Os Dois Mundos
“ Observação é o início da compreensão ”.
Valter da Rosa Borges


Em palestra anterior falamos sobre o limite entre o mundo imanente e o mundo transcendente; dissemos que algumas doutrinas religiosas falam de um momento em que ocorreu a creação deste mundo que vivenciamos. O mesmo também afirma a ciência chegando a estabelecer uma possível data. Ela diz que o universo teve início entre 12 e 16 bilhões de anos passados. Com isto cabe a indagação: O que havia antes? Onde estava contida toda a energia que originou esta fantástica estrutura que chamamos de universo? - No nada? - Como algo pode se estruturar de um nada absoluto? - Para sair deste questionamento tem-se que penetrar num outro enigma também de concepção bem difícil, expresso pela seguinte indagação: Houve um lugar, e um tempo, a partir do qual ocorreu a creação? Na verdade não se pode falar de “lugar”, pois, não existia espaço. Se não havia espaço como poderia haver tempo, desde que esses dois elementos estão intimamente interrelacionados? Como mencionar “tempo” se coisa alguma existia para conceituá-lo? - A resposta para essas indagações nos é dada pela admissão da exigência de dois mundos: Um deles, o imanente, este que vivenciamos e que surgiu num determinado momento do passado e no qual se manifesta o tempo cronológico – tempo linear – o espaço, e energia pura, ou estruturada sob as mais diversas formas. O outro, o mundo transcendente, em que todas as qualidades que possamos conceber não têm sentido algum; mundo em que não existe nem espaço, nem cronologia e nem coisas, conseqüentemente tratando-se de algo totalmente inconcebível para a nossa compreensão limitada.
A astrofísica se vê diante de um imenso enigma quando ela certifica a existência dos chamados “buracos negros”, pontos no universo em que sistemas estelares inteiros são tragados e desintegrados, mas, ela não sabe para onde vai toda a energia resultante. Extinguir-se-ia? – Como algo pode se extinguir? – No mundo imanente nada se extingue, tudo se transforma, como enunciou Lavoisier. Seria diferente em se tratando de mundo transcendente? Num buraco negro a energia, ou seja, lá o que for que resulte, parece desaparecer deste mundo. Se energia não se extingue, se não volta ao nada absoluto, então deve haver um “lugar” ou uma “condição” considerada para receptáculo. Para este espaço parece não ser, então que lugar é esse onde “deságuam” os buracos negros? Possivelmente o mesmo de onde a creação surgiu. Alguns astrofísicos dizem que ele estabelece os chamados “buracos de minhoca” - elo entre um “buraco negro” e um “buraco branco”.
Segundo a teoria mencionada antes, a matéria transformada em energia desapareceria num ponto deste universo e surgiria num outro ponto e numa outra época deste mesmo mundo. Há hipóteses de que este universo não é único, de que existem outros. Haveria outros universos semelhantes a este existindo em uma dimensão diferente. Seriam, pois, os citados “universos paralelos”, em outras palavras, “mundos imanentes paralelos”. Neste caso o que desaparecesse num universo reapareceria num outro. Tudo o que fosse “tragado” num “buraco negro” - porta de saída - seria ejetado por um ponto oposto “buraco branco”, ou um “quasar” num outro. O percurso entre o ponto de imergência e o de emergência é popularmente chamado de “buraco de minhoca” ou, como chama a ciência, “Ponte de Einstein-Rose”, trajeto entre dois universos paralelos ou entre pontos distintos em espaço e em tempo dentro de um mesmo universo.
Admitindo-se que seja assim ainda persiste a indagação: E antes da creação onde existia a energia que emergiu formando o primeiro universo? Mesmo que agora a energia se transfira de um universo para outro, o que acontecia antes deste universo ainda não haver sido creado? Ele foi creado como resultado da extinção de um outro? E o primeiro deles de onde veio? Seria eterno esse jogo de transferência de universos? Mas, mesmo que seja assim persiste uma indagação muito difícil de ser respondida. Tratar-se-ia de um jogo eterno, se um universo é algo que depois de um determinado tempo desaparece e reaparece como um outro, um jogo de mergulhar e emergir, então se indaga: Isto se processa dentro do que, ou seja, uma transferência de algo dentro do que?
Acreditamos ser mais fácil se entender tudo isto partindo daquilo que dizem algumas doutrinas. Desde as mais remotas civilizações este questionamento tem sido feito. Isto era debatido como filosofia pelos atlantas. Neste ciclo já os Vedas falavam da existência de um “mundo transcendente”, o “Mundo de Brahman” do qual este mundo se originou.
No Antigo Egito, Thoth (Hermes) deixa isto claro no Diálogo com Pimandro. Ali é mostrado que existe um outro plano – o Absoluto – do qual este mundo imanente é parte. Na verdade ele é apenas uma manifestação mental do próprio Absoluto, como temos visto em algumas palestras e mais detalhadamente na seguinte.
Tanto os Vedas quanto Thoth de forma alguma afirmaram a existência de dois mundos distintos, e sim que só existe um, aquele que temos chamado de Mundo Transcendente, e que o Mundo Imanente é, na verdade, apenas um aspecto daquele. As doutrinas védicas afirmam existir realmente este mundo, que chamamos de imanente, apenas existindo uma ilusão aceita como realidade – “Mundo de Maya”. Na verdade só existe UM que é Brahman, o mais são manifestações da Mente Cósmica.
Para um melhor entendimento vamos usar um desenho. Um raio de luz único quando atravessa um prisma se desdobra em sete raios distintos. Podemos estabelecer como analogia que o raio único que penetra um prisma emerge com sete raios. Estes não foram criados no interior do prisma, na verdade já estava contido no raio incidente. Essa imagem como uma forma de entender que estabelecer uma analogia entre mundo Transcendente e Mundo Imanente.
Transcendente Limite Imanente
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Figura 1
Antes da creação onde existia Deus? - Na verdade é uma maneira bem cômoda se dizer que existem dois mundos, um imanente contido num outro infinito transcendente, mas mesmo assim não é muito fácil isto ser compreendido, como veremos na próxima palestra.[1]

Notas
Visando uma forma didática de ensinar elevados conceitos sobre a existência, nestas palestras vamos considerar como se existissem realmente dois mundos. ↑