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Pimandro e a Queda de Sophia — 7-12

Tema 0.695 · Temas Complementares · 1 447 palavras · cerca de 10 min

“ Fixa em tua conscicicia o que queres apreneder e eu te instruiriei ”.

Pimandro.

PIMANDRO E A QUEDA DE SOPHIA

Ilustração do documento original

Agora vejamos o que está escrito no Corpus Hermeticum, no diálogo de Hermes com Pimandro a respeito da criação do mundo material:

7 - E Ele respondeu: “Fixa em tua consciência o que queres aprender e eu te instruirei”.

8 - Com essas palavras o seu aspecto mudou, e logo a seguir tudo se tornou imediatamente claro para min; e tive uma visão prodigiosa; tudo se transformou numa serena e deleitosa Luz, e eu me deliciava sobremaneira à sua visão.

Aqui Hermes fala da visão que teve da luminosidade excelsa da Tríade Superior, de um momento antes da queda de Sophia.

9 - Pouco depois surgiu, numa parte dela, horrível e sombria escuridão, que se movia para baixo e girava em espirais tortuosas, uma obscuridade dirigindo-se para baixo, sendo por sua vez, assustadora e sombria, rolando-se como uma serpente, segundo me pareceu. E então essa escuridão transformou-se numa natureza úmida e indizivelmente confusa, da qual se levantou uma fumaça como a que provém do fogo, ao passo que ela produzia um som como de um indescritível gemido.

Neste parágrafo Hermes descreve o inicio da queda de Sophia. Dissemos que houve uma polarização entre os dois Princípios oriundos do Pai, Kristos e Sophia, mas tenha-se em mente que a dissociação não foi absoluta, em Kristos restou algo de Sophia e vice-versa, conforme no mostra o princípio do Tao.

Ilustração do documento original

Por esta razão em Sophia mesmo sendo uma Luz da Tríade Superior, ainda assim dela surgiu o lado úmido, o aspecto negativo. De uma parte dela, surgiu uma horrível e sombria escuridão, que se movia para baixo

Neste parágrafo é descrito por Pimandro a queda do Espírito, a queda em espiral escura, deslocando-se sinuosamente tal qual uma serpente. ( Expressa na árvore da vida como a Espada Flamejante ). Algo tortuoso pelas oscilações, vacilações, para um lado e outro das colunas da “árvore” e, na medida em que se afastava da Tríade Superior, mais escura se tornava pois à cada vez ela mais se distanciava da Luz Pura.

Aqui Hermes fala da natureza úmida, indicando a transformação do lado água quintescenciada, seca, em água impura, úmida, nos seus níveis mais inferiores da sua natureza sétupla. O que era puro e simples tornou-se impuro e confuso ( complexidade).

Da água levantou-se uma fumaça. Hermes está se referindo a formação do ar. A primeira ação do fogo sobre a água, do Princípio Kristos direcionado ao Principio Sophia visando o seu resgate. O Princípio Fogo ( Kristos) agiu sobre o Principio Água formando o ar ( quintessência do ar).

Diz o parágrafo, da água se levantou uma fumaça como a que provém do fogo. Trata-se da criação do ar. Quando tal aconteceu ouviu-se no mundo inferior o primeiro ruído audível, descrito por Hermes como um som de um indescritível gemido. E este som que é mencionado como sendo o alento de Sophia quando se deu conta do equivoco cometido. Sophia gemeu pedindo ao Pai que a levasse de volta à Origem.

10 - Então da úmida natureza ressoou um grito, um chamado sem palavras, que comparei à voz do fogo, enquanto que da Luz se propagou sobre a natureza um santo Verbo, e um fogo puro ergueu-se fulgurando da natureza úmida, fogo sutil, impetuoso e poderoso.

Ouviu-se o chamado de Sophia, como um gemido, um chamado sem palavras levado pelo vento. Era o primeiro som audível pois que sem o ou a matéria som não se propaga. Foi com o surgimento do ar que ocorreu o primeiro som audível expresso na voz do vento.

parágrafo ainda fala do fogo puro que se ergue fulgurando da natureza úmida, fogo sutil, impetuoso e poderoso. Trata-se das primeiras transformações da natureza úmida, determinadas pelo principio Kristos, o regresso das primeiras frações de Sophia.

11 - E o ar, pela sua ligeireza, segui-se ao fogoso Alento; levantou-se da terra e da água até o fogo, de modo que parecia suspenso nele.

12 - A terra e a água permaneceram onde estavam, intimamente misturadas, de modo que a terra e a água não podiam ser separadamente observadas; e eram continuamente movimentadas pelo Alento do Verbo, que pairava sobre elas.

