Os Rituais
"Onde não há ritual há desordem" . José laércio do egito, frc.
Nas Religiões e Sociedades Iniciáticas o que mais causa impacto nos novos adeptos, sem dúvidas, são os símbolos e os rituais.
Nesta palestra inicialmente vamos procurar estabelecer uma conceituação para o termo "ritual". Encontramos em qualquer dicionário uma definição mais ou menos assim: "Ritual, aquilo que diz respeito ao rito e ao cerimonial. Rito, conjunto de cerimônias de uma religião, seita ou crença. Qualquer cerimonial etiqueta e conjunto de regras a seguir".
De uma maneira geral pode-se definir o ritual como uma série de regras que regem os movimentos e gestos de qualquer cerimonial, ou mesmo de qualquer atividade animal, por isto acreditamos que é válida a definição "conjunto de regras a seguir...”.
Muitas vezes ficamos chocados quando nos defrontamos com um ritual diferente daquele que nos envolve no dia a ida, mas isto só acontece quando o ritual é novo para nós, quando ele foge à rotina, e quando difere daqueles que executamos instintivamente de forma imperceptível durante as 24 horas do dia.
O homem é um ser tanto ou quanto organizado e como tal, ele é por natureza ritualista, pois não há organização possível sem que haja alguma forma de ritual. Se analisarmos com atenção e em profundidade todas as atividades que executamos, aquelas que nos envolvem durante toda a nossa vida, veremos com surpresa que exercemos um permanente e complicado ritual sem que nos apercebamos disto. O homem geralmente só percebe aquilo que lhe quebra a rotina porque só desta maneira a sua atenção é despertada.
Qualquer pessoa, que assiste às cerimônias da Igreja Católica pela primeira vez, terá sua atenção atraída pelos rituais; igualmente quem assiste a uma sessão maçônica, etc. Mas, aqueles rituais não são mais complicados do que aquele que executamos sem apercebermos, desde a hora em que acordamos pela manhã até a que adormecemos a noite, e mesmo dormindo o organismo ainda se comporta segundo um certo ritual. Cada pessoa tem um modo próprio de dormir, um lado de deitar, uma posição para os membros, uma hora para acordar, às vezes o hábito de ir à cozinha e comer algum alimento, tomar água e atender à alguma necessidade dentro de uma de uma forma precisa como se uma noite fosse uma cópia exata da outra. Isto nada mais é do que uma forma ritualística. Cada pessoa tem o seu modo próprio de se levantar pela manhã obedecendo a um determinado horário; trocar-se de um modo peculiar, de ir ao banheiro, de fazer a higiene pessoal, de tomar a primeira refeição; tudo isto seguindo um modo e uma seqüência que se repete todos os dias obedecendo a um conjunto de regras, portanto executando um ritual.
A maneira como se faz alguma coisa repetitivamente se torna um rito. Quando algo é executado, nas primeiras vezes surge uma maneira tanto ou quanto desordenada, mas logo a pessoa procura estabelecer uma rotina, repetir nas vezes seguintes conforme um determinado padrão de ordem para facilitar e tornar mais rápido o trabalho. Ora, essa ordem que se estabelece é um ritual. Para toda e qualquer atividade que se repete, o homem logo estabelece um rito, um "modus faciendi" e isto é um ritual. O rito estabelecido, portanto, visa à ação automática, e uma ordenação nas etapas de consecução do trabalho de maneira tal que o trabalho se torna muito mais fácil e eficiente.
Um mecânico de automóvel quando vai efetuar um conserto sabe quais os elementos do conjunto que devem ser soldados primeiro e quais os últimos. Isto não indica que a coisa não possa ser executada de um modo diferente, mas o que é certo é que se obedecendo à seqüência, ao "ritual" adequado, tudo se tona mais fácil e simples.
Repetir uma atividade qualquer segundo uma mesma seqüência, isto é, obedecer a um conjunto de regras pré-estabelecidas também é pura e simplesmente ritual. O "modus faciendi" de qualquer coisa segue sempre a um rito, por isto se não houver rito haverá desordem. Seja qual for o tipo de atividade que se execute há sempre a necessidade de uma rotina a seguir, e isto é ritual. Se assim não for aquela atividade é desordenada ou mesmo caótica.
Qualquer médico ao iniciar uma atividade o faz segundo uma certa seqüência, e seqüência é rito. A maneira de examinar é um rito perfeito. Um paciente para ser examinado, antes é interrogado e o clínico segue uma seqüência de indagações, gestos e movimentos segundo uma certa rotina.
Não se criaria gado sem ter antes as pastagens, ou rações, nenhum engenheiro faria uma planta sem antes tomar conhecimento do terreno e da finalidade da obra; nenhum juiz condenaria ou absolveria um réu antes de ler os autos, de escutar a acusação e a defesa, e de tomar ciência das provas. Ninguém fala antes de abrir a boca, ninguém acorda antes de dormir e nem morre antes de nascer. Há, pois, uma seqüência para tudo, e seqüência é rito.
