O Mal no Contexto das Trindades
“O mal é a força e a forma impelidas pelo movimento da criação”.
Cabala.
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Existe uma diferença fundamental entre as religiões cristãs da atualidade e as grandes religiões do passado no que diz respeito à origem do mal. As religiões cristãs atribuem o mal a satã, um ser rebelado que se opõe a Deus. Dizem que o mal começou pela rebelião dos anjos no céu, que após haverem sido vencidos por Miguel tornaram-se demônios cujo chefe houvera sido, antes da queda, Lucifer que quer dizer Portador da Luz.
Para que se possa saber a verdade sobre o que ocorre nos “bastidores” da problemática humana é preciso que se tenha um mínimo de conhecimento sobre o Judaísmo. Primeiramente deve-se ter em conta no Judaísmo antigo o mal não era atribuído a um ser em separado de Yaveh. Nas mais antigas escrituras judaicas, Yaveh aparecia como o Senhor do Universo, e tudo o que acontecia, tanto de mau quanto de bom, era causado por ele. Isto pode ser confirmado em Isaías 45-7 (escrito no século VI a.C.). “Eu forma a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu faço tudo isso”...
Pelo texto citado vemos que no Judaísmo antigo não havia separação nítida o autor do mal e do Bem, portanto entre satã e Deus. Segundo o Judaísmo antigo tudo provém de Deus e isto está de acordo com a Cabala que diz: “Yaveh, que é tudo, também contém tudo - o mal e o bem. Sua mão direita à misericórdia, à esquerda, a destruição”.
Somente em época mais recente foi que o aspecto destrutivo acabou sendo separado, tornando-se conhecido como o diabo. Originalmente na religião judaica não há referência a satanás como um ser separado, tanto é que no Livro de Jó, ele aparece como acusador e tentador do homem, mas ainda é visto como um súdito de Deus. Ele apresenta-se diante da corte celestial como um dos filhos de Deus, que age conforme as instruções do Senhor. No livro de Samuel, escrito no século X a.C. está escrito: “O Senhor tentou Samuel”. Enquanto isto, no Livro de Crônicas (21-1), um texto bem posterior do Velho Testamento, não é mais mencionado mais o Senhor como aquele que tenta induzir Davi a desobedecer à Lei e que assim ele seja alvo da ira de Deus. Já se percebe uma outra fonte a partir da qual o mal passou a existir na terra.
As religiões católica e as Evangélicas atuais ensinam que a origem do mal se deve a satanás o qual é o chefe dos anjos caídos. Mas, o que poucas pessoas sabem é que essa não é uma idéia presente nos antigos livros judaicos. A história da “queda dos anjos” não é propriamente uma doutrina existente nas escrituras antigas, já que nunca fez parte dos textos mais antigos do Velho Testamento, mas mesmo assim veio posteriormente se tornar a base principal dos ensinamentos atuais que falam muito sobre satanás e do lugar que lhe é atribuído no nosso mundo. A historia dos “Anjos Caídos” surgiu a partir de um e um livro bíblico apócrifo, um dos livros de Enoch. Segundo este a história dos anjos teria sido revelada a Enoch. Em uma visão, teria sido mostrado a Enoch um grupo de anjos, encorajados um líder que teria sido expulso da “corte celestial” juntamente com os seus seguidores e vindo para a Terra.
Há um outro livro escrito no Egito no princípio da era cristã que trata dos Segredos de Enoc. Fala da viagem que Enoch fez através dos diferentes céus, ocasião em que lhe foi mostrado os “Grigori” na prisão. Estes eram os anjos rebeldes que juntamente com o princípio chamado satanael, tinha afrontado Deus e rejeitando o Paraíso. E o Senhor diz a Enoch que um daqueles anjos, pertencera ao escalão dos Arcanjos, e acalentara a idéia impossível de igual a Ele em poder, e que por isso o expulsara das alturas...
Mas, é somente a partir dos livros apócrifos escritos no século I a.C. e I d.C. que mais freqüentemente surgem menções ao “anjo do mal”. Assim é que no livro dos Doze Patriarcas, um dos apócrifos do Velho Testamento chefe dos “anjos rebeldes” tem o nome de Belial, o principal antagonista de Deus, e que com Este compete em busca da lealdade dos homens.
