estado oposto à alienação, porém existe uma grande diferença entre ambos, pois no êxtase a pessoa não é capaz de praticar atos negativos como acontece na alienação sim.
*****************