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O Fogo Sideral

Tema 0.416 · Temas Básicos · 2 934 palavras · cerca de 20 min

“Aqui são executadas, mediante o fogo, as obras da luz eterna ”.

Nuctemeron — Apolônio de Tiana.

Ilustração do documento original

Nesta palestra veremos alguns ensinamentos inerentes ao 6º Aspecto do Fogo, que é deveras importante no desenvolvimento espiritual do ser humano e que, em grande parte, constam dos ensinamentos básicos de Apolônio. .

Estamos diante de um aspecto imaterial do Fogo, naquele que é citado na Bíblia quando Deus falou a Moisés do meio de uma sarça ardente que não se consumia. Neste caso a manifestação do 6º ou mesmo do 7º Aspecto do Fogo.

Por outro lado a Bíblia também fala de uma coluna de fogo que se movia de noite diante dos israelitas durante o êxodo no deserto. Também neste caso trata-se do 5º Aspecto do Fogo.

O Fogo Astral, por ter muito a ver com as atividades da consciência, também é conhecido como Fogo da Consciência ou Fogo de Cérbero.[1]

O Fogo Astral sempre está muito perto de nós e é algo que queima mais que o fogo do primeiro nível, mas que não é quente no sentido físico. Ele não promove alterações físicas da matéria, mas sim das faculdades de manifestação da mente. Não há, por meio dele, aceleramento molecular como acontece pela ação dos quatro primeiros aspectos do fogo.

O Fogo Astral não ocasiona agitação molecular característica física do calor porque não há em seu nível de atuação molécula alguma para ser acelerada. Ele acelera o que existe nesse nível que é a matéria astral, a energia sutil e conseqüentemente atua sobre as interações psíquicas.

Os conflitos e angústias, em outras palavras o sofrimento mental são decorrências de interações psíquicas, de conflitos entre o errado e o certo, entre o demônio pessoal e o Deus pessoal, entre as duas polaridades do ser. Trata-se de um choque de polaridades opostas. Quando o choque é lento, é mais ameno o sofrimento, mas quando intenso está sujeito o sofrimento ser tremendo. O sofrimento psíquico é sempre fruto dos conflitos entre situações opostas.

O Fogo Astral é, exatamente, o fogo que queima na consciência, pois se manifesta como uma forma de energia capaz de acelerar de um modo marcante os processos mentais superiores no indivíduo. Na Igreja Católica ele está representado pelo fogo do purgatório, idéia primeiramente exposta pelo Teólogo Thomaz de Aquino.

O Fogo Astral só é atenuado quando o adepto consegue atravessar aquilo que é citado como o Mistério da primeira hora do Nuctemeron de Apolônio. Nesta etapa o demônio interior, o lado diabólico do ser, já começa a reconhecer o Poder Superior e a respeitá-Lo, por isso diz o “Mistério da Primeira Hora”: “Os demônios em conjunto entoam louvores a Deus. Eles perdem a maldade e a ira.”

Como, então, entender este mistério expresso em linguagem simbólica: “Os demônios em conjunto entoam louvores a Deus”? - Isto diz respeito ao reconhecimento a Deus, o lado negativo do ser que o levou a se afastar e deixar de reconhecer a Deus, volta progressivamente vem a reconhecê-Lo.

O ser humano pressente a existência de algo transcendental que por educação ou hábito ele costuma dizer ser Deus, e que O aceita como um Ser Supremo do qual se diz servo. Mas, na realidade isto geralmente nada mais significa do que simples palavras, pois aquele que reconhece realmente Deus pelo sentimento, obedece-O através das Suas leis demonstrando isto pelo reto agir, zelando pelo que é correto, o que é certo, pois Deus é Perfeição Divina. Aquele que faz um mundo de coisas erradas segundo o seu código pessoal, de forma alguma aceita Deus, pois como diz o Apostolo: “Mostra-me em atos o que dizes em palavras”. Muitas pessoas dizem obedecer a Deus, mas apenas em palavras porque os seus atos demonstram exatamente o inverso.

Todo processo do desenvolvimento espiritual tem como única meta, o reconhecer Deus. Quando o espírito reconhece plenamente Deus então ele chegou à meta, chegou à pureza, até então, tudo se processa passo a passo. Exatamente quando ele começa realmente a reconhecer Deus significa que a sua natureza demoníaca já começa a cantar louvores a Deus que os seus demônios pessoais entoam louvores a Deus. Aí é que o demônio pessoal perde a sua ira primitiva.

