A Volta à Origem
“ Valoroso é o vencedor de leões; Valoroso o domador do mundo, mais valoroso quem a si próprio domina”.
Johann G. Herder.


Em palestra anterior vimos que o universo se desdobrou a partir de um ponto, de Kether diversificou-se a um inconcebível nível de fracionamento. Aquelas unidades, embora não constituam-se frações totalmente independentes, mesmo assim elas comportam-se como se o fossem dentro de um mesmo plano da seqüência sétupla.
Falamos do incremento da entropia como resultado da passagem de um estado de ordenação para um de desordenação. Também dissemos que o universo segue um périplo que está representado pela Árvore da Vida e nele o comum é as coisas terem que descer ao seu nível mais inferior - Malkut - para só então poderem encetar o retorno. Também dissemos que os seres vivos em especial parecem contrariar o princípio da conservação da energia, que eles podem voltar ao estado de ordenação inicial sem que tenham que descer até o nível mais inferior.
Agora queremos dizer que em se tratando do espírito pode ocorrer uma situação diferente; a consciência individualizada pode não ter que chegar ao nível de Malkut da Árvore Principal para no momento preciso se reintegrar à origem. Temos dito que a consciência é uma só, mas que houve um individuação, ou seja, houve uma descontinuidade, uma fragmentação parcial, para ser “criado” os espíritos[1].
Todo o cosmo é constituído de RA + MA. É impossível se descrever RA a não ser como sendo Consciência UNA e MA como sendo um Atributo do Poder Superior sobre o qual atua RA ( Vide palestra 577 ).

Ilustração 1
Em termos de universo[2] podemos dizer que ele é basicamente constituído por energia expressando a CONSCIÊNCIA. Quando a energia vibra é porque nela se fez presente a ação da consciência e então surgem as coisas. O que vamos dizer agora é muito significativo para o entendimento dos elevados princípios do universo.
Em tudo o que existe está sempre presente a consciência sob alguma forma, mas nem todas as coisas têm consciência de si.
Só há consciência de si onde há individuação, em outras palavras, só existe consciência de si ou no Todo ( que é a máxima individuação ) ou nas partes individuadas, que são os espíritos. Assim sendo no universo somente os espíritos é que têm consciência de Si. Um gênio, por exemplo, não tem consciência de si porque ele é uma força abrangente não individualizada. Vejam que o fogo não se fragmenta, ele é sempre o mesmo em qualquer ponto do universo, a maneira de ser dele é sempre a mesma, não tem caráter seletivo em função de tempo e espaço. Ele é o mesmo em qualquer tempo época e em qualquer lugar, em duas chamas, em três... em N chamas. As chamas em contracto unem-se num só fogo, pois não são individualidades.
Pelo que foi dito temos que entender que, embora exista consciência em tudo quanto há mesmo assim ela apresenta-se sob duas formas bem distintas. Criações com consciência individualizadas e com consciências não individualizadas. Num metal, ou numa rocha, em algo daquilo que convencionou-se chamar “coisa inanimada” há fragmentação, há descontinuidade, embora não haja individuação de consciência que permita dizer algo dizer “sou uma pedra”, “sou um metal”. Evidentemente também o querer que é função da consciência não está presente nela.
Mesmo os seres vivos que não reencarnam têm a energia vital à guisa de espírito, são seres vivos mas que não têm consciência de si mesmo. Eles comportam-se de forma mais aproximada de um gênio do que de um espírito. Em suma, os seres “inanimados” e os seres vivos que não detêm um espírito em desenvolvimento, comportam-se como energia não individualizada.
Por não serem formas individuadas de consciência as mencionadas formas de existência não têm um querer pessoal e por isto não comandam, não têm possibilidade de interferir no processo de descida representado pela “Árvore da Vida”. É por isto que tudo aquilo que não tem individualidade têm que chegar a seu nível mais denso para poder então voltar à origem, enquanto que os espíritos não, eles são dotados de querer; têm consciência de si e como tais têm livre arbítrio que lhes confere a possibilidade de escolha de “atalhos” no périplo do desenvolvimento espiritual.
Por seu turno, as formas não conscientes de si, estão sempre sujeitas ao incremento da entropia, elas têm que descer até o nível mais inferior da Árvore da Vida para poder a partir de lá encetar o retorno à origem. Pelo que dissemos, vê-se que não existem atalhos através dos quais a matéria possa voltar à sua origem; o processo tem que chegar ao nível de Malkut e cumprir todo um périplo através de todos os sephirot.
Se existem possibilidades de “atalhos” na Árvore da Vida acessíveis às formas individualizadas de consciência, logo um espírito pode retornar sem que antes tenha que chegar ao nível de Malkut. Nem todos os espíritos criados têm nessariamente que atingir o nível de Malkut na Árvore básica. Desta feita existem as individuações de consciência que necessariamente não tiverem e nem têm que encarnar, que não tiveram que descer ao nível da matéria densa. Evidentemente o universo pode ser representado por um aglomerado de arvores; (Vide fig. 1) são árvores dentro de árvores, árvores dentro de sephirah. Quando dizemos que nem todos os espíritos têm que descer até o nível de Malkut para poder voltar não estamos afirmando que eles não sejam árvores completas; estamos nos referindo a Malkut da árvore básica da criação. Resumindo diremos que dentro da primeira árvore, da árvore mãe, nem todos os espíritos atingem Malkut o que não acontece com todas as outras coisas regidos por unidades de consciência não individualizadas.
Em palestras anteriores falamos de “caminho da mão direita” e de “caminho da mão esquerda” e queremos dizer que ambas as vias conduzem à origem. Vemos que o mundo material caminha pela mão esquerda o que leva ao nível inferior de Malkut e somente a partir de lá é que tem início o retorno.
Pela razão do mundo material ser constituído por coisas que tiveram que descer ao nível baixo de Malkut, os gnósticos diziam que toda matéria era basicamente má.
Tudo o que é material tem existência no nível inferior. É deste mundo que o caminho de retorno tem início, é daí que as coisas não individuadas começam a ascender. Enquanto isto o espirito pode passar, de qualquer ponto do desenvolvimento, da coluna da esquerda para a da direita sem ter que chegar a Malkut [3]. ( Vide Fig. 2 )

