A Extinção do Eu Sou
“Se estiveres no caminho certo, avança; Se estiveres no errado, recua.”
Lao-Tsé


Num certo sentido podemos dizer que o Nada de que temos falado não se trata de um “nada absoluto” porém para nós trata-se de algo assim, ou algo bem próximo disto. O Nada com referência aos valores e compreensões próprias dos seres da criação é como que uma inexistência, um “nada absoluto” desde que tudo o que aqui temos, entendemos, percebemos lá é diferente, na realidade podemos dizer que não existe. ““Para as consciências individualizadas não existe diferenças entre o “Nada Imanifesto” e o “ Nada Absoluto”, no máximo a saber que ele de alguma forma existe, mas em condições coisa alguma significa para nós.
Para que se torne mais fácil a compreensão do que estamos querendo dizer, vamos estabelecer uma analogia. Sabemos que o ouvido humano tem uma peculiaridade própria, pela audição só registram-se sons numa faixa compreendida entre 16 e 30.000 ciclos por segundo. Além desses limites evidentemente ainda existem sons, tanto isto é verdade que para o cachorro a faixa se estende até 35.000 ciclos, mas que não são detectados pelo ouvido humano. Sendo assim, quando a pessoa está diante de sons da faixa de 30.000 a 35 000 ciclos ela nada percebe, não é feito diretamente quaisquer registros deles, ou mensagens, ou informações. Coisa alguma se manifesta como som, portanto, diretamente som algum pode ser detectado. Isto eqüivale à uma anulação, uma extinção de todo entendimento através dos sons. Na realidade aqueles sons existem mas não podem ser percebidos, não deixam registros, conseqüentemente deixam de ter a capacidade de serem entendidos. Embora existindo, mesmo assim aqueles sons é um nada para a pessoa.
Aquilo que consideramos Eu, compreensão, entendimento, e todas as demais qualidades que constituem um EU pessoal não tem sentido em nível do Nada e a recíproca é verdadeira, tudo o que diz respeito ao Nada não é percebido, e muito menos compreendido, portanto sem nada significando quanto ao que está se manifestando naquele nível.
Aquela faixa dos 30.000 aos 35.000 ciclos por segundo, para nós é um “nada sonoro” embora que não seja um “nada sonoro absoluto”. O que se pode dizer com referência ao Nada além da criação? - No Nada há existência potencial mas trata-se apenas de um vazio para tudo que existe no universo, muito embora que diferente de um nada absoluto, da inexistência plena. Nele há apenas potenciais, há apenas informações potenciais e nada mais. Por isto qualquer forma de manifestação, ou de registro, ou de percepção, e coisas assim, somente existem dentro da criação.
No Nada a matéria deixa de ser matéria, igualmente energia deixa de ser energia e tudo o mais que lhe diga respeito, e assim por diante. Persistem lá aquilo que temos denominado de “Atributos do Poder Superior”, mas devemos entender que tais atributos só se manifestam nas coisas criadas. Não pode haver manifestação do amor sem que hajam pessoas para amar e coisas para serem amadas, e assim por diante. Vejam que, mesmo que todos os atributos existam no Nada eles ali se apresentam de uma forma totalmente incognoscível para nós. Na realidade os Atributos do Poder Superior só se manifestam na criação. Disto podemos dizer que tudo lá deixa de ter atributos; para tê-los, algo tem que estar dentro da criação. Resulta que um espirito, ou tudo o mais que volte ao Nada perde todos os seus atributos; um espirito que chegue ao infinito torna-se, quando muito, um potencial dentro de um infinito de potenciais.
Pelo que temos mostrado vê-se que o caminho da mão negra tem como alvo o infinito mas ao preço da perda total de todos os atributos, inclusive a consciência de si mesmo, que conferem a identidade espiritual.
Neste ponto, muitos poderão dizer: O que de maior e melhor pode existir que o Nada, que o Poder Superior? - Na realidade ainda não sabemos, mas por certo que a manifestação da vida na criação tem um significado imenso, mesmo para o Poder Superior, do contrário Ele não teria se manifestado como criação.
