A Anulação dos Espelhos
“ Os grandes conhecimentos geram as grandes dúvidas ”
Aristótaeles.
ANULANDO OS ESPELHOS
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Na palestra anterior vimos que a constituição do universo reflete claramente a ação do Principio da Polaridade, do que decorre a multiplicidade, e a conseqüente complexidade do mundo em que vivemos.
A polaridade gerou miríades de espelhos que refletem o Poder Superior. Quanto mais espelhos, tanto mais complexidades, tanto mais distanciamento da Origem Real, portanto, tanto mais reflexos, e tanto mais imagens deformadas e consequentemente diferentes da imagem original.
Afastamento de Deus significa transformação demoníaca, sendo assim, tanto mais demoníaca torna-se uma imagem quanto mais distante ela estiver da origem. Espelhos diante de espelhos geram imagens cada vez menores e imperfeitas, portanto se a primeira imagem é a mais perfeita delas a última é a mais imperfeita; se a Primeira é Divina a última é diabólica. Se na face do Primeiro Espelho está a mais perfeita imagem do Poder Superior, se é a mais Luminosa delas no derradeiro a imagem está tão apagada que pode ser considerada treva.
Afim de que um espírito, que é uma imagem refletida num espelho muito distante, um espelho situado entre incontáveis outros que lhe antecedem, possa tornar-se uma imagem bem perfeita é necessário que seja anulado aquela sucessão de espelhos intermediários até chegar a UM nível em que só reste UM deles.
Todo aquele fantástico número de condições (espelhos) um à uma tem que ser anulado para que ocorra a reunificação ( = retornar a ser UM ), para que tudo possa voltar à origem, para que venha a ser a mais perfeita imagem do Poder Superior refletida em um único espelho. Para tanto, todas as polaridades têm que ser desfeitas, o que eqüivale a anulação de uma sucessão de espelhos e, evidentemente isso é um processo muito complexo e demorado segundo a nossa cronologia; em outras palavras, o desenvolvimento do espírito é muito moroso. A grande dificuldade em ser anulado a sucessão de espelhos é porque o espírito fascina-se diante de cada espelho, não duvida que aquela imagem que percebe pode não ser a imagem real.
Na Mitologia grega consta o Mito de Narciso. Este mito tem um significado simbólico bem especial na Ordem Iniciática D.R.D., porque ele reflete precisamente a situação do espírito em desenvolvimento. Diz o mito que Narciso era um caçador da Beócia de inigualável beleza e que por isto não deveria ver a sua própria face. Ver a sua imagem seria a sua própria perdição. Certo dia Narciso encontrou uma fonte e, então, viu refletida no espelho da água a sua própria imagem. Imediatamente ele enamorou-se tão violentamente daquela imagem, e julgando tratar-se de outra pessoa tentou pegá-la do fundo das águas, e na tentativa de traze-la para si acabou perecendo no lago.
Assim é o que acontece na criação, Deus quis ver a face de Deus, por isto criou os espelhos. Dividiu-se em miriades de unidades que mergulharam no grande “lago da Criação” em busca de “ver” seus múltiplos aspectos. Mas acontece que as unidades ao verem-se refletidas apaixonam-se por elas mesmas, são atraídas por elas e ficam tentando inutilmente resgata-las do fundo do poço. Isto é a perdição do espírito, pois assim permanecem presos até que venham a reconhecer que tudo aquilo trata-se apenas de reflexos e que por isto não adianta fascinarem-se, escravizarem-se.
Vemos no dia a dia que a humanidade vive como escrava das imagens ilusórias do mundo, apegam-se a elas ignorando que a realidade absoluta está distante de tudo aquilo.
Ensina a Tradição da D.R.D que a peleja do espírito em desenvolvimento deve ser no sentido de entender que o mundo é ilusório, que existem os espelhos mas que as imagens neles refletidas não são coisas reais e, que, sendo assim ele deve abandonar o mar de espelhos, afastar-se da imagem refletida, da imagem virtual, e ir em busca da origem real que não está ali.
A pessoa geralmente fica tão encantada com as fantasias do mundo que chegam a acreditar que somente aquilo é real, que o mundo material é a única condição real quando evidentemente é o inverso disso.