Cérbero, o monstro guardião do rio Styx que é simbolicamente o limite de separação entre o inferno e o mundo dos seres humanos, está vigilante. Com o despertar do amor o ser pode atravessar o Styx no sentido do mundo humanizado. Com o amor no coração o ser suporta a barreira de fogo astral que é o Styx, assim tem menor nível de fogo para ser atravessado, simbolicamente ele consegue ultrapassar o fogo da goela de Cérbero [2], o cão tricéfalo da mitologia. Com o amor ele pode atravessar ileso o fogo sideral simbolizado pelas das bocas de fogo de Cérbero.

O homem vive preso a inúmeros desejos e desejo, segundo Budismo, é a causa de todo o sofrimento não físico do ser humano. Mesmo o desejo positivo está sujeito a ser fonte de sofrimentos, por isso não se deve desejar, deve-se ter o mínimo possível de desejos. Apenas deve-se ter em mente o reto pensar e o reto agir. Como disse Jesus: “Procura o reino de Deus e tudo o mais te será dado por acréscimo”.

Cérbero tem três cabeças de cujas bocas sai fogo, diz o simbolismo.

A Primeira boca de Cérbero é o Apego, o qual faz nascer o desejo. É através dos desejos que a pessoa sente-se queimar pelas chamas do Fogo Sideral.

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Ilustração do documento original’

CÉRBERO

A doutrina deixada por Buda faz ver todo o sofrimento humano é de alguma forma decorrente do desejo.

É o desejo de ter as mais diversas coisas é o que move a competição desonesta, o que alimenta o sentimento egoístico das pessoas. O homem moderno vive sendo sacrificado todos os dias como por conta dos sistemas de comunicação de massa que geram o desejo por uma gama imensa de falsas necessidade. Geralmente a grande maioria das pessoas não entende que está imersa num oceano de ilusões programadas, que os maiores sacrifícios de suas vidas resultam do desejo de possuir. É a pessoa que, via de regra, ainda não chegou ao entendimento de que todo aquele que possui geralmente é possuído razão pela qual resulta grande parte dos sofrimentos humanos. [3]

O mundo moderno está cada vez mais alicerçado em sistemas de criação de falsas necessidades. Uma das bocas de Cérbero é alimentada pelo “marketing” moderno, contando com os meios eficazes de divulgação, autênticas fábricas de ilusões. Os anúncios mostram o lado fascinante dos bens materiais e aquele que vê sente-se dominado pelo desejo de possuir, mas logo sente em si o grande queimor do Fogo Sideral sob a forma de dor de consciência por não poder cumprir com os compromissos assumidos com a aquisição de uma infinidade de coisas dispensáveis. Comprou e tem que pagar e daí o conflito ou de não poder fazê-lo ou de simplesmente enganar.

O Fogo Sideral queima através dos desejos, pois uma das formas de ataque de Cérbero é exatamente o desejo, e o que é pior, cada desejo despertado tem em si um desejo oposto. Isto é o que nos ensina Apolônio.

“Passar pelo fogo de Cérbero equivale a um auto-esvaziamento pelo auto-sacrifício” - Van Jan Rijckenborgh.

A segunda boca de Cérbero é o MEDO. A viagem tem muitos obstáculos e o peregrino os teme, muitas vezes ele para de caminhar e tantas outras vezes ele até mesmo retrocede, pois ainda não tem a precisa confiança para enfrentar Cérbero e transpor o Styx. Treme diante da boca chamejante de Cérbero e assim permanece preso à margem infernal do rio cheio de medo dos novos eventos.

O discípulo na senda ignora ou, simplesmente não põe em prática os ensinamentos contidos nas doutrinas deixadas por Salomão. Esquece o que o Grande Mestre ensinou e em especial no ensinamento dos Cinco Passos da Senda. Neste ensinamento está claramente definido o que se faz preciso para tornar a transposição do Styx serena e segura. Por não entenderem ou desconhecerem o que nos ensinou o Grande Mestre Salomão muitos ficam sem ao menos iniciar a travessia do Styx em busca da Luz.

Na vida vemos pessoas que temem buscar a luz, que temem a busca da verdade receando perder posições na vida, receando perder bens, serem reprovados, contestados, receiam pela perda de conceitos, receiam até mesmo pelas simples críticas, e um mundo de outros valores.

Assim é que Cérbero pela milésima vez escancara a sua tremenda boca queimando com o Fogo Astral todo aquele que sob a forma pelo medo das mais variadas formas se deixa dominar. Mais uma vez Cérbero tenta devorar o discípulo na senda.

