A Criação Mental
" Existe no fundo da nossa alma uma luz divina que nos conduz com admirável acerto, quando não nos obstinamos em apagá-la."
Jaime Balmes


A Consciência no ser humano se apresenta sob duplo aspecto, em um deles ela é perfeita, pois é manifestação direta da Consciência Cósmica no mundo material através dos seres. Evidentemente a manifestação cósmica chega ao nível da matéria densa de uma forma acentuadamente limitada, mas perfeita. Ela manifesta-se ao nível do ser humano sob a forma de criações mentais; e ao nível de cada unidade biológica constitutiva do organismo, como instinto, ou seja, sob a forma de consciência de função; e sobre as estruturas inorgânicas sob a forma de leis naturais. Ela se manifesta na Creação sob inúmeras formas podendo sua atuação ser evidenciada desde as unidades biológicas extremamente simples até as mais complexas e vastas. Mesmo as formas biológicas mais simples executam funções jamais possíveis de serem realizadas pela função cerebral, isso acontece porque é através a Consciência Cósmica se manifesta no mundo inteiro com extrema precisão em tudo, desde as sínteses e transformações bioquímicas mais sutis até às percepções extremamente desenvolvidas.
Há coisas que os maiores cientistas do mundo vêm tentando fazer há séculos sem que tenham conseguido resultados até hoje, mas que uma simples bactéria realiza em poucas horas. Por exemplo: Os cientistas há mais de um século tentam sintetizar a antitoxina tetânica e até hoje não o conseguiram, enquanto isso uma célula pode fazê-lo em algumas horas. A síntese de um anticorpo para neutralizar um vírus, muitas vezes, a ciência, mesmo dispondo de cérebros de pesquisadores inteligentíssimos e de laboratórios altamente equipados e sofisticados, ainda assim não foi conseguido resultado como aqueles que as células o fazem facilmente.
Em uma estrutura microscópica espiralada existente dentro de uma célula – cromossomo – está contido um programa de informações tão amplo que nenhum computador pode nem sequer imitá-lo. Numa estrutura daquela está contido todo o programa para o desenvolvimento de um ser altamente complexo como o humano assim como todo o seu potencial evolutivo.
Seres, mesmo os unicelulares, têm uma consciência de função imensa que em vários sentidos supera tudo aquilo que o cérebro humano é capaz de fazer em determinada área. Uma célula não tem cérebro, mas mesmo assim ela, em muitos sentidos, atua bem mais eficientemente do que um cérebro complexo como o humano. Quando uma consciência celular faz algo que achamos errado na realidade é o nosso conceito de errado e certo é que é diferente. Mesmo uma coisa que achamos errada quando executada por um ser biologicamente elementar na realidade é algo que integra um princípio muito mais vasto que nem sequer podemos compreendê-lo e por isso é que a julgamos errada.
Aquela manifestação de Consciência não cerebral é uma ínfima manifestação da Consciência Cósmica. É ela quem faz com que seres minúsculos como os insetos detectem com antecedência uma tempestade, um terremoto, ou outras manifestações da natureza, e que o homem, mesmo dispondo de sofisticados aparelhos, nem de longe consegue fazê-lo.
Vejamos o grande enigma que é uma semente: A germinação de uma semente começa no seu interior num ponto inidentificável. Ela é um todo homogêneo não apresentando qualquer estrutura anatômica; diferente, portanto, de uma célula germinal animal que tem um núcleo diferenciado. Uma análise física feita até mesmo com os mais sofisticados instrumentos especializados é incapaz de estabelecer qualquer diferenciação primitiva numa semente. Existe, é verdade, o "olho", aquele ponto por onde eclode o broto, mas a germinação não se inicia lá. Ela se inicia no seio da massa da semente, inicia-se num ponto aparentemente aleatório. Não há na massa da semente pontos ricos ou pontos pobres em determinadas substâncias a que possa ser atribuída a função de “ponto primordial de germinação". A germinação é algo tão comum que nem sequer as pessoas param para pensar nisto que estamos dizendo. O que é, portanto, o primitivo ponto de germinação? Que forças atuam nele e não no restante da massa de um grão?
Conforme já estudamos que o “Sistema Sétuplo de Corpos Intermediários” limita de forma tremenda a manifestação da Consciência Cósmica ao nível de Malkut – matéria densa – portanto mesmo aquelas manifestações que a nós parecem fenomenais nada mais são do que uma tênue manifestação dessa consciência.
Todas as funções naturais das estruturas são controladas de forma absoluta pela Mente Cósmica. Vejamos o seguinte: Todas as funções biológicas mais refinadas e especializadas se processam num nível não cerebral. Todos os mecanismos de defesa, todas as funções orgânicas são comandadas pela Consciência Vital sem a participação fundamental do cérebro. Perguntamos então: Num organismo com centenas de milhares de funções quais delas envolvem o querer, ou seja, a manifestação da consciência em ação? De quais delas depende o comando voluntário? - Na realidade, de nenhuma.