Para um zoólogo o mundo animal é extremamente ritualístico. As atividades dos animais refletem muito a harmonia da natureza (vide a palestra: "AÇÃO DO RITUAL")
Um animal para atacar, para se alimentar, para se defender, e para se reproduzir, segue uma rotina característica; a vida dele é pautada segundo normas quase imutáveis e aquela rotina é um perfeito ritual. Desde os animais mais elementares até os mais evoluídos na escala biológica tem um ritual que lhe é característico. Há rituais bem marcantes no reino animal, especialmente no que diz respeito aos ritos de acasalamento.
A moda de vestir, a maquilagem, as boas maneiras, tudo isto é parte do ritual sexual do ser humano. A mulher se engalana para despertar o interesse matrimonial, e isto nada mais é do que a natureza agindo ritualisticamente.
Pelo que dissemos, ritual pode ser considerado como: Modo e fazer quaisquer coisas ordenadamente = Modus Faciendi.
Uma fábrica, um grande escritório apresenta um verdadeiro espetáculo cerimonial. Cada um funcionário faz algo segundo uma técnica e dentro de uma coordenação e integração perfeita. Uma linha de montagem de um estabelecimento fabril é um espetáculo de coordenação entre a atividade das máquinas e a dos homens, é um rito integrado. Se não fosse aquele ritual a fábrica se transformaria numa balbúrdia e nada funcionaria a contento, haveria somente desordem, um verdadeiro caos. Isto já vai além de um simples "modus faciendi", porque indica um sentido de ordem, um sentido de organização funcional.
O que seria de uma empresa em que o faxineiro exercesse atividades no conselho diretor e ocupasse a cadeira do presidente, enquanto este fizesse a limpeza das salas? Há uma distribuição de direitos e de deveres; cada um deve exercer uma atividade que em conjunto perfaz um ritual administrativo de ordem. O ritual, portanto, é indispensável à manutenção da ordem.
Numa reunião deve haver sempre uma seqüência a ser seguida para que todos possam falar e se manifestar sem que ocorra desordem, e isto se faz segundo um padrão de organização, de ordem, portanto é também um ritual. Quando uma reunião não segue esse padrão imediatamente ocorre balbúrdia.
Um desfile militar é um espetáculo ritualístico inegável.
Já foi dito por alguém que a única diferença entre um exército e uma turba reside tão somente no padrão de ordem. Se realmente for assim, a diferença é que o exército é um conjunto de homens que obedecem a um certo ritual, enquanto uma turba irresponsável é destituída de qualquer sentido ritualístico.
Vimos o segundo papel do ritual:
"MANUTENÇÃO DE UM PADRÃO DE ORDEM”
Por incrível que pareça uma competição esportiva é um ritual, é um ritual que comporta uma série de alternativas, porém sempre dentro de um sistema de regras. Tomemos por exemplo o futebol. De um modo geral há um conjunto de regras, um ritual em campo, e a beleza do jogo está no aproveitamento das variações possíveis dentro dos limites estabelecidos pelas regras. Há rituais restritivos, sem possibilidades para alternativas, e há os que têm uma certa margem de variações possíveis. No futebol há ritual porem com margem para muitas variações e nisto é que reside a beleza das competições esportivas em que há a utilização daquelas variações possíveis sem transgressões das regras, isto é, sem prejuízo do rito oficial. A diferença entre uma "pelada" e um clássico de copa mundial está no fato de que na copa não há transgressões, há o uso técnico de todas as possibilidades, enquanto na "pelada" há transgressões das regaras, há, portanto, menos rito.
Se um médico de um determinado país for para qualquer outro ele sabe como fazer uma consulta, como entrar numa sala de cirurgia, como exercer a sua profissão em qualquer hospital. Um magistrado do Brasil pode presidir um júri popular na França, por exemplo, apenas necessitando para isto conhecer as leis daqueles pais. A maneira de atuar no tribunal é praticamente a mesma.
Um funileiro, um eletricista, um encanador, um sacerdote, ou ministro de qualquer quer religião, pode facilmente exercer sua profissão em qualquer lugar do mundo, isto porque sua atividade é regida por um rito comum a todos os povos.
Igualmente qualquer maçom do Brasil, ou "oficial" de qualquer “Ordem Iniciática, bem como os seus membros sabem se conduzir em qualquer Loja de outra jurisdição. Se não fosse o ritual isto não seria possível. Se cada Loja fosse alterando o ritual, com pouco tempo um membro de uma Loja não seria mais capaz sequer de reconhecer os membros de outras Lojas e isto chegaria a um ponto tal que em pouco temo não mais haveria pontos em comum entre as várias lojas, não mais seriam reconhecidas nem mesmo as cerimônias”.
