Gnosis — A Fiel Sabedoria
“ O conjunto dos ritos, necessários à união na divindade, devem ser conservados dissimulados dos olhos do profanos. O resto não deve ser colocado entre todas as mãos ”.
Pistis-Sophia


Na palestra anterior mencionamos um mito gnóstico a respeito da descida de Sophia. Na realidade por detrás daquela alegoria existe uma sólida base doutrinária gnóstica. A descida de Sophia tem idêntico sentido que a “queda dos anjos” mencionada pelas Igrejas Cristãs da atualidade, e também se adequa à Teoria das Emanações da Cabala e religiões dela derivadas. Na realidade Sophia era um dos três componentes de uma Trindade, referida por algumas Escolas Gnósticas, constituída por: Deus - Christos - Sophia .
Diz o mito, quando Sophia “viu-se” nas trevas arrependeu-se e quis voltar à Luz., então o lado Christos da Trindade procurou restabelecer a ordem, iniciando um processo de resgate para trazer Sophia de volta ao seu lugar de origem.
Foram os gnósticos valentinianos que usaram a palavra Demiurgo - termo inicialmente usado por Platão - em vez de Sophia para indicar o Criador do mundo... Os Valentinianos reservavam o nome Sophia para indicar o próprio conhecimento e não um dos elos da Trindade.

Foi o desejo de conhecer que levou Sophia a querer se defrontar com a Luz, mas ela não conseguiu suportar a e conseqüentemente logo ficou ofuscada e então mergulhou nas trevas. Em linguagem não velada isto significa que tudo já existia na própria natureza de Deus, pois ao nível do Poder Superior não existe passado e nem futuro, o tempo “para” de fluir, ou seja inexiste a cronologia. Isto é algo que a quase totalidade das pessoas ainda não entende mas nem por isto esse ensinamento místico é algo absurdo, pois é um princípio aceito pela física e expresso na Teoria Relatividade. Segundo esta teoria, na velocidade da Luz deixa de existir cronologia, isto é o tempo não flui, não há nem passado e nem futuro, tudo é tão somente o “agora”.
No princípio houve o “Fiat Luz” surgindo Kether ( Deus ) do qual emanaram sucessivamente Hokhmah e Binah. ( Christos e Sophia ) perfazendo a Tríade Superior. O nível de Deus ( representado na Árvore da Vida por Kether ) situa-se em nível superior ao de Christos e de Sophia. Assim, ao nível Hokhmah - Binah ( Christos - Sophia ) já existe uma queda de todas as qualidades presentes em Kether, portanto nesse nível já não existia a Consciência em sua plenitude, podemos dizer, no bipólo Hokhma - Binah ( Christos - Sophia ) já havia ocorrido uma queda de todas as qualidades. Sendo assim Sophia não percebia tão claramente quanto Kether e por isso, sendo mais imperfeita que Deus, desejou ver-lhe a Luz, não suportando-a contudo. [1]
“Sabedoria” possui diversas conotações entre os gnósticos, sendo uma delas a de ser a “primeira criadora universal” da qual nasceram todas as criaturas.
O Cristianismo ortodoxo falava da Trindade mas punha a criação à margem desta e isto ainda se mantém como pensamento católico e protestante na atualidade. Essas religiões afirmam que Deus existe em Trindade mas esta permanece incólume enquanto a criação dos espíritos ocorreu como uma condição paralela, fora da Trindade portanto. Este pensamento se opunha aos gnósticos que afirmavam que tudo quanto há, incluindo todos os espíritos, tem como origem a própria Trindade. Os valentinianos diziam que tudo quanto existe, e os espíritos também, proveio do Demiurgo enquanto que outras escolas atribuíam a Sophia, mas como podemos ver trata-se apenas uma questão de semântica, desde que tudo deixa transparecer que o Demiurgo e Sophia são uma mesma coisa.
Diziam que gnósticos que toda a problemática do desenvolvimento do espírito resulta dele ignorar sua própria origem e a do mundo material. Afirmavam que a matéria era o pólo oposto da Luz, e portanto tudo aquilo que tivesse conotação material era de nível inferior, impuro e imperfeito, e que a meta principal do desenvolvimento espiritual era a libertação do cativeiro imposto pela matéria..