Reportemo-nos à “Árvore da Vida”. O querer, atividade voluntária, é Hod que é um sephirah muito próximo de Malkut – corpo material – que é um apêndice deste. As mais elevadas qualidades do ser estão ligadas aos Sephirot superiores que não se ligam diretamente ao corpo físico. O cérebro é uma estrutura densa, material, que apenas funciona como sintonizador das emissões superiores através de um sistema de "estações rebaixadoras" de freqüências que são os corpos intermediários – CI. Como sintonizador, o cérebro é eficiente, mas de forma alguma ele é um gerador de consciência. No existir biológico o cérebro é praticamente um zero à esquerda se não vier o comando de uma fonte exterior.
Na “Árvore da Vida” o cérebro está situado no nível mais baixo e a sua ligação mais forte através do Raio da Criação é com Hod através de Yesod.O Raio Criador parte de Kether daí desce até chegar ao nível mais baixo que corresponde a Malkut.

Fig. 1 Fig. 2
Comentamos superficialmente sobre a Consciência Cósmica ao nível do organismo físico e procuramos deixar claro que todas as suas manifestações são perfeitas, podendo apenas ser limitada pelos corpos intermediários. O aspecto da consciência que queremos falar a respeito é aquele manifestado como se fosse um processo cerebral. Impropriamente vamos chamá-la de "consciência cerebral". O cérebro é uma estrutura elaborada de maneira a apresentar atividades da consciência, porém essa manifestação é extremamente precária quando é comparada com a Consciência Cósmica propriamente.
O cérebro existe, entre outras coisas, para comandar as funções da consciência no mundo da matéria densa. Ele é como que um escafandro no qual a Consciência se reveste para se manifestar como mundo material.
A consciência de nível cerebral é a manifestação mais grosseira dentre todas as formas de manifestação da Consciência Cósmica. Quando dizemos isto alguém pode contestar dizendo que o cérebro tem criado coisas magníficas, tem desenvolvido uma ciência altamente eficiente, desenvolvidas coisas como eletrônica, computação, radio-teledifusão, síntese de substâncias que nunca existiram antes, criação de estruturas biológicas não existentes, até mesmo de seres biológicos novos, e tantas outras coisas, além da magnificência das artes plásticas, das "criações" dos gênios da pintura, da escultura; das imortais criações musicais dos grandes compositores quer da música erudita quer da música. Quantas melodias espetaculares existem, quantas composições tecnicamente simples, mas capazes de tocar o que de mais profundo existe no ser! - Temos a dizer que isso é verdadeiro, mas temos que dizer também que na realidade tudo isso e muito mais são tão somente Criações da Mente Cósmica no ser. Nada disto é propriamente cerebral, ele não cria seja lá o que for pela ação da Consciência Cósmica. Na verdade, apenas ele altera aquilo que já existe como idéia no mundo de Yetzirah. Em essência o cérebro apenas manifesta no mundo físico a Consciência Cósmica em seu plano de conscientização objetiva.
Aqueles grandes momentos de criação humana na realidade são apenas vislumbres de intuição ou momentos de projeção nível dos planos superiores. Quando um grande compositor "cria" melodias fascinantes, na realidade ele apenas escreve aquilo que percebeu em níveis superiores de consciência. Podemos dizer que nenhuma das grandes obras que orgulham o ser humano foi criação autêntica do cérebro. O cérebro apenas atuou como receptor da Consciência Cósmica em nível biológico, ele apenas elaborou e aplicou a nível material aquilo que detectou numa projeção ou que sintonizou como mensagem intuitiva. Na realidade tudo o que chamam de creação resultam apenas de modificações no mundo gerado pela Mente Cósmica, ou mais precisamente captações a partir do “E”.
Algo que choca uma pessoa que tenta aceitar as grandes criações humanas como sendo do cérebro é que pessoas degradadas moralmente, corrompidas em sentimentos, degeneradas sem algo espiritualmente elevado para oferecer e sem estarem ligadas aos altos fins da existência, muitas vezes são exatamente as que "criam" coisas magníficas. A música erudita através dos tempos foi composta não por pessoas santas, não pelas mais aplicadas nas coisas de Deus, pelas mais disciplinadas e estudiosas. Vários dos grandes artistas de todas as épocas foram pessoas que muito deixaram a desejar. Hoje vemos que no mundo das artes os grandes artistas são pessoas que vivem drogadas a cometerem desacertos no dia a dia. Isto, portanto, parece ser um paradoxo, mas na realidade é exatamente o estado de drogado que faz com que eles por indução química consigam projetar as suas mentes para outros planos. Os estados alterados de consciência permitem o acesso a um nível além da matéria e de onde muitas coisas podem ser captadas. Isto pode parecer um absurdo, mas queremos lembrar que uma lei física não requer moralidade para que se cumpra Assim sendo, uma mente, por mais viciada que ela seja, quer esteja ou não esteja alterada por drogas, desde que vibre em determinadas freqüências ela pode sintonizar outros planos. Mesmo induzido por alguma droga, à mente pode se projetar para outros níveis de consciência e lá ouvir, ver e perceber sublimes criações que inundam os mundos superiores. Quando "voltam" eles, à guisa de criação apenas reproduzem o que inconscientemente viram, ouviram, ou sentiram.