Neste parágrafo é citado pela primeira vez a presença da terra, mas ainda misturada com o elemento água.

Em síntese, vemos que no início da criação do mundo material existiam dois princípios, o Princípio Água e o Princípio Fogo. A água, pela sua própria natureza, tende a se tornar impura e descer enquanto o inverso ocorre com o fogo. Assim o Princípio Água caiu, mas afim de promover a sua volta a sua origem superior o Principio Fogo agiu sobre ela criando o ar. Deste originou-se a matéria densa, expressa inicialmente como terra a qual serviu de apoio ao elemento água visando a sua purificação.

De início a água e a terra estavam indiferenciados, e coube ao fogo separa-los terra. Numa compreensão moderna podemos dizer que de início a terra tinha uma constituição liquida em decorrência do calor; água e os minerais estavam liquefeitos tornando-se assim intimamente misturados, de modo que não podiam ser separadamente observados. A atenuação do calor promoveu o resfriamento e a conseqüente separação entre os elementos água e terra.

Na terra aquecida os vapores - elemento ar - pareciam suspensos no próprio fogo. A distribuição do fogo condicionou, moldou, o elemento terra, criando-se os continentes, as montanhas tal como a geologia explica. Essa terra moldada serviu de apoio, de sustentáculo para a vida biológica nela se estabelecer e assim o aspecto mental de Sophia ter condições de voltar à origem com o transcorrer das eras.

Vemos aqui a grande diferença existente entre a Gnosis Hebraica, a Gnosis de Mani e a Gnosis de Hermes. Esta, mostra que a terra se originou com a finalidade de dar suporte ao espírito, e não como um lugar paradisíaco para ser habitado pelo homem. Por outro lado também não afirma na ser a creação como um todo algo nefasto. A Gnosis de Hermes não afirma como o faz a Gnosis de Mani que afirma ser o universo algo estabelecido paralelamente à criação dos espíritos, ao surgimento de Homem Celeste, e à revelia do lado positivo da natureza.[1]

Segundo a Gnosis de |Hermes a terra foi criada com matéria inferior[2] pela sua constituição, mas ser fundamental como meio de sustentação do processo de salvação dos espíritos caídos. Por isto não cabe o extremismo dos Cátaros que apregoavam que a pessoa deve abster-se ao limite máximo das coisas existentes na terra, por ser esta toda uma criação demoníaca. Muitos afirmam ser a matéria inferior por estar vibratoriamente muito distante da Luz, mas mesmo assim ela não foi criação demoníaca. Na realidade foi modelada com material inferior, mas esse processo foi promovido pelo lado superior da Natureza Divina. Foi, e está sendo, ainda modelada constantemente pelo lado positivo da natureza. É a água que está sendo constantemente transformada e purificada pelo fogo.

De uma modo geral a terra, por não poder se comparar com a natureza essencial presente no nível da Tríade Superior[3] é considerada pecaminosa, negativa, mas é exatamente a matéria densa, a única natureza capaz de suportar a imperfeição humana, a natureza bestial do homem dialético, conferindo-lhe condições de retorno à origem. Dentro deste contexto o homem tem que conviver com essa natureza inferior, pois junto é nela que ele encontra as únicas condições possíveis que possibilitam o retorno à origem.

Na realidade o mundo material[4] é um presídio para o espírito, um lugar traiçoeiro, cheio de armadilhas capazes de reter a pessoa por um longo tempo, contudo se ela quiser é onde mais facilmente encontra as condições ideais, meios idéias de salvação para si.

Ilustração do documento original

Notas

  1. De tema Tipos de Gnosis TEMA 0694 ↑

  2. A matéria é basicamente Prakriti – inferior a Puruska no sentido de ser destituída de mente – mas não no sentido essencial, pois ela também deriva diretamente da consciência. ↑

  3. Na Tríade Superior não existe nível material, tudo ainda é Mente Divina. Somente a partir da fragmentação de Binah (Sophia) foi que surgiram as expressões de energia (Prakriti). De uma forma lata podemos dizer que Prakriti só passou a existir efetivamente após a ação de Puruska. Prakriti não foi gerado e ficado “esperando” pela a ação de Puruska. Na verdade Puruska agiu em Fohat e isto ocasionou a existência de Prakriti sob a forma dos elementos. Assim podemos dizer que a primeira ação de Puruska foi transformar o aspecto de Fohat manifestando-o como Prakriti. ↑

  4. O estudo da Terceira Câmara vem mostrar o presídio diretamente não é o mundo material, mas sim a mente. ↑