Também pode ser mencionado o “O Livro dos Jubileus” que afirma que os “Sentinelas” vieram para a Terra e depois pecaram, mas que o príncipe deles, Samaael, teria tido a permissão de Yaveh para atormentar a humanidade. Aos pouco, os diversos nomes usados para descrever o líder dos anjos rebeldes acabaram se combinando num único personificado da origem e da essência de todo o mal.
Na historia da queda dos anjos, o grande arcanjo que se rebelou tinha sido um ser muito bom e poderoso, e por meio de sua própria reflexão do bem, ele trouxe o mal ao Universo.
Uma outra forma de explicar como o mal entrou no mundo é aquela história deformada que é atribuída a Adão e que faz parte do Pentateûco.
Agora queremos frisar que séculos antes da vinda de Jesus no Velho Testamento já havia ocorrido uma deformação da realidade, pois todos os “livros bíblicos” já haviam sido adulterados especialmente no que diz respeito à natureza e a origem de satanás, pois aquilo que consta da verdadeira Tradição, base da Cabala, é diferente em alguns pontos. Não houve propriamente uma rebelião dos anjos mais sim uma queda a partir de um dos elementos da Tríade Superior.
De um modo geral, podemos dizer que o lado exotérico da Religião Judaica retira satanás da Trindade e o coloca como um dos anjos caídos, enquanto que o lado secreto daquela doutrina situa-o originalmente numa etapa da própria criação, ou seja, num ponto a partir de onde a Tríade se desdobrou.
Não somente a Cabala Tradicional, mas várias doutrinas, filosofias e religiões são unânimes na afirmativa de que no inicio houve uma Tríade e que satanás surgiu a partir da própria Tríade.
Vemos que essa afirmativa da Cabala está em concordância com os ensinamentos de outras grandes religiões e filosofias. No Zoroastrismo a Tríade é constituída pelo “Ser Espiritual Primordial” + “Senhor da Sabedoria” (Ozmud) + “ Espirito do Mal ” (Arimã ). Na Doutrina do Fogo Sagrado, criada a partir dos ensinamentos de Apolônio, mas que na realidade apenas restaurou o que estabeleceu Zarathustra, cita a Trindade: Luz + Fogo + Água ( água = ponto em que todas as coisas surgiram ). A Cabala menciona Kether + Hokhmah + Binah ( sephirah da criação ). Na Religião egípcia antiga temos: Osíris - Isis + Seth[1] ( origem do mal ). No Bramanismo Brahma ( Principio Formador ) + Vishnú (conservador ) e Shiva ( Principio destrutivo ). No Bramanismo ( Brahma - Vhisnu[2] - Shiva ). Os Gnosticos Valentinianos Falam do Infinito Deus de Bondade + Demiurgo ( criador ) e do Redentor ( Cristo ).
Na Cabala Tradicional, e em outras religiões, satanás surgiu a partir da própria Trindade. Todas as doutrinas importantes falam, não de uma rebelião, da transformação de anjos criados puros em demônios por desobediência e revolta contra Deus, mas sim do desdobramento de um dos elos constituintes da própria Trindade.
É verdade que a Cabala fala da queda dos anjos mas não há unanimidade quanto a isso pois tem que ser levado em conta o lado exotérico e o lado esotérico, além disso há também o lado puramente simbólico. Se por um lado ela fala da “Queda dos Anjos “por outro lado ensina sobre a “Teoria das Emanações” em que está implícita a falência de um dos elos da Trindade.

A Teoria das Emanações diz que no início surgiu um ponto, o “sephirah” Kether o qual se desdobrou em mais dois “sephirot” respectivamente Hokhamah e Binah formando uma Trindade, a “Tríade Superior da Árvore da Vida”. A partir de Binah formaram-se sucessivamente mais 7 “sephirot” perfazendo um total dos 10 “sephirot” constitutivos da criação. Na medida em que as emanações foram se sucedendo à natureza da criação foi concomitantemente se degradando até atingir o seu nível mais grosseiro em “Malkut”. A “queda” teve lugar a partir de Binah que fazia parte da Trindade Inicial.
Mas a Cabala fala que nas primeiras emanações foram criados os anjos. Diz Zév bem Shimon Halevi: “A origem do mal, será lembrado, está na primeira separação entre o Mundo Beriático e Azilyut. Aqui o que é o criação o deixa a presença do Divino, e assim começa a imperfeição. Essa imperfeição aumenta à medida que cada Mundo inferior vem a existir, enquanto o número maior de leis maiores e um número maior de complexidades restringem os habitantes”.