Uma mente quando se projeta, mesmo que seja durante o sono ou por outros meios quaisquer, se tiver à devida capacidade pode perceber e depois reproduzir miríades de coisas. Se a época não estiver amadurecida para uma determinada coisa a mente cerebral não sente qualquer finalidade ante uma determinada forma de percepção e por isto ela não reproduz aquilo no mundo material. Mas, se por um lado se tratar de algo necessário para a época considerada, para aquela fase evolutiva, então ela reproduz como criação. Um exemplo disto é a vulcanização da borracha. O que seria dos veículos motorizados sem os pneus? Se não houvesse o processo de vulcanização[1] da borracha os veículos motorizados seriam quase que inviáveis. Agora vejamos algo que pode se parecer com uma coincidência: Ao mesmo tempo em que o automóvel estava sendo desenvolvido, muito distante estava sendo criado o processo da vulcanização. O caso da vulcanização não diz respeito a uma pesquisa dirigida para um determinado fim. Trata-se de uma descoberta coincidente – Princípio da Sincronicidade. Se os veículos motorizados não houvessem sido desenvolvidos, qualquer percepção inconsciente da vulcanização não teria sido aplicada porque a mente, mesmo que tivesse tido aquela percepção, não veria a utilidade dela e assim sendo não sentiria a necessidade de utilizá-la no plano material. Podemos afirmar que quase todas as criações existentes, ou elas se auto-estruturaram por influxo cósmico direto sobre a matéria, ou foram induzidas na mente cerebral dos seres que a executaram.
Todas as coisas são preexistentes no plano cósmico. É de lá que chegam, através do Raio da Creação até o cérebro sob a forma de intuição, de inspiração, ou de percepção, as mensagens para serem elaboradas no plano material. De alguma forma a consciência estabelecida no ser se projeta e faz a captação dos modelos, ou os recebe intuitivamente para que sejam executados. O cérebro apenas executa no plano material e sem saber o indivíduo o expõe como se fosse uma caiação individual. O cérebro registra como aquela criação reage com a matéria, assim como a matéria se comporta diante daquela criação, conscientiza-se disso e reverte a mensagem para o Cósmico.
Vamos usar mais um exemplo objetivo. A música, em sua plenitude, existe como Emanação Cósmica (Na árvore da Vida = mundo de Azilut ou Mundo das Emanações). A mente cerebral a percebe em algum dos planos mais baixos, transcreve-a para o plano material e ali a executa. Aquela música, por certo, vai despertar reações de inúmeras naturezas ao nível da matéria densa. As reações, então, são conscientizadas e revertidas ao Cósmico.
Em palestras anteriores, por mais de uma vez, dissemos que a Razão da Vida é a conscientização objetiva da Mente Cósmica ao nível da matéria densa. Deus quis ver a face de Deus, como diz a Cabala. A mente do ser humano é tão somente um tentáculo da Mente Cósmica projetado no mundo material.
A creação do universo foi feita pelo Poder Superior como creação subjetiva, mas a Consciência necessita da objetivização da sua própria obra. Ele objetivou a sua criação mental através de uma série de princípios capazes de estruturarem o universo, ao mesmo tempo em que, em parte, dispersou miríades de centelhas de Sua Consciência individualizadas nos seres, para efetivarem as conscientizações objetivas da própria creação, promovendo interações entre os elementos criados e registrando a conscientização objetiva de tudo o que existe.
Evidentemente a manifestação da mente ao nível de cérebro pode ter realizações individualizadas para o cumprimento de decisões materiais, mas se comparadas com as creações cósmicas elas são muito precárias.
Um ser é capaz de crear, mas isso somente no que diz respeito à sua Centelha – Kether. Enquanto a Centelha estiver envolvida por imperfeições ela não pode crear. Somente ao se desenvolver plenamente é que ela pode crear, mas então ela haverá se tornado o próprio Poder Superior. Na medida em que um ser vem se purificando e especialmente se cientificando ele terá o poder de crear, mas então já não mais terá cérebro algum. Assim podemos dizer que a capacidade creadora do ser não ocorre por conta do cérebro, mas sim por conta da Centelha Divina que existe em cada um. A capacidade creadora do ser não é função direta da sua estrutura material, portanto não é o cérebro quem crea e sim a natureza cósmica individualizada, a Centelha, a Essência Anímica e esta é divina. Assim sendo, aquelas grandes criações humanas que muitos julgam existir, na realidade são criações tão somente da Mente Cósmica.
Um cientista quando fica num laboratório a testar, a promover experimentos, a aferir reações, e acaba por um resultado favorável, na realidade não foi o seu cérebro quem creou, mas sim a Mente Cósmica. A concentração na pesquisa faz apenas com que a intuição atue e traga do "eterno agora" os dados para a elaboração de uma coisa, de um princípio, ou de uma teoria exata.

Notas
A vulcanização é um processo químico que dá à borracha as características indispensáveis para que possa funcionar como pneumático de veículo. ↑