Na realidade estamos analisando proposições de altíssimo nível, num limite tal que tudo o que venhamos a dizer são conjecturas. Estamos num nível da análise dos propósitos do próprio Poder Superior por isto é paticamente impossivel se fazer afirmativas, a não ser no restrito sentido de satisfazer nossas inquirições pessoais. Sendo assim em vez de afirmativas vamos continuar nossos estudos indagando.
Dentro do que dissemos, indaga-se: Seria o caso da necessidade da individuação de Eus. Não temos conhecimento de qualquer sistema que fale da volta ao Nada, mas sim da volta ao UM, ou seja da Unificação. A Tradição diz da volta a Kether mas não a volta a Ayin (= EN = vazio ) que corresponde a volta ao zero. Por isto podemos entender que na realidade o propósito do Poder Superior e a Criação e não o se manter apenas como Nada.
SE entendermos realmente o que vem a ser o Principio Hermético do Mentalismo por certo que entenderemos melhor aquilo que estamos estudando. Segundo esse princípio tudo é mente, aquilo que julgamos objetivo, a criação, na realidade é uma condição mental, um estado da Mente Cósmica. Sendo assim podemos dizer que o Nada é constituído do Poder Superior pensando e do Poder Superior não pensando [1]. Usamos essa terminologia como um artificio visando a compreensão. O Nada pensante, mente ativa, é a criação, que possivelmente tem sido eterno, sendo este universo apenas um “momento” desse “pensar”.
Se o Poder Superior resolveu mentalizar a criação é porque isto se constitui algo deveras significativo e isto mostra ser a mente ativa mais importante que a passiva. Esta seria como que um “arquivo morto” da Mente Cósmica. Se assim não fosse por que o Poder Superior mentalizaria o universo?
Agora vejamos, o espírito que volta pelo caminho que o conduz a Tríade Superior ele permanece integrando a criação unindo-se a Kether, portanto fazendo parte da Mente Cósmica Ativa, enquanto que se voltar pelo outro caminho ele volta a parte inativa da Mente Cósmica, a uma fase indiferenciada do Nada, à apenas a condição potencial; volta a fazer parte do “arquivo morto” do Cosmos.
Isto que estamos chamando de “arquivo morto” na realidade é um potencial apenas, é algo que existe mas que não está em manifestação, portanto que não está sendo algo, e isto representa como que uma extinção, uma imanifestabilidade, nada mais que um potencial.
Eis o que significa aquilo que algumas doutrinas falam como sendo a extinção do espirito a volta ao estado MA. Isto eqüivale à perda da individualidade por completo, a perda de todos os registros. Se num futuro aquele tanto de MA se destacar de Ayin , voltar a se manifestar na criação e se individualizar como espirito, ele será algo novo, uma nova individualidade nova. Embora os registros anteriores não hajam sido apagados do Tempo, embora permaneçam os registros de sua existência pretérita, a nova individualidade não tem como se auto-identificar, não tem como associar qualquer registro pretérito a si mesmo, ainda que estes permaneçam eternamente inapagáveis.
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Notas
A rigor não podemos dizer que o Poder Superior Pensa. Onde existe consciência clara não pode existir pensamento. Por exemplo, uma caneta de escrever. Como caneta não tem o que se pensar se é ou não é uma caneta. Não cabe pensamento algum sobre isto pois é consciência clara a respeito do que é aquele objeto. Mas se estendermos além do que é e do que não é então cabem pensamentos. Cabe pensar quanto custou, onde foi fabricada, por que foi venda, por que preço, quando, onde e assim sucede-se uma série praticamente interminável de indagações. Essas indagações na realidade refletem o nível de ignorância que a pessoa tem a respeito do objeto em epígrafe. O Poder Superior que tem consciência clara de tudo não cabe pensar, não existe algo em que pensar pois todas as possibilidades são claras para Ele. ↑