Segundo a Cabala Tradicional ( esotérica) o mal começou com a Criação; suas raízes se encontram na primeira divisão do Imutável e Terreno enquanto que na Cabala exotérica ele começara após a criação, isto é, a partir dos anjos rebeldes.
O principio monástico leva-nos a uma conclusão deveras difícil de ser entendida se não for feito uma análise metafísica profunda. Se há um Os Deus Supremo, Infinito, é óbvio que direta ou indiretamente tudo provem Dele. É por isto que a Cabala afirma que o mal é algo inerente ao bem. Nada existe fora do Tudo Absoluto, assim sendo, o mal, em sua origem, deve ter emanado de Deus. Por quê? - Pergunta-se. - Os cabalistas explicam de várias maneiras. Alguns dizem que todo o mal advém do “pilar esquerdo”, da Forma e Severidade, o principio do Julgamento e do Rigor se estendendo por toda a Criação. O lado esquerdo, por exemplo, é algumas vezes chamado de “amargo” em oposição ao lado doce da Misericórdia. Para explicar isso algumas descolas de Cabala afirmam que o mal não existe fora da pessoa. Como tudo no universo tem consciência então deve existir uma consciência incivilizada que corresponde ao mal.
Assim existem 3 idéias básicas para definir o mal. Ele seria expresso por:
1 - Uma consciência individualizada ( um ser demoníaco ).
2 - Um egrégora do mal
3 - Polaridade oposta do Bem.
A existência da “força do mal” já está presente nas mitologias das mais primitivas civilizações que falam de uma força do mal no Universo e a qual está sempre em luta contra o Bem.
Os mais antigos textos religiosos conhecidos, em geral, mostram uma concepção do mal e do Bem bastante diferente dos conceitos atuais. Segundo os textos antigos tudo quanto existe surgiu a partir do Senhor e Criador Supremo, e assim, tanto o que nos parece ser bom quanto aquilo que tem a aparência de mal seria mandado por Ele. Assim se pode ver na religião egípcia antiga em que os deuses tinham essa ambivalência de ser uma coisa ou outra. Todos comungavam da majestade de um deus supremo, que distribuía o mal quanto o Bem, comportando-se, assim, como o autor de todas as coisas.
Na mitologia egípcia primitiva Seth identificava-se com a destruição, com a morte do Sol, através do assassinato de Osiris, mas ao mesmo tempo ele era venerado como o grande e poderoso “deus criador”. Com o passar do tempo Seth acabou se transformando em uma personificação da maldade.
A ausência de um princípio do mal único é visto mais especialmente no Hinduismo, que sem dúvidas trata-se de uma religião muito antiga, talvez a mais antiga de todas as ainda existentes no atual ciclo de civilização. Apesar de seu enorme Panteão de deuses, o hinduísmo interpreta suas divindades como manifestações de Um Deus Único, atribuindo a eles poderes tanto de destruição quanto de criação, tanto de morte quanto de vida. A maior parte da mitologia hindu, como acontece com tantas outras fira em torno de uma “batalha cósmica”, de um “combate espiritual entre as trevas e a Luz”. Mas, apesar dessa idéia central a respeito de um conflito universal não existe porém uma figura sobre a qual estaria o ponto focal do mal. Kali, a deusa da morte, que tudo devora, representa o anverso da Deusa Mãe que alimenta todos os seres vivos. Na veneração popular, o aspecto feroz de Kali a tem feito aparecer como a cruel deusa negra da destruição e do terror. Mas, na mitologia hindu, ela está bem longe do que poderíamos considerar como a concepção ocidental do diabo.
Não existe no Hinduismo qualquer tendência ao dualismo desde que Kali é apenas uma polarização da Deusa Mãe da Criação[3].

Notas
Osiris - Isis o grande Pai-Mãe. Esotericamente o Sol e a Terra. Personifica o Fogo e a Água metafisicamente. É o princípio Masculino e Feminino, o princípio germinal de todas as formas. ↑
Em outra palestra estudaremos as principais Trindades. ↑
No vasto panteão de deus do hinduísmo existem muitas trindades e Kali faz parte de uma delas. ↑