Fig. 2
Evidentemente todos os espíritos que estão se desenvolvimento na terra chegaram até Malkut, são os que constituíram aquelas legiões de anjos caídos citados na Cabala. Mas, como as próprias escrituras mencionam existem muitos outros espíritos, que podem ser chamados de anjos, de arcanjos, etc. que não chegaram a tão baixo nível. Estes praticamente não saíram da Tríade Superior da Árvore da Vida, e não trilharam o caminho da mão esquerda e sendo assim podem se unificar sem terem que chegar a Malkut. Mesmo os que estejam do lado esquerdo da Árvore ( em Binah ) podem passar para a direita e no momento devido se unificar a Kether.
Somente as formas individuadas de consciência podem alterar o fluxo de energia no universo. Numa transformação qualquer há um envolvimento de energia, e para tudo aquilo que não tiver consciência individualizada há sempre aumento da entropia desde que tudo caminha da ordem para a desordem. Para ocorrer uma reversão deste processo, uma reversão do aumento da entropia, é imprescindível haver incremento e direcionamento de energia para compensar as perdas.
Na medida em que o universo vai evoluindo a entropia vai aumentando, e para reverter o processo é preciso acrescentar energia ao universo. Assim sendo para o universo voltar à origem seria necessário que houvesse uma reversão progressiva de tudo, que cessasse a descontinuidade. Para tanto é necessário haver adição de energia à criação. Isto acontece através daquilo que os astrônomos chamam de “buracos brancos”, que são pontos em que uma tremenda quantidade de energia emerge em determinados pontos do universo. Se assim não fosse o processo de reunificação universal jamais ocorreria para as estruturas não individualizadas. Mas, em se tratando de estruturas não individualizadas mesmo com a emergência de energia ainda assim as coisas têm que completar o périplo, e só ascender a partir de Malkut.
Por outro lado, em se tratando de indivuações, de consciências individuadas, não há a necessidade de chegar a Malkut pois eles tem condições de direcionar a energia e inverter o processo, de deixar a trilha da mão esquerda e passar para a da mão direita de forma a promover a ascensão.
Quando falamos sobre a Emergia Sutil estudamos com alguns detalhes esse processo, quando dissemos que os espíritos, os seres criados podem acumular energia para ascender de plano. Através desse processo é possível a um espirito numa determinada Árvore da Vida se direcionar sem ter que chegar a Malkut.

Notas
Um espírito é um tanto de energia dotado de consciência individualizada. ↑
Universo, segundo o Hermetismo, é o mundo imanente, o mundo creado. Reserva o termo Cosmos para algo o conjunto do Imanente e do Transcendente. Em tema muito mais avançado veremos que os dois é Um. ↑
Evidentemente que todos os espíritos encarnados na terra chegaram ao nível de Malkut, estamos falando de outros seres conscientes existentes no universo. ↑