Para o espírito se libertar do jugo da matéria primeiramente ele tem que conhecer a sua origem e no modo de agir do Demiurgo. Os gnósticos afirmavam ser a ignorância e não o pecado que faz a pessoa a sofrer.
“Dizia Valentino: “A ignorância trouxe ao mundo a angústia, e a angustia tornou-se espessa como uma neblina, de modo que ninguém conseguia enxergar. Por isso o erro é tão poderoso... Por isso a maioria das pessoas vivem sem se tornarem cientes de si mesmas”. O Evangelho da verdade, atribuído a Valentino, diz que os que vivem desse modo sofrem terror, confusão, instabilidade, dúvidas e desânimo, sendo enredados por muitas ilusões.
Os gnósticos diziam que as pessoas habitam na deficiência ( o oposto da plenitude), pois a deficiência consiste na ignorância... Assim como a ignorância desaparece por si quando alguém chega ao conhecimento, também as trevas desaparecem quando surge a luz, assim como a deficiência desaparece na plenitude.
A Gnosis[2] foi, sem dúvidas, a maior dificuldade encontrada pela “barca de Pedro” quando a Igreja esboçou suas primeiras manobras destinadas a lançar um véu sobre as origens esotéricas do cristianismo. Assim, um especialista dessas questões, o abade Barbier [3], não hesita em dizer: “A gnosis constituiu certamente para a Igreja um perigo considerável, pois que vários dos homens que a dirigiam eram de uma penetração pouco comum, capazes de visões sintéticas, eloqüentes, oferecendo por vezes em sua visão uma regularidade moral que aumentava sua autoridade. Para a Igreja, tais homens vinham oferecer precisamente o que lhe faltava ainda, uma concepção de conjunto da história e da obra da salvação, uma filosofia do cristianismo e de suas relações com o paganismo e o judaísmo, uma compreensão mais profunda de sua fé ”.
A base doutrinária que encontramos em todas as escolas gnósticas, e que será retomada pela cabala judia, é a da “emanação”. Deus, incompreensível por si mesmo, só se revela por seus atributos.
A filosofia da emanação é portanto, oposta ao dogma de um Deus Criador. Assim a gnosis se apresenta como a ciência religiosa por excelência, isto é, o conhecimento verdadeiro dos três mundos, divino, espiritual e material, bem como de suas relações..
Do mesmo modo, a concepção trinitária da Criação se encontra por toda parte presente na Gnosis, onde os números desempenham um papel capital. Há três mundos básicos, assim como o Deus inefável compreende três determinações, sendo o PAI o ser em ato, e o FILHO o seu Logos ou Verbo Criador, movimento vibratório que agita o “éter” sob o qual Deus é simbolizado. Como redentor, ele é JESUS CRISTO. Enfim o ESPIRITO SANTO, como atributo divino, é a vida, o sopro excitando o movimento vibratório, é o Pneuma que, partindo do núcleo divino do cosmos, chega aos confins do universo para voltar finalmente à sua origem ( tal é o sentido simbólico da serpente que morde sua própria cauda), no pleroma.
A Gnosis continha o grande segredo do “sentido da Vida e da existência, assim era normal que a Igreja procurasse ocultá-lo e desacreditar essa escola de sabedoria”.
Pela introdução do livro Pistis-Sophia pode-se aquilatar o volume e no nível de conhecimentos esotéricos contidos no gnosticismo cristão, que em grande parte foi totalmente destruído.: “Após ressuscitar dos mortos, Jesus passou onze anos palestrando com seus discípulos, e só os instruiu até aos locais do primeiro mistério, que se encontra no interior do primeiro mandamento, que é o vigésimo quarto mistério fora e abaixo. E Jesus disse a seus discípulos: “Eu saí deste primeiro mistério, que é o último mistério, isto é, o vigésimo - quarto!.