Muitos têm medo da critica, medo dos processos mágicos, e assim por diante. O mundo está cheio de Nicodemos, aquele sacerdote membro do Sinédrio, que sentindo a importância de Jesus quis procurá-Lo, mas teve medo de fazer isto claramente, e então resolveu fazê-lo às caladas da noite, no silêncio da madrugada para que não fosse visto visitando Jesus.

Muitos homens são cativos do não mudar, nestes existe uma tremendo inércia, uma resistência exagerada às mudanças na vida pelo medo de conseqüências. Este são os que não preenchem o primeiro passo da senda que é a Fé.

O medo está sujeito a levar a pessoa para uma série de mecanismos de defesa indesejáveis. Entre tais mecanismo citamos o se aliar. A pessoa com medo se alia, se liga, estabelece pactos e assume compromissos ocultos muitas vezes envolvendo o lado negativo das coisas. São os que ao invés de enfrentar Cérbero aliam-se a ele, mas Cérbero é impiedoso e acaba por devorá-los.

Existe uma forma diferente da pessoa se aliar e que também é muito perigosa. É quando a pessoa alia-se incondicionalmente à um sistema, á uma filosofia, ou mesmo á uma religião, porém tornando-se fanático. O fanatismo é cego, jamais é um caminho de luz e sim um poço cuja saída não é fácil. É difícil estabelecer o limite onde acaba o fanatismo e começa o despotismo, a tirania e mesmo a crueldade. A história das grandes religiões revela que muitos foram aqueles que por medo de castigos chegaram a se tornarem fanáticos. Foram as inquisições, o degredo, e mesmo as guerras fratricidas levadas a cabo pelo fanatismo religioso. Na realidade as práticas destrutivas dos fanáticos representa uma face do medo de concorrência e coisas assim.

O medo muitas vezes alimenta a prepotência, o orgulho, um egocentrismo para mostrar uma face que não é a sua, para demonstrar aquilo que não é, mas que julga poder através dela se impor aos outros.

A terceira boca de Cérbero é a DÚVIDA. As maiores vítimas desta goela de Cérbero são as pessoas que não têm bastante fé mas que falta especialmente o entender o primeiro passo da senda ensinado por Salomão. A essas pessoas faltam-lhes essencialmente o discernimento, a firmeza e a persistência. A dúvida faz com que a pessoa ache não ser compensador tentar atravessar o Styx, não tenha o tanto necessário de certeza de que o outro lado do rio existe e é melhor. São as pessoas que dificilmente se decidem, que ficam esperando algum sinal de certeza, mas ignora que a certeza está no fim da caminhada, para encontrá-la tem-se que encetar primeiro a caminhada baseado na fé e na esperança de encontrar.

No ser encarnado, quando nele é visualizado Fogo Sideral este é percebido como um fluxo de energia fluindo ao longo da coluna vertebral. Essa forma de visão do fogo recebe o nome de “As Nove Serpentes Ígneas ” e que é representado pelo Caduceu, o símbolo da medicina.

No caduceu, ou Bastão de Hermes, apresentam-se como duas serpentes enroladas simetricamente num bastão. As duas serpentes representam a dupla natureza do Ser. Elas se enrolam três vezes simbolizando a “Árvore da Vida”.

Ilustração do documento original

O caduceu também é chamado de “A Vara Mágica de Mercurius ”. Mercurius, o arauto dos deuses da antiga Grécia. Na alquimia é a representação do enxofre e do mercúrio.

O caduceu tem interpretações simbólicas em muitos sistemas de ensinamentos místicos, mas em todos está sempre relacionado com o Fogo Sideral.

Não somente Mercúrios, mas também Isis, a Deusa da Aurora, é representada com um caduceu. Diz a mitologia que Mercúrios recebeu de Apolo uma vara com a qual chegou a Arcádia onde certa vez encontrou duas serpentes que se mordiam. Então ele atirou o bastão que havia recebido de Apolo entre as duas serpentes que logo se enrolaram na vara dando três voltas, e assim elas tornaram-se novamente una. As duas serpentes simbolizam o que é errado e o que é certo.

A esse respeito diz o Mistério da Segunda Hora: “AS SERPENTES ÍGNEAS ENROLAM-SE EM TORNO DO CADUCEU E O RELÂMPAGO TORNA-SE HARMONIOSO”.

Trata-se aqui do Equilíbrio dos Opostos cujo símbolo é o ônix[4]. As serpentes dominam-se mutuamente transformando-se em uma só mostrando a anulação da bipolaridade.

Vemos no Caduceu que boca das serpentes não atingem o ponto mais alto da vara (a vara é o indivíduo ) indicando que a este é dado o poder de controlar a dupla serpente que existe em cada um. Na mitologia é com o caduceu que o viajante arma-se visando afastar de si Cérbero com sua tríplice cabeça.