No plano material os espelhos estão muito afastados da imagem original do Poder Superior, portanto, para se unificar, a pessoa tem que se desembaraçar deste tremendo "mar de espelhos" que é a criação.
Agora queremos mostrar o seguinte: A treva é uma imagem muito esmaecida da Luz, é algo refletido de muito distante, é como um reflexo numa imensa seqüência de espelhos justapostos. A treva absoluta inexiste pois se assim não fosse ela constituiria um segundo infinito e evidentemente não podem existir mais que um infinito. Sendo assim, para ser anulada, a treva tem que aproximar da luz. Só existem duas maneiras possíveis de desfazer a treva, ou ela se aproxima da Luz ou vice-versa. Pensemos naquela seqüência de imagens refletidas em dois espelhos justapostos. Um espelho colocado diante de outro forma uma sucessão infinita de reflexos. Para extinguir essa sucessão tem que ser eliminado um dos dois espelhos, evidentemente, e se tal acontecesse seria o mesmo que extinguir a própria criação. O universo é aquela sucessão de imagens que aparecem em dois espelhos justaposto; se um dos espelhos for retirado a sucessão de imagem some. Como há uma finalidade para a criação evidentemente ela não pode ser extinta, sendo assim temos que conviver com a seqüência de imagens ilusórias e ir apagando cada uma, ir extinguindo reflexo por reflexo, eliminando espelho por espelho.
Agora vejamos, só existem três maneiras possíveis de extinguir a sucessão de imagens: Uma é extingui-la no sentido da Primeira para a derradeira; a outra, desta para a primeira; e a terceira extinguir aleatoriamente. Isto nos conduz à seguinte indagação: Se a eliminação se processasse da primeira imagem para a derradeira, então o mundo iria satanizar-se cada vez mais. Na segunda condição iria divinizar-se cada vez mais. Estes são aqueles dois caminhos citados por algumas doutrinas; ou sejam, o “caminho da mão esquerda” e o “caminho da mão direita”. Ambos têm religiões que orientam as pessoas nesses sentidos, são as religiões que são consideradas diabólicas e religiões consideradas Divinas.
Vale salientar que naquela sucessão de espelhos as imagens serão infinitas tanto no sentido de diminuir cada vez mais, quanto no de aumentar cada vez mais. Vemos que ambos os limites estão no infinito[1] e infinito é Único.
Pensemos numa linha imaginária em que num dos extremos está situado a treva e no outro a Luz. Trata-se de um bipolo e sendo assim uma coisa é a outra em pólos opostos. Na medida em que os pólos vão se aproximando um do outro a treva vai sumindo. Se os dois pólos se direcionassem um para o outro exatamente no ponto médio um extinguiria o outro, ali não haveria nem uma polaridade e nem a outra. Duas coisas opostas que se aproximam mutuamente chegam num ponto em que anulam-se reciprocamente. Vale aquele mesmo raciocínio infinitesimal, citado como paradoxo de Zenão, referente à uma corrida entre uma tartaruga e Aquiles.
Agora pensemos no seguinte: Imaginariamente aproximemos duas coisas opostas, num momento está estão um tanto perto uma da outra, num momento seguinte, vamos supor que a distância diminuiu pela metade, no seguinte novamente pela metade. Assim uma vai se aproximando da outra, mas vale notar que elas jamais se encontrarão pois sempre restará uma fração da distâncias e que esta ainda pode ser mais uma vez dividida. A prática mostra que elas evidentemente se encontram, mas logicamente jamais, racionalmente jamais. A matemática mostra que o encontro, com anulação recíproca, somente será possível no infinito. Por mais próximo que duas coisas estiverem ainda resta algum espaço a ser dividido sucessivamente e que aquele de encontro deve se situar exatamente no meio da distância do restante.

Este processo direciona-se ao Infinito, somente no Infinito é que as polaridades podem anularem-se mutuamente e então não mais trata-se da criação e sim do NADA.
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Notas
Deixamos que o discípulo medite sobre essa proposição. Por enquanto não adiantamos mais informações sobre os limites, em decorrência da tremenda seriedade que advém disto. Dizer traumatiza àqueles que não estiverem devidamente preparados, e sendo assim é preferível cada um descobrir por si mesmo a grande série de implicações que isto envolve. ↑