Aparentemente desprovido de sentido, esse trecho gnóstico constante do Pistis-Sophia contém um segredo matemático, trata-se uma mensagem aritmeticamente codificada e cuja significação total ainda está ainda por ser decifrada. Grande parte dos textos gnósticos devem ser lidos à luz do simbolismo dos números e de suas correspondências com o universo. Assim, podemos dizer que a visão cósmica da Pistis-Sophia corresponde ao “Cristo Cósmico” da Tradição Primordial. Para se compreender com clareza muitos escritos gnósticos necessário se faz conhecer aquilo que os místicos referem como “Matemáticas Secretas”. Estas derivam certamente de uma fonte de sabedoria comum; a de Pitágoras. Assim a Escola de Alexandria, intimamente influenciada pela cultura e pensamento helênicos, foi um núcleo de luz incomparável até ao séculos V de nossa era. Foi lá que a bela Hipátia professou, lá ensinaram os grandes gnósticos cristãos, ente eles, Valentino, Bailídio, Cirinto, e outros.
O poder negativo fez com que o pensamento gnóstico deixasse de ser aceito dentro do Cristianismo, e para isto se fez sentir a técnica do “amálgama”, foi associado aos gnósticos um acúmulo de crenças heterogêneas emanando de seitas mais ou menos suspeitas, de modo a por em prova a doutrina e a apresentação da gnosis como uma escola “confusa”, ou até mesmo extravagante, e quando não eivada de negatividade pelas influências do tantrismo negro que penetrara em algumas delas. Sendo assim, os espíritos independentes da cristandade foram caluniados e acusados das piores torpezas para desacreditá-los. Indo ainda mais adiante, foi resolvido atacar o “mal pela raiz”, foi decretado a destruição dos Evangelhos não expurgados, sendo queimados todos os textos heterodoxos e todas as obras de “magia’, isto é, entenda-se, de ciência esotérica.
Grande parte daqueles tesouros escritos fazia parte da Biblioteca de Alexandria. O incêndio daquela biblioteca, na realidade foi queimada no século VII por determinação dos árabes porém por instigação do Cristianismo. Alias o incêndio da Biblioteca de Alexandria já havia tido um precedente em que um valiosíssimo acervo foi destruído quando os cristãos incendiaram o Serapeum por ordem do imperador Teodósio, no fim do século IV.
Desde os anos 320 - 330 d.C. os gnósticos sofreram os ataques do clero oficial e em seguida do Estado, quando Constantino proclamou o Cristianismo como religião do Império. Então nada mais restava aos adeptos da “Sabedoria” senão desaparecerem ou se refugiarem sob o manto da heresia, abrigo precário, já que essa atitude acabaria por conduzi-los às fogueiras reservadas aos “inimigos” da Igreja Romana. O que sobrou foi aquele acervo de livros descoberto em Nag Hammadi e mais alguns documentos esparsos. Felizmente o volume de escritos descobertos são suficiente para se ter uma base do quanto de conhecimento tinham os “heréticos” gnósticos.[4]

Notas
Quando o Demiurgo tirou de si legiões e legiões de anjos “em sua insânia disse: Eu sou Deus, e não há outro Deus alem de mim... E quando viu a criação que o circundava, e quando viu ao seu redor a multidão de anjos que deles vieram, disse-lhes, “Eu sou um Deus cioso e não há ouro Deus que não eu. Porem, proclamando isso ouviu-se a voz do Superior que disse - Tu és Samael , o deus dos cegos. - Evangelho Apócrifo de João. ↑
Na literatura mística há uma diferença entre os termos “Gnose” e “Gnosis”. Gnose diz respeito ao conhecimento em geral, enquanto que Gnosis refere-se ao conhecimento oriundo de ensinamentos tradicionais milenares. ↑
Abbé Barbier: Les infiltrations maçoniques dans l’Église ↑
Já demos uma relação de documentos gnósticos descobertos, também nesta serie sobre religiões comparadas mencionamos vários outros. Para que alguém mais interessado posa saber pelo menos os
nomes daqueles documentos segue-se uma relação de mais alguns:
Sophia de Jesus, o Diálogo do Salvador, a Epístola de Eugnosto e Bem-aventurado, O apocalipse de São Paulo, o Apocalipse de Tiago, O Apocalipse de Adão a seu filho Set, O Discurso de Verdade de Zoroastro, A Epistola de Pedro a Felipe, A Revelação ao Grande Sete, A Epístola referente ao Pai do Universo e ao Homem Primordial Adamas, O Discurso “autêntico” de Hermes a seu filho Tat, O Pensamento do Grande Poder, A Interpretação da Gnosis, O Alógeno Supremo, A Hipóstase dos Arconte , A Exegese sobre a alma , O Evangelho de Tomás e outros. ↑