Brahma — O Creador
“ Quando deus transcende uma lei este fato se torna uma nova lei ”.


Vimos na palestra anterior que Vishnu tem a ver com o tempo cronológico. Vishnu é preservação, mas preservação é apenas uma condição mental decorrente das limitações sensoriais. A rigor tudo muda no universo, não existe, portanto, estabilidade alguma que possa configurar a ação de Vishnu, portanto essa ação é apenas a forma de percepção mental. Mas, por outro lado podemos dizer que sem manifestação não poderia existir percepção dos eventos e consequentemente inexistiria o Universo Imanente. Isto nos mostra que o Universo é mental conforme preceitua um dos Princípios Herméticos.
Qual é a duração de um evento? Sabemos que ele pode diminuir até o infinito e como Vishnu é relativo à existência de eventos que a rigor não existe. Não existe porque para algo existir como tal seria preciso uma fração de tempo de estabilidade e na verdade estabilidade absoluta não existe no Mundo Imanente. Não há eventos porque todas as coisas estão em transformação perene. A estabilidade é apenas uma aparência, o fruto de limites das percepções, ou seja, uma ilusão - Maya -. Um acontecimento qualquer pode ser mais rápido, cada vez mais rápido e esse processo só se detém no Infinito. Se a manifestação de Vishnu é a preservação dos eventos, na condição que acabamos de citar, a preservação seria cada vez menor até atingir o limite do Infinito, por isto podemos dizer que Vishnu só se manifesta como uma condição mental segundo o limiar de percepções.
Agora veremos a condição da Natureza Brahma do Inefável – Brahman – em manifestação do mundo imanente.
Já dissemos que Vishnu seria o tempo estático, mas isto só aconteceria se existissem coisas estáticas no Mundo Imanente. Como não há estabilidade no Imanente, consequentemente nele não se manifesta o tempo em Si, mas apenas o cronológico, o tempo cinético. Assim sendo tanto Vishnu quanto Shiva no Imanente são manifestações cronológicas. Shiva é destruição e destruição é transformação e só pode haver destruição ou transformação de algo existente. Assim Shiva - destruição - só pode existir de fato quando há algo - conservação = Vishnu, mas já mostramos que a rigor esta condição não existe fora da mente. Isto faz com que Shiva também seja uma condição mental.
Agora vamos considerar Brahma, o aspecto criativo. Facilmente pode-se ver que toda creação envolve uma destruição precedente, assim sendo qualquer creação na verdade é uma transformação, ou seja, uma manifestação de Shiva. Logo Brahma também só pode existir em função de Shiva, pois para que algo venha existir se faz preciso alguma preexistência - Principio da Causalidade - e algo precedente é algo conservado, é portanto Vishnu.
Não pode haver creação sem que exista movimento criativo, não pode existir creação sem que haja transformação, ou seja, que algo deixe de existir sob uma forma e passe a existir sobre uma outra forma. Mesmo que considerássemos uma hipotética creação a partir do nada ainda assim haveria a necessidade da “destruição nada” afim de que ocorresse o aparecimento do não nada - creação.
Vejamos o estado de incongruências: Brahma só tem sentido se existirem Vishnu e Shiva; Shiva só tem sentido de existir Brahma e Vishnu; e este, por sua vez também só tem sentido se existirem Brahma e Shiva. Qualquer um só existe se existirem os outros dois aspectos. É exatamente por isto que Brahman - O Inefável - quando se manifesta o faz sempre como a Trimurti - Trindade -. Eis a razão pela qual todas as doutrinas de aspecto mais metafísico apresentam contêm Trindades que recebem nomes diferentes conforme a doutrina considerada, mas que na realidade têm o mesmo sentido.
As inúmeras Trindades existentes são únicas, embora cada seja constituída por deidades de diferentes nomes conforme a cultura, o povo e a época.
Os temas 918 - 924 e 925 requerem uma leitura bem atenta seguida de um processo de análise meditativa acurada, pois o assunto apresentado é deveras sutil requerendo meticulosa análise cada frase escrita. Daí que por certo tornam bem claro o grande significado do que vem a ser uma Trindade e a razão pela qual no Universo Imanente a natureza é Trina.
Nas palestras iniciais deste trabalho seria muito difícil explicar a natureza de uma Trindade, mostrar o que ela representa e especialmente mostrar o porquê a natureza é trina. Para um bom entendimento sobre o que vem a ser a Trindade, primeiro foram necessários muitos dados preliminares afim de que o discípulo possa chegar ao nível de poder compreender o porquê da natureza ser trina.
Vemos que a existência envolve apenas três condições: creação, conservação e destruição mas que nenhuma delas é independente das demais. Elas apresentam-se como condições diferentes entre Si mas na essência não o são. As três condições manifestam-se como coisas separadas, individualizadas, mas na realidade não existem individualizações quaisquer.
Coisa alguma pode ser creada, preservada ou destruída independentemente daí a unicidade da trindade. Também é importante que se tenha em mente que esses aspectos da Trimurti somente existem em manifestação do Mundo Imanente, elas não manifestam-se no Universo Transcendente. Fora do mundo Imanente não há formas nem quaisquer condições que representem creação, não existem coisas que sejam preservadas ou destruídas, portanto não manifestam-se nem Brahma, nem Vishnu e nem Shiva. Na Transcendência não existem nem a creação, nem a conservação e a destruição. Quando algo é creado então de transcendente torna-se imanente.
Segundo o Principio da Causalidade se existe um mundo imanente necessariamente tem que existir alguma forma de preexistência que lhe deu origem segundo a Lei de Causa e Feito - Princípio da Causalidade. Essa preexistência é Brahman. Que ao manifestar-se no Mundo Imanente o faz sob tríplice aspecto: Creador - Brahma -; Preservador, Vishnu; Destruidor, Shiva. Assim podemos entender agora porque Brahman - O Inefável - só se manifesta em Trindade.
Nesta palestra estamos diante de uma entendimento mais elevado sobre o número três, o Divino Três.