Um sacerdote católico sabe e pode exercer o papel de celebrante em uma missa no Japão, enquanto um oficial de uma “Ordem Iniciática sabe como exercer qualquer função numa convocação fora de sua pátria. Acontece assim porque as cerimônias obedecem a rituais”.
Eis a 3ª razão para a existência do ritual:
"CRIAR UM SENTIDO DE UNIDADE PARA A CONSERVAÇÃO DA ESTRUTURA DE UMA ORGANIZAÇÃO".
O ritual cria um sentido de unidade, de identificação entre os membros, conservando assim a estrutura da organização. Se fosse permitido transgredir o ritual tudo acabaria por perder a semelhança e com isto os ritos se tornariam inidentificáveis entre si.
A manifestação do poder de Deus exige uma forma de ritual, há uma maneira que deve ser seguida sempre para o aproveitamento das forças da natureza. Não é assim? - Por que se plantam cereais só nos meses certos? Exatamente porque as leis naturais exigem uma certa seqüência, ou seja, exige a obediência de um Ritmo – Princípio Hermético. Por incrível que pareça, tudo isto é ritual; até o plantar e o colher. Deus exige um rito para que a sua manifestação se faça sentir em qualquer lugar. Se rito não há ajuda, a natureza requer ritual porque ela é cíclica.
Nas religiões e Sociedades Iniciáticas o ritual leva a um aproveitamento das leis naturais. Quando um membro se ajoelha, certas correntes magnéticas que predispõem a mente a se tornar receptiva para certos processos passam a fluir para o organismo.
Muito poderíamos falar sobre a utilização das leis naturais ocultas nos rituais iniciáticos, mas isto seria revelar princípios que não devem ser publicamente revelados.
Também para um perfeito entendimento desses princípios seria precisos conhecimentos sólidos de metafísica.
Eis a 4ª razão para o ritual:
INTERAÇÃO ENTRE PODERES SUPERIORES E O HOMEM
Há uma quinta razão que passaremos a estudar e que é de natureza puramente psicológica e que diz respeito ao nível intelectivo do Homem (Vide a palestra: A Percepção Abstrata e a Percepção concreta).
Nenhum psicólogo põe em discussão as considerações que faremos a seguir. Isto não é ficção e sim psicologia pura e oficial.
De um certo modo geral pode-se separar os seres humanos em dois grupos:
O - Grupo Intelectivo, ou como alguns chamam “Grupo Cortical”;
B - Grupo Subintelectivo, ou como alguns chamam “grupo subcortical".
Entre os mecanismos de ação dos rituais temos aqueles que diz respeito à bandeira como eles funcionam como "suporte mágico" e, indo mais longe ainda, podemos dizer que o ser humano essencialmente visual requer um coeficiente elevado de percepções de forma, cores e movimentos, para manter a sua mente devidamente ligada a alguma coisa.
Para as pessoas do grupo intelectivo aquelas concretizações são menos importantes, contudo, para as subintelectivas, elas são indispensáveis. O homem subcortical vive preso às concretizações e por isto ele se liga muito às religiões de estruturas ritualísticas. As religiões e organizações desprovidas de concretizações quer seja em forma de símbolos quer em rituais, elas jamais apresentam interesse para aquele tipo de pessoas.
Nas "Ordens Iniciáticas" e em todas as religiões existem membros de todos os níveis intelectuais e não se pode dizer que todos não sejam importantes. Um edifício para ser completo necessita tanto da pedra quanto de tijolo e até dos cristais mais sofisticados. Um não teria sentido sem o outro, por isto nas ordens e religiões torna-se importante a ritualística, porque assim aqueles que necessitam concretizações para o abstrato podem satisfazem aquela necessidade íntima e assim sentem-se inclinados a permanecerem.
Esta é a 5ª razão para o ritual.
O RITUAL É A CONCRETIZAÇÃO NECESSÁRIA PARA A PERCEPÇÃO MÍSTICO RELIGIOSA DO HOMEM SUBCORTICAL.
Sem o ritual uma "Ordem Mística só atenderia a uma faixa de indivíduos tendo que deixar à margem dos seus ensinamentos um outro grupo importante de pessoas e com isso deixaria de ser universal.
Para concluir diremos que esses são as principais razões para a existência dos rituais e que em decorrência da própria natureza do homem é impossível eliminá-los sem conseqüências.
Qualquer doutrina que abandona o ritualismo por certo logo perece por não mais poder atender a algumas exigências da própria natureza psicológica dos indivíduos.
A razão pela qual a natureza em geral, e os seres em particular são tão dependentes do ritualismo é porque um dos princípios que regem o universo é o conhecido Princípio Hermético do Ritmo.