Já falamos em temas bem anteriores sobre o que algumas doutrinas orientais afirmam a respeito do fluxo de energia no corpo. Existem três canais ao longo da espinha vertebral, um deles, o central, é chamado de Soshuma e dois laterais chamados de Ida e Pingala, através dos quais flui a energia sutil, o Fogo Astral, e isto corresponde exatamente o que o Caduceu graficamente representa.

O ser pecaminoso é dominado facilmente por Cérbero cujo latido faz o próprio inferno estremecer, como diz a Tradição.

Todo aquele que desejar atravessar o Styx deve possuir o Bastão de Mercurius, do contrário ele não terá como afugentar o impiedoso Cérbero. Sem que haja equilibrado a sua dupla natureza não há como atravessar o Styx, pois Cérbero o impedirá de fazê-lo, assim o caminhante da senda deve antes haver devidamente preparado o Caduceu.

Ter preparado o caduceu é o mesmo que no Santo Graal significa preparar a sua espada para encetar a jornada de busca do encontro místico com o Santo Graal.[5]

Na Iniciação aos Mistérios do Fogo é mostrado o caduceu não material. Vê-se uma haste envolvida por duas chamas, uma clara e outra escura, hora dominando uma, hora dominando a outra, chamas claras e chamas escuras alternadamente. Isto é a visão astral do Fogo Sideral que existe em todo indivíduo encarnado, seja qual for o seu grau espiritual.

Quando o discípulo desenvolve esta capacidade relacionada com a visão do Fogo Sideral ele pode não apenas perceber o seu grau pessoal de envolvimento, mas também o de uma pessoa qualquer lhe possibilitando sentir diante de quem está, em outras palavras, a ele é facultado ver as pessoas por dentro.

Quando uma pessoa torna-se um iniciado na Magia do Fogo é possível ser evidenciado nele a presença do fogo sideral. Esta visão é tanto mais nítida quanto mais desenvolvido espiritualmente for a pessoa. É comum que durante as primeira horas que se seguem à uma iniciação na Magia do Fogo um sensitivo poder ver pairando sobre o iniciado um manto de luz, uma espécie de nuvem energética luminosa que na realidade é a presença do Fogo Sideral ao qual ele estabeleceu um vínculo de harmonia.

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Notas

  1. Diz a Mitologia: Cérbero, monstro com tríplice cabeça de cão guardião da margem infernal do rio Styx. Diz a Mitologia que existe ( simbolismo ) um rio, o Styx, separando o reino infernal do reino humano e que Cérbero é o guardião que tenta impedir a passagem daquele que estiver no mundo infernal. Com sua tríplice boca ele tenta todas as formas possíveis para que o espírito não consiga atravessar o Styx. Sair do inferno e chegar à outra margem, ao mundo humano, única saída possível ao desenvolvimento espiritual através das encarnações sucessivas. Cérbero é o guardião daquele umbral e sua missão é evitar que a alma consiga atravessar o Styx e penetrar no mundo dos seres humanos. ↑

  2. O símbolo da magia do fogo é uma lamparina e também Cérbero, o guardião do umbral. Assim aos iniciados que ultrapassem a segunda hora é dado o poder sobre os caies. O cachorro é dócil para o iniciado que haja atravessado o Styx, que haja vencido Cérbero. ↑

  3. São quatro as fases evolutivas da pessoa no que diz respeito ao possuir

    Na primeira fase a pessoa não possui, mas mesmo assim é possuída, pois o desejo de possuir a torna infeliz.

    Na segunda fase ela possui, mas é possuída pelo que possui. É aquele que teme perder, que sofre para conservar o que possui e que se desespera quando perde, seja algum bem material ou mesmo uma posição social, política, etc. É o escravo dos bens materiais.

    Na terceira fase ela possui, mas não é possuída pelos bens. Pode ter empresas e todos os bens da terra mesmo assim continua desprendida de tudo. Na realidade é um grau de desenvolvimento espiritual muito elevado e que raríssimas vezes encontramos no mundo.

    Na quarta fase, a do asceta, que nada possui e nem deseja possuir. Aqui vemos Gandhi, vemos Jesus e tantos outros iluminados que viveram na terra. Esta é a etapa em que a pessoa neutralizou o fogo da primeira boca de Cérbero. ↑

  4. O ônix é uma pedra com listas simétricas, brancas e prestas em exatas proporções. ↑

  5. Em nossos estudos ainda não atingimos o ponto de podermos revelar muitos detalhes a respeito do SANTO GRAAL. ↑